Nota de Introdução, nota de leitura, sobre o texto de François Morin Produtos derivados e derivas das dívidas soberanas que será apresentado a seguir

Em Setembro publicou-se neste nosso blog a seguinte nota:

 

“Como cidadão aqui deixo publicamente o meu apelo a Durão Barroso e ao conjunto de dirigentes da Europa, em especial a Michel Barnier, que na Europa é suposto estarem dentro do avião que a destino incerto esta está a levar, a todos eles apelo que, de uma vez por todas, aprendam com as lições da História, aprendam com a crise na Alemanha de final do século XIX, aprendam com as lições de Roosevelt. A todos apelo pois para que as operações de venda a descoberto sejam condicionadas a uma forte percentagem de colateral, até mesmo de 100 % e como garantia de entrega imediata, a todos eles apelo para que as operações especulativas a descoberto, naked short-selling, sejam completamente proibidas e que esta proibição seja estendida a todos os organismos domiciliados mesmo fora da Europa. A todos eles apelo igualmente que os CDS e em particular os CDS nus, os naked CDS, sejam igualmente proibidos e à mesma escala espacial e tudo isto enquanto não se alcançarem pelo menos as posições de produção ao nível da zona euro existentes antes da crise rebentar, antes de 2007. Que todos os meios legais sejam desenvolvidos para tornar esta proibição uma realidade eis pois aqui o meu apelo individual.”

 

Há cerca de um ano num encontro com Mario Nuti e François Morin questionei-os sobre a hipótese de manipulação ao nível dos CDS, ao nível da especulação, porque seria necessário perceber o que é isso de um ataque especulativo contra títulos soberanos, como é que este ataque tecnicamente se exerce. Ignorância minha aí declarada, certo, ignorância aqui confirmada. A questão nesse encontro surgia porque me lembrava de Stiglitz e de especialistas com quem trabalhava que olhavam para os gráficos e procuravam descortinar as razões de dadas variações nas evoluções das variáveis em análise, sobretudo quando eram pequenas variações, creio .

 

Um bom operador nestes mercados da dívida soberana saberá “sentir “ a intervenção de um grande operador, de um big fish, e sentir imediatamente que alguém com peso está a vender a descoberto os títulos que tem ou nem sequer tem, que alguém está a comprar seguros sobre títulos que tem ou também não tem, em volumes que dá essa indicação aos mercados, por pequeno que seja esse sinal. A partir daí , os big fish alinham-se na jogada e as jogadas podem ser múltiplas, sucessivas, ora um ora outro de entre os vários big fish, de entre os grandes operadores, a que se dá o nome pomposo até, Operadores Especializados de Valores do Tesouro, e os títulos soberanos vão descendo de valor, os CDS vão aumentando de spread, os especuladores vão ganhando e pior ainda é com todas estas variações a reflectirem-se nas emissões seguintes que os cidadãos hão-de depois vir a pagar, com taxas de juro bem mais altas . Desta forma, seria pois o mercado paralelo e a manipulação nos mercados a determinar os valores das emissões primárias. Era esta a minha posição, mas disto eu não sabia nada, nada mesmo. Só se forem grandes operadores, especuladores de muito peso mesmo, responderam-me. Aí lembrei-me de alguns, que até Estados soberanos venceram. Depois fui estudar os CDS e publiquei um texto.

 

Mais tarde já, fiquei a saber que nem é preciso nada disso, basta instalar um rumor em qualquer ponto da cadeia financeira, bem longa ela é afinal, e esse rumor multiplica-se, perde-se depois nos rastos possíveis que nunca mais ninguém detectará. Mas também pode nem isso ser preciso. Basta alguém enganar-se como sucedeu no mês de Setembro passado, basta alguém por engano de sinal colocar um gráfico ao contrário e a leitura, certa para o que está no gráfico mas errada porque o gráfico está errado, é imediata. Um pequeno sinal, a leitura, como nas estatísticas de Stiglitz, ou como se pode agora fazer quando se olha para para a taxa de câmbio recente do euro contra franco suiço ou do euro contra dolar e sente-se que naquelas variações estão muitos milhões de euros á procura de outros portos de abrigo e os bancos a ficarem sem liquidez. No caso do gráfico errado dava-se a ideia, com o gráfico errado, de que o banco estava com problemas de liquidez e com a corrida e com a especulação que imediatamente disparou, o ficou ficou limpo, broken, como dizem os ingleses, falido como se diz na minha aldeia. E o gráfico de errado, passou a estar certo!

 

A resposta de Nuti e de François Morin ficou por aqui. Agora leio este texto e por aqui “vejo” um recado á distância enviado por uma pergunta num jantar formulada: “Assim, a dificuldade de desenvolvimento da resposta europeia para o salvamento das finanças públicas gregas pode apenas incentivar as forças especulativas a prosseguir a sua ofensiva contra as dívidas soberanas e a moeda europeia. Estas forças podem tomar um terrível prazer em fazer rebentar sucessivamente as bolhas de dívidas públicas da zona euro. Têm os meios e podem-se coordenar, pelo menos espontaneamente”.

 

E leio ainda: Consequentemente, os produtos derivados, quer sejam soberanos ou outros, tornaram-se frequentemente fortes indicadores para fixar o valor do subjacentes, e no caso dos CDS soberanos, para fixar o valor das obrigações de Estado. É nesta configuração que “o financeiro” se torna mais importante que o suporte “ físico” (ou seja o subjacente). Este facto pode ainda ser mais acentuado e mais problemático quando a venda de produtos derivados não se apoia sobre a posse do produto físico correspondente. É assim que se coloca hoje a questão “dos CDS nus”, ou seja de um mercado de produtos de cobertura completamente desligado do subjacente, ao qual no entanto este se refere sempre. É aí que se situa, sem a menor dúvida, o seu maior perigo especulativo.

 

Cada um leia estas duas frases como quiser. A partir de agora no blog A viagem dos argonautas têm à vossa frente um texto de François Morin de grande qualidade sobre os “Produtos derivados e as derivas da dívida soberana” e sobre os grandes projectos que à Humanidade devem animar e que esta deve procurar realizar, também. Lê-lo e nele pensar, deve ser intelectualmente um imperativo.

 

Boa leitura.

 

Coimbra, 23 de Outubro de 2011 Júlio Marques Mota

1 Comment

  1. Eu já li e, dentro daquilo que é a minha ignorância no campo da economia, só consegui ficar a entender que a única atitude a tomar seria tomarmos conta dos bancos todos sem excepção, senão não há solução para esta armadilha bem urdida ao longo de décadas. Já sei que isto nunca vai acontecer, mas a minha esperança num mundo normal também há muito se desvaneceu.

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