Rascunho de um longo bilhete-postal que já não serei capaz de escrever – 1. Por Júlio Marques Mota.

 

Uma leitura pessoal sobre o actual executivo,  sobre o fascismo que aí vem,  sobre Nuno Crato,  meu ministro de tutela.  

 

Caro Colega,  Exmo.  Senhor Ministro

 

Em face do desastre total que foram para Portugal  estas últimas eleições, pelas razões que as motivaram, pelas falsas escolhas que elas davam pois trava-se de escolher entre iguais apenas quem iria executar o que outros abusivamente por nós portugueses escolheram, e antes das eleições,  em face do  brutal desconforto de tudo isto, quando tive conhecimento da composição do Governo fiquei satisfeito,  minimamente  satisfeito apenas, diga-se, e somente no que se refere  à educação,  desde o ensino básico ao ensino superior, porque aí havia um ministro que do ensino sabia.


É certo que ser o país governado por Sócrates,  o liberal puro e duro que numa fachada socialista se escondia e em que muita gente acreditava,  um licenciado de um fim-de-semana qualquer,  ou ser o país governado por Passos Coelho,  o liberal puro e duro,  um licenciado nos tempos livres já idos, que como neoliberal se afirmava politicamente, pouca diferença havia,  excepto que enquanto um como neoliberal mentia,  o outro, Passos Coelho,  como neoliberal se assumia.  Havia pois uma vantagem com o actual primeiro-ministro,  sabia-se frontalmente o que era e,  desta forma,  cedo ou tarde as pessoas sentirão a coragem e sobretudo criarão a unidade para vir para a rua e nesta ou sobretudo nas eleições que se lhe seguirem o governo irão fazer cair. Mas havia uma diferença,  entre o governo anterior e o actual,  havia o senhor Ministro Nuno Crato a fazer a diferença,  tal é o nosso sentimento de urgência em ver o nosso ensino melhorado depois do Tsunami de destruição que Maria de Lurdes Rodrigues e Mariano Gago ao país trouxeram,  sentimento de urgência esse que nos fez perder alguma serenidade,  alguma falta de discernimento sobre o ensino que pela sua mão aí vem.  Daí o entusiasmo sentido pela sua pessoa,  entusiasmo profundamente errado como veremos. É certo que nunca o vi criticar a situação calamitosa em que se encontravam as Universidades,  sob a direcção de Mariano Gago e na base de um projecto que a ministra anterior do PSD,  Maria da Graça Carvalho,  e também ela professora no Técnico, tinha já anteriormente elaborado,  é certo que não o encontrei no ISEG,  e lamento profundamente enquanto professor,  quando aí proferi uma conferência sobre Bolonha,  sobre o estado mais que lamentável em que a política de ensino seguida nos estava a conduzir,  ou seja,  para uma Universidade de costas voltadas para o saber,  de costas voltadas para a verdadeira formação das gerações futuras,  a conduzir,  em suma,  para uma Universidade em ruínas.  No máximo a Universidade seria criadora,  de acordo com o que agora se pretende,  de cabeças “bem cheias” em vez de cabeças “bem-feitas”,  teria como função, na lógica do modelo neoliberal aplicado ao ensino. Não o E-ducere (conduzir cada estudante para além de, ensinar cada estudante a autoconstruir-se,  ideia que alimentou as reformas de ensino do pós-guerra) mas sim a função de E-ducare (a função de alimentar que sustentou as reformas de ensino das últimas três décadas) para que cada um de nós seja competitivo,  para que cada um de nós seja ganhador e possa fazer dos outros os perdedores do sistema.  Mesmo aqui,  mudaram de paradigma quanto à Universidade,  porque do objectivo de cabeças de facto bem cheias passou-se apenas ao objectivo de exigir com a passagem dos estudantes num tempo mínimo pelas Universidades que estas cabeças de bem cheias apenas precisam de mostrar que assim parecem estar,  desde que com isso se poupe dinheiro ao Orçamento e se obtenham os futuros trabalhadores quase que indiferenciados e disponíveis para todos os serviços banalizados de que a nossa subalternidade na divisão europeia e mundial do trabalho assim o exija. Conclusão: transformou-se as Universidades genericamente em fábrica de diplomas sem valor,  com o mesmo valor das promessas a que o senhor ministro agora reduz a zero.  Era desta desvalorização do ensino,  dos estudantes e dos professores,  que eu iria falar  na sua e nossa Escola,  o ISEG.  Mas quem era eu para pensar que um futuro ministro me havia de ouvir nas queixas de um velho que viveu sempre de costas para a banalização do ensino e por isso estava ali e que,  por essa razão,  se ia embora? Ninguém,  diria eu na altura.

 

Mas hoje face ao senhor ministro que agora é,  dir-lhe-ei o contrário do que na altura poderia ter pensado,  dir-lhe-ei que sou alguém, neste caso o filho de um menino pobre que eu próprio anteriormente  fui e que à Universidade chegou e que por esta ficou, um menino pobre daqueles portanto que o senhor ministro, coerentemente não pode admitir que pela Universidade possa existir e que assim não poderia pois ir ouvir. Dizer que não sou ninguém,  como acima se diz,  é afirmação para esquecer.  Dir-lhe-ei também que como cidadão e como profissional sou alguém que nunca renunciou ao seu direito de se sentir indignado,  revoltado,  e que se pensa política e culturalmente empenhado e por isso tudo em jeito de rascunho o meu protesto aqui deixo ainda por escrever em bom formato de postal. 


 

Almocei há dias ao seu lado,  ladeado que estava por um amigo meu e meu antigo aluno,  dos mais brilhantes que pelas minhas aulas passaram,  Barbosa de Melo, a quem dei a nota máxima,  numa das disciplinas mais difíceis,  se não a mais difícil desta minha casa que agora vou abandonar,  Economia Marxista de nome e de nome apenas,  que lhe foi imposto pela Comissão Inter-Universitária que era muito bom ver agora renovada. Para além de brilhante aluno é ou foi um bom jogador de ténis com quem às vezes batia umas bolas para vencer o difícil stress de ser professor em tempo de destino por mim escolhido, o ser professor a tempo inteiro.


Estive para me levantar e desejar-lhe felicidades face à situação de termos hoje uma Universidade em ruínas e com vários dos seus reitores nas mesmas circunstâncias,  como se prova bem pelo silêncio pelos reitores tido ao longo destes últimos anos,  com honrosas e raras excepções,  e de ruínas  se fala  também na Universidade de Coimbra com as posições publicamente assumidas  pelo actual Reitor.  Estive para o ir felicitar porque estaria a fazê‑lo face a si que é alguém que de ensino e de alunos percebia,  mesmo com o senão de criticas à Universidade,  estas,  não lhas ouvia.  Mas quando isto pensei,  veio-me à memória a imagem de um filme,  uma personagem muito séria de um filme em que se descrevia o sentimento anti-semita que se vivia na Rússia dos czares.  Advogado de profissão, Bibikov, creio que era assim que se pronunciava o seu nome,  defendia na corte, e contra o sentimento dominante,  alguém que era judeu e que estava fadado para nas caves do czar morrer. Bibikov admitia que um governo apesar de muito injusto, se for bem convencido por dentro, seria modificável,  seria passível de decisões justas.  E o prisioneiro morreu e o advogado não ficou vivo para poder protestar: morreu antes,  enforcado,  nos subterrâneos da corte.  Estamos a falar de um filme visto há mais de quarenta anos no velho cinema Monumental,  agora uma outra coisa como edifício.  O tempo passa,  as representações ficam, e era com esta representação de Bibikov,  assim pronunciado,  que eu caracterizava,  por exemplo,  Veiga Simão.  Com todas as grandes ideias que este defendia para o ensino em Portugal num sistema sem ideias,  ou melhor,  com ideias de violência contra tudo o que era cultura,  contra tudo o que era reflexão, contra tudo o que era sinal de liberdade, mais cedo ou mais tarde haveria de lhe acontecer o mesmo. 

 

E aconteceu, saiu. Lembrei-me desta mesma imagem,  lembrei-me bem erradamente,  aliás,  que esta imagem se lhe aplicaria a si,  senhor Ministro, mais cedo ou mais tarde,  até porque o sistema de agora tem vindo a convergir para o que os italianos chamam já de equivalência funcional do fascismo,  próximo portanto dos comportamentos daquele tempo. Mas agora de equivalência formal, já terá muito pouco,  senhor Ministro,  já se começa a dar sinais claros de que os dois sistemas se estão a confundir,  se estão a sobrepor. Não o fui cumprimentar, não o fui felicitar,  porque no fim e na melhor das hipóteses, eu sabia que seria sempre um Bibikov e então poderia estar a ser desonesto para consigo,  caro colega,  senhor Ministro.  Naquela hora,  foi só por isso,  e já agora,  para não deixar pregado ao chão o meu amigo Barbosa de Melo,  também,  que bem confundido poderia ele ficar.


Enganei-me redondamente,  o senhor pelo que já se viu face à precariedade no seu Ministério instalada e por si sistematicamente defendida nunca será um Bibikov,  o senhor ministro será intelectualmente como os carrascos que o nosso Bibikov assassinaram.  Mesmo aqui um terrível engano com o tempo do verbo ser,  que não deve ser conjugado no futuro mas sim no presente,  o senhor hoje já é….  Com efeito com um governo destes,  com uma crise como esta,  com um ensino em profunda crise por Sócrates assim deixado,  muito dinheiro seria necessário,  muito empenho colectivo era suposto dinamizar para uma verdadeira reforma assim alcançar.  Mas o governo quer ir mais rápido que a Troika, o apoio social a essa reforma, esse, está a ser destruído,  o dinheiro será muito menos ainda do que aquele muito pouco que a Troika nos estaria a deixar e,  então,  chega a ministro,  senhor Ministro,  para fazer o quê,  afinal? A resposta está já bem à vista de toda a gente,  para já chega a ministro para ser,  simplesmente, poder. 


Senhor Ministro, saio desta Universidade com a certeza de que nem a minha capacidade de revolta nem a minha imaginação, nada disto farão eclipsar. Imagino então uma nota de 500 euros e pergunto: o que é este pedaço de papel que nos dá a indicação de 500 euros? É uma nota,  dirá,  mas se assim é,  trata-se do reconhecimento público de uma dívida que a sociedade honra em todo o seu espaço em que a mesma é reconhecida,  dadas as convenções estabelecidas.  Simples,  senhor ministro,  é isso que caracteriza esse papel,  com a qualidade de dinheiro em circulação.  É uma dívida que circula livremente,  a nossa nota de 500 euros,  é uma promessa de pagamento socialmente garantida pela sociedade contra a entrega do documento de dívida, a nota, senhor ministro.

 

 

(Continua) 

 

 

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