O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 9 – por Raúl Iturra

 

 

 

 

 

Estas minhas observações são deduzidas da noção de cultura social , que reserva à mãe o papel de explicar o real emotivo aos mais pequenos. O pai é útil para conferir as dúvidas sobre o que a mãe tenha dito ou exprimido ou, ainda, manifestado perante a criança. É costume na nossa cultura ocidental, oferecer carinho material em beijos e carícias, cantar canções de embalar, mudar fraldas, amamentar ao peito.

 

Tudo o que o pai apenas pode observar, ou porque não lhe foi ensinado, ou porque não está dentro das formas de agir masculinas do seu grupo social. Esta análise é dos tempos de Freud.

 

Actualmente, começam a verificar-se mudanças relativamente a estas formas de agir. Há jovens pais que embalam, contam histórias, mudam as fraldas e oferecem carinho material em beijos e carícias. Facto que advém do pai ser essa segunda via que colabora ao entender a interacção social, caso esteja presente no lar. Facto comum nos dias do Século XXI.

 

É o que Alice Miller nos faz pensar através do seu livro referido: a criança procura nos adultos respostas do que não sabe, mas, concomitantemente, explora nela própria o saber do bem e do mal para a sua auto estima e conhecimento. Não é em vão que existe uma via oculta no pensamento dos mais novos, como analisa a partir da página 15 do texto citado .

 

 NOTAS:

 

 

O conceito cultura é muito usado em Antropologia e refere usos e costumes de comportamento dentro do grupo social. A primeira definição de cultura apareceu no livro de Sir Edward Barnett Tylor, de 1881, Anthropology, editado por Macmillan &CO, Londres. Na página 403, & 1Capítulo XVI, do texto em formato de papel que tenho comigo, diz: “A opinião pública é uma pressão que constringe a todo ser humano a agir segundo o costume, que fornece as regras de comportamento do que deve ser feito ou não na maior parte dos comportamentos da vida”. O conceito é analisado a partir do parágrafo citado e percorre o caminho de 8 páginas, até à 416. Pode-se apreciar que não fala de cultura, mas sim do seu conteúdo. A palavra cultura nos anos de Tylor era usada também para outros objectivos: “Cultura (do latim cultura, cultivar o solo, cuidar) é um termo com várias acepções, em diferentes níveis de profundidade e diferente especificidade. São práticas e acções sociais que seguem um padrão determinado no espaço. Se refere a crenças, comportamentos, valores, instituições, regras morais que permeiam e identifica uma sociedade. Explica e dá sentido à cosmologia social, é a identidade própria de um grupo humano em um território e num determinado período”. Definição que aparece bem mais tarde, após outras fornecidas por Antropólogos e Sociólogos, pelo qual se abandona, dentro destas ciências, o conteúdo da noção de cultivar a terra passando a ser um conceito da Ciência Social. Mais informação em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cultura. Quanto ao autor: Edward Burnett Tylor (Londres, 2 de outubro de 1832 — Wellington, 2 de janeiro de 1917) foi um antropólogo britânico, irmão do geólogo Alfred Tylor. Considerado o pai do conceito moderno de cultura, Tylor filia-se à escola evolucionista. Na sua principal obra Primitive Culture (1871), que não tenho comigo, sabemos que fornece uma definição de cultura de quase meia página. O comentário do livro especifica o contributo de Tylor e o conteúdo do conceito: Antropologia – esta ciência entende a cultura como a totalidade de padrões aprendidos e desenvolvidos pelo ser humano. Segundo a definição pioneira de Edward Burnett Tylor, sobre a etnologia (ciência relativa especificamente do estudo da cultura), a cultura seria “o complexo que inclui conhecimento, crenças, arte, morais, leis, costumes e outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. Portanto corresponde, neste último sentido, às formas de organização de um povo, aos seus costumes e tradições transmitidas de geração para geração que, a partir de uma vivência e tradição comum, se apresentam como a identidade desse povo. Em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cultura#Principais_conceitos .Tylor, considerado como a cabeça fundadora dos conceitos cultural evolutionism, nos seus trabalhos Primitive culture e Anthropology, define o contexto científico do estudo da Antropologia, na base das teorias evolucionistas de Charles Darwin. Os dados supra mencionados foram retirados da minha memória e dos seus livros que tenho comigo: Anthropology. An Introduction to the study of man and civilization, 1881, traduzido para a língua lusa como: Antropologia. Uma introdução ao estudo do homem e a sua civilização, Vozes, Petrópolis, 1982, e o texto de 1865: Early History of Mankind and the Development of Civilization, John Murray, Londres, traduzido para a língua lusa como: Pesquisas sobre a história antiga da espécie humana e o desenvolvimento da civilização. Em: http://en.wikipedia.org/wiki/Edward_Burnett_Tylor pode-se consultar texto com a sua biografia. Miller, Alice, 1995: Pictures of a childhood, “Childhood and creativity”, é parte do Capítulo 4 do seu livro (1981-Suhrkamp Verlag, Frankfurt und Main) (1985-1ª edição em inglês) 2ª versão, 1998: Thou shalt not be aware. Society’s betrayal of the child, Pluto Press, Londres. Em formato de papel, 331 páginas, 1998, Pluto Press. Sítio http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Alice+Miller+Thou+shall+not+be+aware&btnG=Pesquisar&meta= .Este livro explica-nos como a criança tenta sair do desencanto da falta de carinho, utilizando o desenho. É neste texto que Miller partilha com Freud as ideias sobre as origens das fantasias infantis, no prolongado estudo da memória reprimida, feita por Freud e Alice Miller em épocas diferentes. O complexo de Édipo é colocado de parte, razoando Miller que, no tempo em que as crianças são abusadas, os seus sentimentos, tristezas e raivas não têm destino dentro de uma sociedade que estima que o poder paternal exercido sobre eles é um direito natural. As crianças não têm mais alternativas, excepto as de guardar no foro íntimo ou internar no seu inconsciente, o seu desgosto e angústia, criando uma bancada de fantasia material. O livro apresenta-nos uma nova modalidade de analisar como o inconsciente retêm na memória acontecimentos infantis, que magoam o adulto, mais tarde, quem, sem intervenção apropriada, pode gerar doenças emotivas e condutas destrutivas, quer para a pessoa, quer para a vida social. Antes de fechar esta nota de rodapé, parece-me importante definir memória e a sua repressão: Memória é a retenção e recordação de experiências. Uma memória reprimida é a que se diz ser retida na mente inconsciente, onde pode afectar pensamento e acção mesmo se aparentemente se esqueceu a experiência em que a memória se baseia. Retirado do texto sobre Freud: Memória, memória reprimida e falsa memória, em: http://skepdic.com/brazil/memoria.html. Acrescente-se que Freud definiu memória no seu texto, de 1921, Psicologia de grupo e análise do ego, em formato de papel, texto em Obras Completas, volume. XVIII, 1981, Imago, Rio de Janeiro. Em linha:

 

 http://classiques.uqac.ca/classiques/freud_sigmund/essais_de_psychanalyse/Essai_2_psy_collective/psycho_collective.html.

 

Bem como em Moisés e a Religião monoteísta, (1938) 1990, Guimarães Editores, Lisboa, em formato de papel, 213 páginas. O texto pode ser lido no motor Les Classiques des Sciences Sociales, em:

 http://classiques.uqac.ca/classiques/freud_sigmund/moise_et_le_monotheisme/moise_et_monotheisme.html,

 

 ou no seu texto de 1889, denominado Livro dos Sonhos ou A interpretação dos Sonhos, editado em três volumes por Pensamento, Lisboa, 1988, Vol. I, 163 páginas, Vol. II, 170 páginas e III, 216 páginas. Textos em linha, como e-livro, que se podem ouvir em: http://navega.blogs.sapo.pt/45873.htm1. Parece-me, ainda, difícil fechar citas sobre memória, sem referir Maurice Halbwachs, discípulo de Durkheim e de Henry Bergson, assassinado pelos nazis no campo de concentração de Buchenwald, a 16 de Maio de 1945, aos 68 anos de idade: http://pt.wikipedia.org/wiki/Maurice_Halbwachs. Este autor trabalhou sobre a memória e deixou-nos um legado de imensas obras, que podem ser lidas no motor de pesquisa Les Classiques en Sciences Social:

 

 http://classiques.uqac.ca/classiques/Halbwachs_maurice/halbwachs.html,

 

 sendo a mais importante La mémoire collective, póstuma, aparecida em 1947 em Annales de Sociologie, novo nome para L’Année Sociologique, em 1950 como livro editado pela Press Universitaire de France-PUF, que pode ser lido, tal como Marc Bloch, historiador francês, membro da resistência e judeu, executado em 1944, e autor da obra, traduzida para inglês, Feudal Society,

 

http://books.google.com/books?hl=pt-PT&lr=&id=7FwOAAAAQAAJ&oi=fnd&pg=PR11&dq=++Marc+Bloch+La+Soci%C3%A9t%C3%

A9+Feudal&ots=R4b8mQMqD1&sig=aBPL4JPLQJ27WEYaUcAm6t5Wenw#PPR5,M1

 

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