O orçamento enche o horizonte, embora ainda deixe um espaço para as manifestações dos Indignados. Mas os dois giram à volta do mesmo fenómeno: a tentativa de reconstruir a nossa sociedade, de modo a prolongar a vida do capitalismo, e consolidar o poder do que eufemísticamente se chama os mercados, e que mais cruamente se chama a oligarquia, a funcionar a nível mundial. Eis a única coisa que realmente se globalizou, a oligarquia. Apenas algum desporto profissional, com a ajuda da televisão, tem tido também algum êxito no capítulo, a uma distância muito grande.
Esta noite, a Clara Ferreira Alves, no Eixo do Mal da SIC Notícias, chamou a atenção para que a seguir aos cortes brutais nos vencimentos e pensões da função vamos assistir ao agravamento da emigração, e que se vai passar à segunda fase do processo: as privatizações a preço de saldo de tudo o que valha alguma coisa. Ela ou outro dos elementos do programa, não me lembro se o Daniel Oliveira ou o Pedro Marques Lopes, referiram que se prepara o fim do serviço nacional de saúde e do ensino público em Portugal, como de tudo o que o que se terá progredido depois do 25 de Abril. O Luís Pedro Nunes levantou mesmo a hipótese de Pedro Passos Coelho não ter a noção de para onde está a levar o país.
A 9 ou 10 de Setembro já aqui tínhamos recordado The Shock Doctrine, the Rise of Disaster Capitalism, o livro em que Naomi Klein descreve uma série de reestruturações efectuadas em países saídos de uma crise, financeira ou de outro tipo. Foram todas conduzidas no sentido de desarticular as bases da estrutura económica do país em questão, para depois os elementos estratégicos dessa estrutura serem vendidos o mais barato que possível. É o que neste momento se está a preparar em Portugal. Com a agravante de que o Primeiro Ministro dá cada vez mais a impressão de ser uma pessoa muito impreparada, e de o governo, globalmente, apenas estar preocupado com arranjar dinheiro de qualquer maneira para tapar o défice.
Ouvi na rádio, enquanto guiava, que alguém da União Europeia mandou um recado ao nosso Primeiro dizendo-lhe que o que está a afundar o nosso país são o défice da Madeira e o arrefecimento da economia ao nível internacional, que impede as nossas exportações de aumentarem. Se isto que ouvi se confirma, é uma chamada de atenção e peras para os desvarios do nosso governo.


João, fiquei um bocado confusa com o teu primeiro parágrafo. Não tenho esse descrédito em relação às manifestações dos indignados. Penso que são embriões de revolta a ter em conta.