O saudoso tempo do fascismo – 22 – por Hélder Costa

O Teatro Operário de Paris II

 

18 de Janeiro de 1934

 

Este foi o título do 2° espectáculo, já seguindo a linha da tentativa de criação colectiva.

 

Porquê procurar a “criação colectiva”? Porque nenhum de nós tinha experiência suficiente para definir uma linha dra-marúrgica ou estética, e fundamentalmente porque o trabalho no teatro tinha tam-bém objectivos pedagógicos (melhor dizendo, de politização, de tentativa de criar futuros militantes anti-fascistas).

 

E foi assim que se escolheu estudar essa data do movimento revolucionário por-tuguês, um acontecimento único: os operários da Marinha Grande, reagindo con-tra a fascização dos Sindicatos ordenada por Salazar, prenderam a Guarda Republicana e o chefe dos Correios, e durante algumas horas implantaram o sovite da Marinha Grande!

 

A repressão foi implacável, e muitos terminaram os seus dias no Tarrafal.

 

Como se depreende pelo tema e seu resultado, não poderia haver a glorificação cega da acção; mas era necessário, nesses tempos de absoluta passividade partidária e cívica, dar a conhecer marcos da luta popular para que as massas se mobilizassem e começassem a criar a consciência da necessidade da revolta. Mesmo que fossem derrotas.

 

Começou-se pelo princípio: recolha dos documentos da época, tanto de militantes que tinham participado, como de textos oficiais do Governo, discursos de Salazar, etc.

 

Seguiu-se a sub-divisão do grupo em pequenas equipas, responsáveis pela escrita de cenas previamente discutidas e seleccionadas.

 

E depois, os ensaios, onde tudo era re-discutido e posto em causa … até à gloriosa estreia em 1971, num centro de apoio ao bairro de lata de Nanterre (Paris).

 

Nessa altura, já começávamos a ter uma espécie de rede por onde circulávamos com as peças: foyers, casas de cultura, clubes portugueses (que ajudávamos a construir e que, em muitos casos, estavam ligados a igrejas católicas ou protestantes), sindi¬catos …

 

Com o 25 de Abril, esta peça teve ampla divulgação com várias montagens em meios Universitários e Associações populares, o que demonstra a verdade do que julgávamos importante: divulgar momentos da História que foram sempre oculta- dos pelo fascismo.

 

 

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