Depois de tudo resta o tédio – Ethel Feldman

 

 

Ethel Feldman  Depois de tudo resta o tédio

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

 

Inventou o silêncio antes de me dar o bom dia. Sentou-se. Olhou em volta. Olhou-me. Devagar, afagou minha cabeça, distraído sorriu. Do lado de fora, depois da janela, o Inverno queimava toda a colheita de outrora.

 

Acordei sorrindo com a minha descoberta:

 

– Acho que mudei de estação…

 

Com um olhar vago abanou a cabeça afirmativamente.

 

– É Inverno e eu estou na Primavera. Não fui eu que inventei o tempo. Este aqui onde estou é o meu, sem dias de ano novo, nem fatias douradas, ou bolo-rei. Prefiro mil vezes a flor da amendoeira. Agora existem sempre romãs doces e vermelhas por dentro…

 

Abraçou-me. Exausto silenciou minha boca com um beijo. Ainda tentei desfazer-me dos lábios que me impediam de falar, mas ele delicadamente impediu-me. Seu braço pesado esqueceu-se do abraço em mim. Devagar olhei em volta. Devagar olhei para o chão coberto de folhas rabiscadas. Desenhos ou letras, pouco importa. Nada se lia. Já não havia mais nada a escrever.

 

Na noite passada ele tinha brilhado no palco. Cantou todos os seus poemas. No regresso à casa, abracei-o sem nunca dar conta do seu cansaço. Enrolei meu corpo no dele como se fosse meu e nunca vi seu olhar vago procurando a janela do lado de fora.

 

Esteve aqui em todas as estações do ano, entre o palco e a folha branca preenchida até não restar o branco.

 

Na manhã em que descobri a Primavera, antes de partir, mostrou-me seu corpo tatuado. Em todo o pedaço de pele li: “Depois de tudo resta o tédio”

 

Depois do resto, resta um bago doce vermelho.

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