O saudoso tempo do fascismo – 23 – por Hélder Costa

o Soldado

 

Qual era o problema n? 1 da nossa juventude, nessa época?

 

Sem dúvida nenhuma, a Guerra Colonial.

 

Centenas de milhares de famílias tinham fugido para a emigração para salvar os fi¬lhos da ida para a guerra, e contavam-se por milhares os refractários e desertores que procuravam asilo por toda a Europa.

 

Era evidente que tínhamos de tocar esse tema, e foi o nosso trabalho seguinte. O sistema foi o mesmo – investigação, leitura atenta dos magníficos textos racistas de Kaulza de Arriaga, consulra de documentação dos movimentos de libertação, particularmente da Mensagem aos Soldados Portugueses de Samora Machel, texto do Manifesto dos Soldados Portugueses (apelando à deserção com armas), ampla¬mente distribuído nos quartéis em POrtugal e Colónias, e testemunhos ao vivo dos que tinham tido as experiências de deserção ou de guerra.

 

Com esta peça deu-se mais um avanço na recusa do carácter propagandístico e na forma naturalista; fomos percebendo que o público popular era extremamente inteligente na percepção das contradições, e sensível e aberto à inovação estética. (Claro que não era por acaso que Rosa Ramalho e ceramistas do Norte cultivam o fantástico, que António Aleixo consegue infiltrar filosofia no enquadramento da quadra, que a Arte Africana influenciou Picasso … que … que … ).

 

 E assim, com estas experiências bem práticas e bem vividas, fomos aprendendo a perceber a diferença entre o popular e o populismo, e a arriscar cada vez mais numa linha depurada de espectáculo, leve, sem maquinaria excessiva, investigando a metáfora popular, assente no humor e na sátira.

 

“O Soldado”, estreado no dia 25 de Dezembro de 1972 na Maison des Jeunes et de la Culture de FRESNES, teve uma carreira brilhante por toda a França e deslocações a Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Dinamarca e Suécia (onde as rádios e tele¬visões assinalaram a nossa passagem com entrevistas e gravações).

 

Com o “milagre de Abril”, muitos voltaram para casa, para continuar a luta pela liberdade e pela democracia.

 

Mas os que ficaram ainda mamaram a peça que estava em ensaios desde 1973: “A terra a quem a trabalha!”. Que raio este Teatro Operário! Parece que adivinhava as lutas que se iriam passar no nosso meio rural!

 

Termino citando um excerto de um texto que escrevi para introdução de uma edição da Centelha sobre o “Teatro Operário”;

 

( … ) saber divertir e saber fazer rir, tem a ver com a procura de uma técnica emo-cional. Mas nós não queremos que o nosso público esteja perante os nossos espectáculos como se estivesse a ouvir anedotas. ( … ) excluídos o slogan e o discurso, a lição’ professoral e enfadonha, a angustia, o pessimismo e o derrotismo, temos de saber comunicar de forma dialéctica e contraditória os dados, informações e emoções indispensáveis para que os cérebros e sensibilidades se abram ao que propomos. ( …. )

 

Como? Talvez seguindo uma opinião de Brechr: “Se o actor não quer ser nem um papagaio nem um macaco de imitação, precisa de assimilar os conhecimentos da sua época sobre a vida social participando na luta de classes”.

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