OS HOMENS DO REI – 54 – por José Brandão

Padre António Vieira (1608-1697)

Nasceu em Lisboa, de modesta família burguesa, a que se misturava, do lado paterno, um filamento de sangue negro. Seu avô, criado dos condes de Unhão enamorara-se duma mulata que também os servia. Expulsos da casa senhorial, foram a ela readmitidos, porque o pecado de amor teve no casamento sua sagração. Não há em toda a sua obra qualquer referência a esta mistura sanguínea, mas nada obsta a pensar que, em sua calorosa defesa de judeus na Europa e de índios e negros no Brasil, de alguma influência tenha tido esta recordação de família.

 

Tinha Vieira seis anos de idade, quando o pai, que havia ido para Salvador, na Baía, servir na Relação então criada, veio a Portugal buscar a família e para lá partiu com ela em 1614. Foi nesta cidade, no Colégio dos Jesuítas, que ele de aluno passou a noviço. Às prodigiosas capacidades do estudante não faltavam as virtudes que melhor as poderiam fecundar. Era faminto de saber e ainda mais do prazer de agir, ao ponto de – segundo declara na sua defesa perante a Inquisição numa fase do seu noviciado, ter feito voto de dedicar-se exclusivamente à actividade de catequista de índios, renunciando aos estudos que levavam ao sacerdócio e contentando-se do conhecimento das línguas indígenas, necessárias para tal missão.

 

Os superiores desviaram-no do propósito, desligando-o do voto. Os talentos do jovem estudante eram por demais altos, para serem dispendidos em mister para que outros de bem mais modestas capacidades o podiam substituir. Sem de todo o desviar daquele devotado interesse por uma actividade, desde muito cedo lhe foram confiadas missões em que suas mais altas aptidões tiveram adequado ensejo de brilhar. Foi encarregado da Charta Annua, em latim, que cumpria enviar ao Geral da Companhia, e ainda de reger no Colégio de Olinda a cadeira de Filosofia. Numa dessas cartas já o escritor brilha, na descrição do ataque dos holandeses à cidade do Salvador, que durante muito tempo tiveram cercada.

 

É nesta situação duma cidade, objecto permanente da cobiça dos holandeses, desde muito no domínio de Pernambuco, que Vieira, já sacerdote, exerce uma acção de permanente animador da defesa pela sugestibilidade da sua eloquência, que tanto suscitava à resistência contra os atacantes, como explanava com severa justiça as fraquezas dos defensores. Vem à Metrópole na comissão encarregada de declarar a D. João IV, que a revolução de Dezembro de 1640 acabava de erguer ao trono restaurado, a fidelidade do Brasil à nova dinastia. Na corte, revelada a genialidade do orador, que logo se liga ao monarca na mais estreita e confiada amizade, faz do púlpito o grande foco de energia para a manutenção da independência reconquistada, mas ainda em perigo. D. João IV faz dele seu conselheiro e confia-lha missões diplomáticas, que ele desempenha em França, Holanda e Itália.

 

Na situação mal equilibrada da política internacional, mm sempre foram felizes as suas iniciativas. Não se sabe muito bem com que percentagem de responsabilidade de D. João IV ou de Vieira, por exemplo, a de promover junto de Mazarino, o casamento do príncipe D. Teodósio com a filha do Duque de Orléans, irmão de Luís XIII. Uma das cláusulas era a vinda do Duque para regente do Reino e a ida de D. João IV para o Estado do Brasil – que assim adiantaria de quase dois séculos a sua independência. Outra solução era a do casamento do mesmo príncipe com a herdeira do trono de Espanha e assim uma nova experiência da monarquia dual, que tão danosa já nos havia sido. Outra solução, em que Vieira colaborou e de que assumiu principal responsabilidade, foi a do reconhecimento da posse de Pernambuco pelos holandeses, de onde, a ele e ao embaixador de Portugal na Haia, D. Francisco de Sousa Coutinho, proveio o serem vaiados como Judas do Brasil.

 

Deve dizer-se, quanto à primeira solução, que se afigurava impossível a resistência de Portugal à teimosa pressão de Espanha sem a aliança francesa; quanto à segunda, uma cláusula da nova união luso-espanhola era a transferência da capital para Lisboa; e quanto à entrega de Pernambuco, cumpre lembrar que era imposta pela paz entre a Espanha e a Holanda, o que habilitaria cada uma destas nações a dirigir contra nós toda a potência das suas armas, até então diminuída do que dela tinham de distrair para a guerra em que uma com a outra se digladiava. Como nos outros planos fracassados, era neste também a responsabilidade do rei. Era o que cumpria fazer imediatamente, e da iniciativa de Vieira, isto é, a preparação do que mais tarde remediaria.

 

Assim se compreende que, na alma do pregador-diplomata, se misturasse, ao despeito do vexame sofrido da parte dos seus críticos e inimigos, certo orgulho de frutos de salvação de que havia plantado as raízes. Vieira partiu para o Brasil, retomando a vida missionária, não, porém, para repousante trégua da sua animosidade, mas para a aplicar a nova e mais nobre luta. Esta era, porém, agora, contra os colonos, cuja economia não podia evitar as entradas no sertão, à caça dos escravos necessários aos trabalhos dos engenhos de açúcar e da plantação de quanto se cultivava na terra.

 

Em 1652, regressou ao Brasil, mais precisamente ao Maranhão, e tornou-se missionário, mas acabou por ser perseguido e expulso pelos colonos, por combater ferozmente a escravatura dos índios nas plantações de cana do açúcar. Nesta acção missionária põe Vieira um esforço enorme de doutrinação e acção, e consegue do monarca disposições legais contra os colonos, a favor do apostolado pela Companhia. Vem, pois, Vieira para a Metrópole, onde encontrava uma corte oposta à que o favorecera – a que se formara em torno do novo rei D. Afonso VI, sob a real chefia do Conde de Castelo Melhor, primeiro e omnipotente ministro. Mas Vieira não tinha contra si apenas o ódio dos escravocratas de aquém e além-Atlântico; a oposição dos inimigos dos judeus enfurecidos contra tudo quanto ele tinha obtido de D. João IV a favor dos judeus baptizados, de cujos recursos se havia obtido e se esperava obter muito mais para a defesa da monarquia e da independência em perigo. Eram sobretudo contra ele os dominicanos do Santo Ofício, alarmados em sua rígida ortodoxia contra a utopia do Quinto Império, que naturalmente acolheria os Hebreus, todos convertidos.

 

A Inquisição, tendo conhecimento, por uma longa carta que ele escrevera ao bispo do Japão, o jesuíta André Fernandes, destas quimeras do jesuíta, chama-o à mesa do Santo Tribunal, em Coimbra, agora que já o não defende do seu ódio a protecção da corte. Tem-no dois anos com residência fixa numa casa de repouso da Companhia, nos arredores da cidade. Por fim, encarcera-o e por dois anos o retêm, em estreita cela da sua prisão, doente, e cada vez mais enfraquecido por hemoptises frequentes, agravadas por sangrias, normais na terapêutica do tempo. Em 1681, com 73 anos, rumou novamente ao Brasil, na sua sétima viagem transatlântica, e aí viveu, até ao fim, em 1697, aos 89 anos.

 

A seguir: António de Sousa Macedo

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