Qual a origem da língua mirandesa? (O mínimo sobre a língua mirandesa – 4), por Amadeu Ferreira

 

 

 

O MÍNIMO SOBRE A LÍNGUA MIRANDESA

 

 

     por Amadeu Ferreira

 

 

(continuação) 

 

 

4. Qual a origem da língua mirandesa?

 

 

A língua mirandesa tem a sua origem num dos romances que se formaram na Península Ibérica a partir do latim, o romance que deu origem à família de línguas astur-leonesas –onde a língua mirandesa se integra – ,que se formaram entre os séculos VI-VIII. Toda a região estava integrada no império romano e era habitada pelo povo Astur, e era a tribo dos Zoelas ou Zelas que tinha assento no que é hoje a terra de Miranda, embora ocupando uma área mais vasta que abrangia uma parte importante do actual distrito de Bragança, em Portugal, e a região de Carvalheda, de Alba e de Aliste, delimitada pela serra de Culebra e os rios Esla e Douro, na actual província de Zamora, em Espanha.

 

 

É necessário lembrar que, além do latim, outras línguas contribuíram para a conformação do astur-leonês. Desde logo a língua falada pelos povos que tinham assento na região, mesmo antes da chegada dos romanos, isto é, os astures e, no caso particular da terra de Miranda, os zoelas. Sucessivamente, por esta região passaram, dito de forma muito geral e imprecisa, suevos, visigodos e árabes que foram deixando a sua marca, embora pouco pronunciada no caso dos suevos e dos árabes. Em qualquer caso, a terra de Miranda foi sempre, desde há mais de dois mil anos, uma terra de fronteira, facto que é sempre gerador de influências dos povos vizinhos e daqueles que para lá se deslocam para estarem mais afastados do poder dos reis. Essa característica de terra raiana, no período do nascimento da língua, foi particularmente significativa nos séculos VI-VIII, pois sabemos que por aqui passava o limes (faixa de fronteira) entre os reinos suevo e visigodo, facto bem documentado pelo topónimo Mogadouro.

 

 

O astur-leonês foi a língua falada no reino de Leão, desde a sua origem,com excepção da zona galaico-portuguesa. Nessa altura era a língua da corte e dos mosteiros, escrita em milhares de documentos até aos séculos XIII-XIV. Era, portanto, uma língua de cultura e jurídica, seguida pelas instituições, nomeadamente os mosteiros, sendo de destacar na terra de Miranda a influência dos Mosteiros de Moreruela, junto a Zamora, e de San Martin de Castañeda (Sanábria). No tombo do mosteiro de Moreruela ficaram-nos inúmeros documentos relativos às Terra de Miranda nos séculos XII-XIV, muitos deles escritos num leonês muito próximo do mirandês actual.

 

 

Deve dar-se um particular destaque à influência moçárabe na língua mirandesa, já que muitos foram os colonos moçárabes que vieram para a terra de Miranda depois da expulsão dos árabes, logo do início da expansão do reino de Leão. Essa influência moçárabe, porém, ainda está pouco estudada.

 

 

Desde a sua fundação, a fronteira política de Portugal não coincide com a fronteira linguística do galaico-português. Sempre se falou outra língua em Portugal, além do português, a língua astur-leonesa, que, nesta região, evoluiu para o actual mirandês. Pode mesmo dizer-se que uma parte importante da nobreza essencial à formação de Portugal, como os Bragançãos, e os próprios príncipes que estão na sua origem, como D. Teresa e seu filho, D. Afonso Henriques, eram também falantes de leonês. Portanto, em conclusão, a língua mirandesa é, a justo título, uma língua de Portugal, elemento essencial da sua história, da sua cultura, da sua identidade e da sua existência.

 

 

Alguns autores procuraram demonstrar que o mirandês não era originário da terra de Miranda, mas se devia a colonização leonesa levada a cabo nos séculos XIII e XIV, quer pelos frades do Mosteiro de Moreruela quer por outros colonos leoneses. Porém, além de sabermos hoje que essa colonização foi muito pouco profunda e se limitou a algumas aldeias da terra de Miranda, temos todo um conjunto de outros elementos e documentos que nos mostram inequivocamente que a língua mirandesa sempre teve assento no seu actual território e não resulta de uma importação tardia. Desde logo, em documentos do século XII, relativos a aldeias da terra de Miranda e muito anteriores à colonização cisterciense de Moreruela, já encontramos topónimos escritos em língua astur-leonesa, com as características da língua mirandesa, como é o caso da doação do reguengo de Palaçoulo por D. Afonso Henriques, em 1172, a Pedro Mendes, L Tiu, topónimos esses que ainda hoje continuam a ser usados com a mesma forma que apresentam nesse documento. Além disso, a tese do despovoamento da região de Miranda durante o período posterior à conquista árabe, em que assentam as opiniões acima referidas, não lhe é hoje reconhecido qualquer fundamento, pois está demonstrado que houve continuidade de povoamento da terra de Miranda desde antes da fixação dos romanos nesta região, habitada por uma específica tribo astur, os zoelas ou zelas, persistindo um número significativo de topónimos anteriores à vinda dos árabes.

 

 

A partir da criação da vila de Miranda, em 1289, mas sobretudo a partir do século XVI, com a elevação de Miranda do Douro a cidade e a criação do bispado (1545), a língua mirandesa  enveredou por caminhos que lhe fizeram ganhar características próprias no conjunto das línguas astur-leonesas, embora sem pôr em causa a sua pertença a essa família de línguas. As características próprias que o mirandês veio a ganhar exigem a sua consideração como língua, e não como mera expressão dialectal de alguma outra língua astur-leonesa.

 

 

Até ao fim do século XIII a região de Miranda não teve contactos com o português, tal apenas acontecendo, em grau diminuto, após a elevação de Miranda a vila (1298), com a vinda de funcionários do rei. Esse contacto com o português não cessou de aumentar, sobretudo a partir da constituição do bispado de Miranda (1545), trazendo uma significativa influência à língua mirandesa, outro tanto se dando com o castelhano, nomeadamente dos séculos XVII a XIX, factos que ajudaram a que a língua mirandesa ganhasse características muito próprias quer ao nível da sua estrutura quer ao nível do seu vocabulário, embora sem deixar perder a sua essência leonesa.

 

 

Tal como a língua mirandesa, também outras línguas astur-leonesas ganharam algumas características próprias, de que é exemplo o asturiano, falado no principado das Astúrias e reconhecido como língua por estatuto do principado. Apesar das diferenças, essas várias línguas nunca perderam o ar de família que as continua a unir, quer em termos estruturais quer em termos históricos.

 

É nessa base de reconhecimento dos laços históricos comuns, mas de aceitação das diferenças que os ventos da história lhe fizeram ganhar, que é possível restabelecer e desenvolver laços seguros entre as várias línguas astur-leonesas, sem menorizar quem quer que seja e sem deixar de reconhecer as diferenças efectivamente existentes. Esse é um processo delicado, necessariamente lento, e que vai exigir ainda muito trabalho e algum tempo, já que deve ser um processo não apenas exigido por alguns intelectuais, mas pelos falantes em geral e pelas suas instituições representativas.

  

  

 

     (continua – 5. Como se deu o processo de menorização da língua mirandesa?)

 

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