O saudoso tempo do fascismo – 21 – por Hélder Costa

Teatro Operário de Paris – I

 

Paris, fim dos anos 60. Um milhão de portugueses, fugidos à fome, à Pide, à guerra colonial, e também alguns que, muito simplesmente, procuravam a liberdade de viver e de pensar.

 

A interrogação para os que já tinham actividade política em Portugal, e que tinham aceitado essa graciosa “bolsa de estudos” do Salazar, era o que fazer com essa enorme massa de emigrantes.

 

Ao lado da actividade política partidária, era evidente que era necessário criar for¬mas de Associativismo, de animação cultural e de apoio social e educacional.

 

Entre as iniciarivas mais influentes conta-se a Liga Portuguesa para o Ensino, apoia¬da pela sua congénere Francesa, de espírito laico e Republicano.

 

Ai se desenvolveu um grupo de teatro, se criou um jornal, e também aí a acção se foi esriolando como consequência de guerras entre grupos políticos.

 

As divergências eram várias entre os exilados.

 

Falando de teatro, havia quem pensasse fazer peças que fossem autorizadas pela Censura em Portugal (!); outros, apresentavam peças no centro de Paris, destinadas à intelectualidade Portuguesa emigrada e aos seus amigos Franceses; e até havia uma escória (que eu me recuso a pôr ao mesmo nível destes “caminhos diferentes” com quem estou em desacordo), que tentava (e conseguia) obter patrocínios do consulado de POrtugal para formar “um teatro para os Portugueses” – tentativa sempre falhada, tanta era a incompetência dos seus “empreendedores” e a impopularidade do projecto.

 

O começo do grupo

 

O minúsculo grupo que arrancou com a ideia do “Teatro Operário” tinha outros planos: era preciso levar o teatro, a música, a cultura, a arte, a agitação política, os jornais anti-fascistas, a alfabetização, a ajuda social, a quem mais precisava de tudo isso: as centenas de milhares de emigrantes que se empilhavam em bairros de lata e “foyers” miseráveis.

 

 

Em 1970, com “Histórias para serem contadas” de Oswaldo Dragún, assinalou a nossa estreia.

 

O trabalho era difícil? Era. Principalmente, porque era preciso vencer o medo dos emigrantes, e combater os provocadores que, desde a estreia do grupo apareciam com bandeirinhas portuguesas (como se vê, também tinham tendência para a teatralidade!), tentando expulsar os “agitadores que tinham terminado com o belo sossego daquele recanto”. Nada feito. O público dava todo o apoio para nós refi-larmos, e não perdíamos a ocasião …

 

Resultado: no fim do espectáculo, havia debate e convidavam-se eventuais interes¬sados em aderir ao trabalho de teatro. Uns, ficavam a a organizar um grupo nesse local, e para isso, um dos elementos do “Teatro Operário” reservava umas noites por semana para dar o primeiro empurrão aos novos artistas. Outros, mais livres, aderiam ao “Teatro Operário” e passavam a fazer parte do grupo.

 

Em 6 meses criaram-se 2 grupos nos arredores, e o grupo passou de 5 para 17 elementos. E, ao mesmo tempo, deram-se 40 espectáculos.

 

Convém informar que toda esta gente não recebia nenhum subsídio da Secretaria de Estado da Cultura, nem de nenhum partido político nacional ou estrangeiro; os espectáculos eram gratuitos, e todas as despesas eram suportadas militantemente por cada elemento do grupo; convém também informar que isto não era nada de excepcional, dado que todos os elementos eram trabalhadores com salário garantido. (E os desempregados, que também havia, eram ajudados como calhava, pelo colectivo) Lá diz o povo, “quem corre por gosto, não cansa”.

 

Mas isso já é outra conversa.

 

 

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