Como se deu o processo de menorização da língua mirandesa? (O mínimo sobre a língua mirandesa – 5), por Amadeu Ferreira

 

 

 

O MÍNIMO SOBRE A LÍNGUA MIRANDESA

 

 

     por Amadeu Ferreira

 

 

(continuação) 

 

 

5. Como se deu o processo de menorização da língua mirandesa?

 

O desaparecimento do Reino de Leão privou a língua astur-leonesa de um centro de poder que permitisse a sua irradiação e, sobretudo, a sua uniformização e consolidação como língua. É preciso lembrar que, nessa altura dentro de cada língua predominava uma grande diversidade de local para local, fruto de influências e origens com diferenças importantes e ausência de uma política centralizada capaz de a unificar quanto a todas as suas características, levando ao seu acantonamento progressivo nas zonas rurais.

 

Nessa situação, as línguas astur-leonesas, e também o mirandês, ficaram excluídas dos grandes movimentos culturais dos séculos XV-XVI, como o humanismo e o renascimento, que permitiram o enorme salto dado pelas línguas de poder, ditas nacionais, como o português e o castelhano. É por essa altura que se inicia ou acentua o processo de menorização dessas línguas, bem expresso, por exemplo, em alguns autos de autores teatrais do século XVI como Juan del Encina, em Espanha, e Gil Vicente, em Portugal, mas presente com o tópico obrigatório em quase todos os autores desse tempo, incluindo Miguel de Cervantes. É por este período que culminam os processos de implantação das chamadas línguas nacionais, quer como línguas da administração pública, quer como línguas institucionais em geral. De grande eficácia institucional foi o chamado movimento para «rezar em lingoagem» (português), desencadeado e imposto pelas Constituições Episcopais, sobretudo nos séculos XV e XVI, que impôs o português como a única língua digna de falar com Deus. É essencial não esquecer que a evolução histórica que liga o mirandês às outras línguas astur-leonesas é também a raiz das características que a conformaram como uma língua de Portugal, razão que talvez seja a principal da sua subsistência até aos nossos dias.

 

Sobretudo desde essa altura, o mirandês passou a ser considerado como fala de gente inculta, como «fala charra» ou «fala caçurra», objecto de chacota. A regra a seguir, por parte da quase totalidade dos mirandeses letrados, era abandonar a fala materna em favor da língua «grabe» ou «fidalga», o português. Havia-se perdido o elo com a sua origem, e essa perda de memória histórica levou a que lançasse raízes a ideia de que o mirandês não era uma língua outra, mas um português mal falado, uma mera variedade do português, própria de gente atrasada e inculta. Tal conjunto de factos teve profunda influência na língua em si, mas também no uso que passa a ser exclusivamente intracomunitário, assumindo o português o estatuto de língua institucional a todos os níveis, a partir daí se entranhando nos mirandeses alguns complexos em relação à sua fala, que ainda não desapareceram completamente.

 

A mesma perda de memória histórica é responsável por tanta gente ter estranhado o reconhecimento, através de lei, do mirandês como língua. Também por isso, alguns ainda pensam que o mirandês nasceu como língua em 1999, mas a lei limitou-se a reconhecer o que já era uma língua há muitas centenas de anos.

 

 

     (continua – 6. Porque se manteve o mirandês até aos nossos dias?)

 

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