O saudoso tempo do fascismo – 24 – por Hélder Costa

O humor e a ironia- I

 

Nem só de lágrimas vive o homem.

 

E não há melhor resposta contra a repressão, de ontem e de hoje, que usar o riso e a ironia para ridicularizar a prepotência e forçar à mudança de “costumes e ideias feitas”.

 

Claro que a Censura estava atenta e nunca deixou de punir com o lápis azul e outras medidas de carácter económico os que se arriscavam a rir do chicote fascista. Foi assim que terminaram “Os Ridículos” e o “Sempre Fixe”, para citar os órgãos de imprensa humorística que marcaram época.

 

E é nessa prática e nessa auto-defesa que se encontram as razões do êxito da revista à portuguesa com as piadas e os sub-textos referentes ao Santo Antoninho, às abóboras (lembremos que a alcunha do inenarrável Américo Tomás, último Presidente da República do fascismo era o “cabeça de abóbora), e mil e outras referências.

 

As anedotas, arma popular por excelência, nasciam como cogumelos, exercendo a sua função pedagógica de libertar o espírito, limpar as teias de aranha e o medo, e consequentemente preparar a disponibilidade para uma acção mais enérgica contra a decrépita e vergonhosa ditadura, a mais antiga da civilizada Europa.

 

Uma das mais célebres, rezava assim: De noite, um bêbedo muito bêbedo ia pela rua aos trambolhões, de vez em quan-do parava e começava a gritar:

 

– Eu, se tivesse cinco tostões comprava o Salazar! Eu, se tivesse cinco tostões comprava o Salazar!

 

Claro que ao fim de um bocado foi preso, e no dia seguinte foi apresentado ao tribunaL. O juiz – o senhor praticou um acto gravíssimo. Lembra-se?

 

O bêbedo – oh senhor doutor juiz, eu estava um bocado bebido, sabe …

O juíz – isso não é desculpa. O senhor andava a dizer que se tivesse cinco tostões comprava o Salazar!

O bêbedo – oh senhor doutor, nem me diga isso. Um homem quando está bêbedo lembra-se de comprar cada merda!

 

Quando morreu o marechal Oscar Fragoso Carmona, Presidente da República do primeiro consulado fascista com Salazar em Presidente do Conselho de Ministros, estava em voga uma canção brasileira que Começava “Tomara que chova três dias sem parar … “, e no dia do funeral já se cantava

 

Tomara que chova três dias sem parar

Lá se foi o Carmona

Já só falta o Salazar

 

E ainda; Dois Alentejanos passeiam pela aldeia, e vão falando.

 

 – O compadre, há uma coisa que eu não percebo. À porta do barbeiro está pendurada uma navalha, o sapateiro tem lá um par de botas, e ali no quartel da guarda não está nada a indicar o que eles são …

 

-Mas o que é que o compddre queria que lá estivesse?

 

– Pendurava-se um guarda Republicano e sabia-se logo.

 

– Ó compadre, o homem depois começava a cheirar mal …

 

– Mudava-se todos os dias!

 

O humor constituia uma forma fantástica de auto-defesa Contra qualquer derrotismo. A título de exemplo, recordo como foi tratada uma situação extremamente grave com um colega que tinha sido preso. Ele usava óculos e não resistindo a interrogatórios e torruras de sono, partiu as lemes e ingeriu os cacos de vidro. Esta tentativa de suicídio, felizmente não resultou, mas esse caso emocionou especialmente a massa estudantil e a população cm geral. Quando ele voltou, e depois dos abraços e da alegria, tinha à sua espera duas anedotas; Ele saiu da cadeia e, evidentemente, tinha de ir comprar óculos. Dirigiu-se a um oculista, e, como era conhecido, o empregado perguntou-lhe:

 

– Ah, é o senhor, quer outros óculos, claro! Diga-me, é para embrulhar ou come já?

 

E a seguir, havia outra. Ele ia ao oculista, o homem perguntava-lhe que tipo de ôculos é que queria, e ele respondia:

 

– Desta vez quero experimentar Llntes de contacto.

 

– Ah, o senhor anda a fazer dieta!

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