O Nosso Mês 5 – Lou Andreas-Salomé

 

 

 

Lou Andreas-Salomé  O Nosso Mês

 

 

 

 

 

 

(conclusão)

 

As horas de extrema necessidade caíram sobre ti em Paris, quando a heróica compulsão do toujours travailler, que te co­municou a mão redentora de Rodin, de súbito se vingou, fazen­do-te fantasmagorizar todas as coisas, conforme o que já na Rússia se anunciara, à força de intenções de criação acumula­das. Mas, no meio de todos os terrores, foste tu quem criou, com a tua arte, o aterrador. Do teu legado, chegou-me às mãos, entre outras coisas, uma carta minha onde posso ler ainda a fe­licidade que a tua vitória me causou. Mas igualmente nessa ocasião, o que estava em jogo para mim não eram as tuas obras, que seriam um resultado do processo, mas antes, e sempre, uma preocupação tremenda que me fazia interrogar-me so­bre o caminho que poderia levar à cicatrização da tua cisão co­mo ser humano. E também para ti foi uma difícil decisão saber se devias ou não ceder às exigências do teu editor e publicar o Livro de Horas.

 

O manuscrito deste, que se encontrava guardado em minha casa, foi o ensejo do nosso primeiro reencontro: na Loufried de Gottingen, nome que repetia a inscrição da nossa bandeira des­fraldada na pequena casa de camponeses, em Wolsratshausen.

 

Vejo-te ainda estendido, diante da porta da varanda aberta, em cima de uma grande pele de urso, enquanto o movimento das folhas e dos ramos fazia alternar a luz e as sombras sobre o teu rosto.

 

Rainer, esse momento foi o nosso Pentecostes de 1905. Foi-o até num sentido diferente daquele que tu, na tua emoção ar­rebatada, pressentias. Porque para mim foi ao mesmo tempo como que uma ascensão da obra do poeta acima do homem poeta. Pela primeira vez, a «obra» — que chegava agora ao ser através de ti e que não se sabia ainda o que de ti iria exigir-se me revelou claramente como legítimo senhor e governo da tua pessoa. Com o coração suspenso, sentia em mim algo que sau­dava já as Elegias, que tardariam ainda algumas décadas a nas­cer.

 

Deste nosso Pentecostes em diante, não só lia contigo o que criavas, mas recebia-o e afirmava-o como uma avaliação do teu futuro, que nada poderia deter. E fui então, mais uma vez, tua, de uma segunda maneira — numa segunda donzelia.

 

 

Por onde quer que tenhas morado nas duas décadas seguin­tes, por todos os países, quer buscasses ansioso um lugar cheio de segurança, quer ansiasses ainda com maior impulso por uma mais plena liberdade de peregrino, a qual chegava a ser por vezes em ti uma obsessão de mudança, a tua falta interior de lar era já um facto consumado. Rainer, agora que nós, gente da Alemanha, nos vemos politicamente confrontados com a questão da nossa independência, pergunto-me de quando em quando até que ponto poderá ter afectado o teu destino a forte antipatia que albergavas contra a tua condição de austríaco. Pode-se pensar que uma pátria primitivamente amada, a sua comunidade de sangue, te teriam protegido perante o desespe­ro dos períodos de improdutividade, cujo mais terrível perigo era justamente a tua autocondenação. No chão da pátria, com as suas pedras, as suas árvores, os seus animais, fica algo de sagrado que chega ao íntimo da humanidade de cada um. E quando, mais tarde, vindo da Suíça, escolheste a França, que já se te havia antes tornado insuportável em Paris, elevando-a quase à categoria de nova pátria, com a sua língua, as suas amizades humanas, os teus novos projectos de criação? A tua carta dessa altura falava porém da miséria que te parecia ser, apesar de tudo, voltares perturbado e confuso à tua torre de Muzot. Nada posso dizer sobre o conteúdo propriamente lírico da tua poesia em língua francesa; falta-me para tanto a capaci­dade de uma discriminação devidamente sensível. Mas… injus­tiça minha (confesso-o), não pude ler certas coisas sem experi­mentar suspeita: assim, por exemplo, quando chamas à rosa «fête d’un fruit perdu» — seria só melancolia, ou também de­leite num masoquismo blasfemo? E depois, há uma fotografia tua que me fere em pleno rosto, como uma dor, uma ferida, e que conservo escondida. Quando a recebi, qualquer coisa ex­clamou em mim: ao fazeres em francês, então, a tua poesia, não terás necessitado, nas tuas palavras, do solo estranho para dizeres aquilo que, sem palavras, te arrastava secretamente ao encontro do abismo?

 

Como poderia eu ser justa no meu juízo? Se dentro de mim própria lutava em silêncio com o teu destino e não conseguia chegar a qualquer resultado! Não me era possível ignorar que, por trás do poeta, coroado pelo destino, e do homem, que pe­rante o poeta se desfez, havia ainda Alguém — Alguém que, por nascimento, tu foste até ao fim: Alguém que confiava em si próprio, porque possuía, muito acima de si, Aquele por quem tão seguramente se sentia levado, ao mesmo tempo que aceitava a missão de dele dar testemunho poético. Sempre que voltávamos a estar pessoalmente juntos e falávamos os dois, vivíamos nesse eterno presente do qual extraías a tua confian­ça de homem incomparavelmente cheio de infância e cujos passos não podem errar porque continua a orientá-los o funda­mento primeiro. Fazia-se de novo, então, presente o Rainer com o qual se podia estar de mão dada, como num refúgio inexprimível, e o que se transformava, entretanto, em poesia voltava a construir à tua volta esse mesmo refúgio, como uma espécie de esplendor interminável. Nunca consigo pensar em tudo isso sem que ressoe aos meus ouvidos o poema mais bre­ve do Livro de Horas, esse poema que, no instante da sua com­posição (— Oh, Rainer como perdura em mim tão presente es­se momento! —) me pareceu pronunciado por uma boca tran­quila e alegre de criança:

 

 

Caminho sempre para ti

       com todo o meu caminhar

pois quem sou eu e quem és Tu

       só nós o compreendemos

 

 

(in Rainer Maris Rilke, Lou Andreas-Salomé, Correspondência Amorosa, Relógio d’Água)

 

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