A Igreja e o holocausto – por Carlos Loures

 

 

 

 

 

Na crónica publicada hoje, refere Paulo Rato a colaboração da Igreja Católica no drama do Holocausto. No Natal passado, Bento XVI, apelou durante a tradicional oração do Angelus na Praça de São Pedro, para um sentido mais religioso das festividades, afirmando que o Natal «é a resposta de Deus ao drama da humanidade em busca da verdadeira paz» (…)«é profecia de paz para cada homem, compromete os cristãos na tomada de consciência de dramas, com frequência desconhecidos e escondidos, e dos conflitos do contexto em que se vive». Recordou que o Natal tem que fazer com que os homens se transformem em «instrumentos e mensageiros de paz, para levar o amor aonde há ódio, perdão onde haja ofensas, alegria onde haja tristeza e verdade onde haja erros».A mensagem começara com uma expressão de pesar porque em «Belém, que é uma cidade símbolo da paz na Terra Santa e em todo o mundo, não reina a paz». Em contraponto, a comunidade judaica criticara a decisão de Ratzinger de aprovar as «virtudes heróicas» do papa Pio XII, primeiro passo para a beatificação, apenas faltando que se reconheça um milagre feito por sua intercessão para que Eugenio Pacelli seja considerado beato.

 

Será que os judeus têm razão? Acho que neste caso têm e muita. Não se pode concordar com a sistemática invocação do Holocausto como justificação para as agressões do Estado de Israel aos palestinianos, mas o Holocausto existiu e não deve ser esquecido. A quem não é crente tanto faz que criem ou não mais um santo. Mas o que está aqui em causa é se, neste caso concreto, Pacelli é merecedor desta ou de qualquer outra homenagem.

 

Eugenio Pacelli, ao longo da 2ª Guerra Mundial, era designado por «il Tedesco», pois todos sabiam que o cardeal Pacelli era germanófilo. Parte da sua formação académica decorreu na Alemanha, em Munique. Entre 1925 e 1929 esteve instalado em Berlim. Foi nesse último ano que Pio XI o chamou ao Vaticano e o nomeou secretário de Estado. Foi ele que negociou com o governo de Mussolini o Tratado de Latrão (1929). A Igreja Católica recebeu 750 milhões de liras e, em contrapartida, reconheceu o regime fascista. Foi Pacelli quem, em 1933, supervisionou os termos da Concordata entre o Vaticano e o governo de Hitler, que monsenhor Gröber, der Braune Bischof (o «bispo nazi» de Friburgo), redigiu, rompendo em nome da Igreja o isolamento diplomático a que a comunidade internacional votara o novo governo alemão.

 

 

Em 1939, Eugenio Pacelli, sucedeu a Pio XI, tomando o nome de Pio XII. A sua relação com Mussolini e Hitler sempre foi cordial. Nunca denunciou publicamente os crimes que estavam a ser cometidos pelo governo do III Reich. Não podia deixar de saber da Endlösung, a «solução final», que previa a eliminação de todos os judeus da Europa, calculados em 11 milhões. No Angelus do Natal de 1942, lá disse qualquer coisa discreta sobre as «centenas ou milhares» de pessoas que, sem outra culpa que não a sua nacionalidade ou etnia, estavam «assinalados pela morte e por uma progressiva extinção». Sabia também que muitos dos que iam para as câmaras de gás não era pela sua etnia, mas sim pela sua opção política ou pela sua orientação sexual. Entre os esquerdistas e os homossexuais executados, havia numerosos católicos.

 

Quando, já depois da execução de 335 reféns civis, o Gueto de Roma foi, em Outubro de 1943, cercado por tropas SS, sendo executados 75 judeus, Pio XII permaneceu em silêncio. A Santa Sé mandou uns telegramas e fez uns telefonemas para o embaixador alemão, aceitando as justificações do diplomata. Num domingo de Outubro desse ano, os alemães embarcaram 1060 judeus, cidadãos italianos, directamente para Auschwitz. Com o seu estranho silêncio, Pacelli foi um cúmplice de Hitler e de Mussolini. E dispunha da única estação de rádio independente na Europa que estava sob a bota nazi. Depois da guerra, os seus defensores deram como desculpa que, se o papa se tivesse manifestado, teria radicalizado as posições dos ditadores.

 

Quando a guerra terminou, Pio XII proporcionou passes, salvos condutos e passaportes a criminosos de guerra, fascistas e nazis, bem como a colaboracionistas italianos que estavam abrigados no Vaticano e assim puderam recomeçar as suas vidas no Paraguai, na Argentina ou em Espanha. Deu-lhes mesmo pequenas quantias em dinheiro. Como é possível que um homem destes seja beatificado? Para quem não crê, é indiferente – para os crentes não o deveria ser. Mas não tive conhecimento de protestos significativos.

 

2 Comments

  1. Um grande abraço por este texto, amigo Carlos. Nunca é demais denunciar os crimes da igreja, se mais não for para pôr a nu a sua tremenda hipocrisia. E muito falta aqui dizer, se nos lembrarmos do Holocausto da Croácia, das relações abertas e secretas entre o facínora Ante Pavelic e PioXII. do monstruoso Estado Independente da Croácia Católica, das execuções em massa, o cortar das gargantas a 1360 prisioneiros por um franciscano, e dos enterramentos de famílias inteiras vivas pela Ustashi, (um milhão de mortos) cometidos por padres e freiras, a falsa santidade do Arcebispo Stepinac. Pio XII abençoou Pavelic, o Hitler da Croácia e a Ustashi, imaginem!!! Era este papa, inquestionável colaborador de massacres, que via nossa senhora nos jardins do vaticano!!! Que deus nos acuda!!!

  2. Na realidade, Adão, no mundo em que vivemos, torna-se inexplicável esta complacência do Vaticano para com a cumplicidade que a Igreja sempre manteve com o Poder (seja ele qual for),. É uma gritante contradição que devia ofender principalmente os católicos. É Uma Igreja que teve como ideia fundacional o amor aos pobres e desprotegidos, mas que sempre se aliou aos poderosos – ao fascismo, ao nazismo, às ditaduras sul-americanas… Os católicos honestos e corajosos, que os há, estão marginalizados. É uma estrutura minada pela corrupção e pela iniquidade.

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