O saudoso tempo do fascismo – 27- por Hélder Costa

O benemérito – I

 

Vindo do nada, como ele gostava de dizer, tinha amealhado uma bela fortuna.

 

E como a vida lhe tinha ensinado que ostentação de riqueza era garantia para futu-ros bons negócios, comprava as ultimas marcas de carros e até tinha mandado fazer um de encomenda.

 

– Igual a este é que ninguém tem, e dava umas palmadas na carroçaria do “animal”, como se fosse o velho burro com que calcorriara terras e casas perdidas vendendo peixe, linhas, dedais, cal, carvão, panos de Espanha, a seguir ouro, lotaria, batons e coisas da moda para as moças, bebidas esquisitas, fotografias de boas maganas para os moços se distraírem, seguiu – se o maná das fotografias pornográficas, depois também levava recados às escondidas entre amantes proibidos, alguém lhe deu a mão, meteu-se numa obra, depois noutra, vieram fábricas, as más línguas murmuravam que ele andava metido em negócios escuros – invejas, com certeza, não podem ver um pobre com uma camisa lavada – e foi o que se viu: a roda a andar e ele a rir, a comprar tudo, a vender este mundo e o outro.

 

– Alguma coisa aprendi enquanto andei por aí a penar, e ajustava a barriga no colete.

 

Tudo corria bem, mas a dada altura deu em ficar triste.

 

– Oh homem, o que é que se passa? Diziam os amigos da bisca de nove, à roda do tinto e do chouriço.

 

– É que a minha Josefina anda abatida e diz que esta riqueza toda ainda nos pode trazer alguma desgraça, que os homens se queixam que ganham mal, as mulheres andam a comprar tudo fiado, outros estão doentes, não sei o que hei-de fazer. – Bem, isso lá da tua mulher não ligues. Ela é Josefina, tens de ser o Napoleão.

 

 – Mas eu só sou o Manel das berças.

 

– Mas afinal qual é o teu problema?

 

– Não gosto que digam mal de mim. Queria que esta gente percebesse o bem que lhes tenho estado a fazer. Isto é uma grande ingratidão, porque se não fosse eu, o que era feito destes desgraçados?

 

– Oh homem, ajuda à construção de uma nova igreja, o padre diz bem de ti na missa, o que é que queres mais?

 

 – Não, isso não é boa ideia. Há aí geme que não gosta de igrejas, nem de padres, nem de procissões. Não, eu quero é uma coisa que ninguém possa dizer mal de muno

 

 – Olha, ajuda o clube de futebol. Falam de ti na televisão, ficas um herói, ainda vais para presidente da Câmara.

 

 – Era o que faltava. Aturar essa gente sempre a discutir comigo, gajos a impingirem-me jogadores, a gente a perder jogos e a dizerem que a culpa é minha! E julgam que eu tenho dinheiro para pagar aos árbitros? Vocês estão doidos! E depois também há para aí uns gajos que não vão em futebóis. Não, eu quero uma coisa em que ninguém possa dizer mal de mim.

 

 

 

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