ALVES REDOL NA MEMÓRIA DE JOÃO DOS SANTOS – por Clara Castilho “…….

 

 

 

 

Nos momentos felizes como nos de infortúnio ( de Redol), a sua alegria e a sua tristeza eram serenas e mesmo a sua indignação era reflectida. Dizia tudo naturalmente, simplesmente, como se nada do que se dissesse ou fizesse fosse extraordinário. O mais extraordinário nele era essa qualidade de ser simples no falar, no contar, no dizer (…) Para o António Redol, o observar tudo em detalhe não era morte, era vida (…) Absorvia o espectáculo da vida com uma atenção minuciosa e profunda, como se lhe fosse necessário ter a vida sempre presente para a guardar como reserva para a sua solidão e para a oferecer à solidão dos outros. Quando o vi a ultima vez no leito do hospital, falámos de tudo quanto nos interessava, nos escassos minutos permitidos pelo bom senso médico. Quando vi que falando comigo preferia ter os olhos fechados, pensei no que seria todo o seu tesouro de imagens, alguns raros compartilhados comigo.

 

 

 (…) Como Narciso que se viu na sua melhor imagem, à luz de Apolo, também nós nos formamos e nos vimos à luz e á sombra dos amigos grandes, que nos mostram coisas simples na complexidade da via. Como as quadras simples do povo, que o António me recitava quando andava empenhado em Cancioneiro do Ribatejo.

 

António Redol, sintetizo-o para mim, ainda hoje, naquela resposta que recebeu e guardou como lição do saber-ver-as-coisas, de um ancião de Glória – Uma Aldeia do Ribatejo. Aprendiz da vida e jovem escritor o António perguntou ao ancião:

 

-“Aqui não há gente rica?” “Então o senhor não vê que o fumo das chaminés não alteia?”

 

 

 

Excertos do texto “O FUMO DAS CHAMINÉS NÃO ALTEIA” , do livro do psicanalista João dos Santos “Ensinaram-me a ler o mundo à minha volta”, Assírio e Alvim, Lisboa, 2007, também publicado em Alves Redol: Testemunhos dos Seus Contemporâneos, Org. de Maria José Marinho e António Mota Redol, Caminho, Lisboa, 2001.

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