A internacional da cólera, por Benoît Hopquin, Le Monde. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.

When injustice becames law, resistance becames duty

De um cartaz de uma manifestação dos Indignados em Madrid

 

Cartazes pintados e pendurados escritos em  todas as nas línguas, brouhaha de inglês, francês, espanhol ou mistura  das três línguas: nas salas livres  da Universidade livre de Bruxelas, os “Indignados ” preparam‑se, no sábado dia  15 de Outubro, para se manifestarem  pelas ruas da capital europeia, como o farão neste mesmo dia em quase 1.000 cidades de 82 países. Uma demonstração mundial da sua presença, se não é mesmo uma manifestação também da sua força. Os muros da universidade, ocupada desde há vários dias, são policromos de slogans oníricos – “sejamos humildes porque somos feitos  de lama/sejamos nobres  porque somos  feitos  de estrelas” – e de convocações com desagrado também para  as reuniões de temáticas árduas: “assembleia sobre o futuro da agricultura mundial”… Sobre fundo de crise financeira, de desemprego e de planos de austeridade  desenrola-se  assim um Maio de 68 de dias sombrios.


A maior parte dos jovens, e menos jovens, que estão ali, vindos de toda a Europa, sobrevivem com  empregos precários cuja única vantagem é a de lhes deixar  tempo livre para militar. São diplomados, melhor, estão consciencializados, mas sem perspectivas profissionais, vivendo dificilmente  de salários bem magros, de mínimos sociais ou da ajuda dos seus pais. Viajam muito, falam várias línguas. É a geração Erasmus. A crise financeira de 2008, reduziu  ainda mais as suas perspectivas de futuro, fez transbordar  a sua cólera. “A precariedade proibe-nos os meios de uma vida decente”, explica Jérôme Peraya, 32 anos, um belga sem emprego fixo. “As pessoas sofrem isoladamente. Este movimento reune-os “, resume Jon Palais, 32 anos, igualmente um francês de Bayonne.


Nos corredores, os interlocutores param, descrevem pacientemente a quem estiver desorientado o que se está a planear,  seja aqui, em Bruxelas, ou em Madrid, Telavive, Nova Iorque, Berlim. Mas todos têm colocaram, de imediato, a regra do jogo: “Posso falar apenas em  meu nome pessoal. Não temos porta-voz. “É sem dúvida a razão do grande equívoco com os meios de comunicação social de que não gostam nada tanto como incarnar uma causa numa personagem, se possível carismático ou pitoresco.


Nada de  ícones, portanto,  de subcomandante Marcos ou de Augustin Legrand. Nem sequer mesmo um nome genérico. O termo “indignados”, é o que nos dizem todos, é apenas uma invenção redutora  destes jornalistas de que não gostam nada. Pamela Bartlett, 24 anos, pai inglês, mãe mexicana, cidadã inglesa que vive em Madrid, expõe-o num francês impecável: “Não é não somente a indignação, é a solidariedade, a criatividade, a inteligência colectiva.”


Muitos destes activistas, sobretudo no estrangeiro, conhecem mal Stéphane Hessel, o autor francês de Indignez-vous! de quem fizeram o seu inspirador. Referir-se-iam sobretudo, “à Primavera árabe” e à praça  Tahrir no Cairo, como  à Ágora dos Gregos antigos, como  à Reclaim, um modo de acção que pretende recuperar um espaço público que terá  privatizado por interesses específicos, por automóveis  ou publicidade. “É um movimento de reapropriação  do espaço político do qual nós fomos desapropriados ”, resume Jérôme Peraya.


Mais do que Indignados, chamam-se pois  “Movimento do 15 de Maio” ou “15M” em Madrid, “Occupy Wall Street”em Nova Iorque, “Unidos  para uma mudança global” algures. Não têm uma organização estruturada, exactamente um modo de acção e  slogans comuns que atravessam as fronteiras: “Somos 99%, eles são 1%” ou “Erro 404: democracia não encontrada.  “O seu laboratório a céu aberto foi a Puerta del Sol, lugar madrileno onde milhares de pessoas acamparam durante várias semanas. De resto, os Espanhóis são frequentemente a figura  de relevo  do movimento operário na Europa, onde eles se reagrupam espalham.


Este movimento é uma metodologia, não é uma ideologia”, resume um que dá pelo nome de Roc, 21 anos, de Barcelona, trabalhador precário nos meios artísticos. Nascido de  uma família catalã politizada, afirma estar cansado das  “pessoas que descem à rua, gritam e voltam para casa”. Encontrou  nos “indignados” um  princípio de longo  percurso e “outros sonhadores  com quem criar”.


“Encorajamos sobretudo a participação em termos de cidadania, explica-nos  Kim Lequang, 40 anos, um professor belga. Os sindicatos, os partidos, muitas organizações têm uma forma de funcionamento demasiado vertical. Dão às pessoas o sentimento de serem peões,  obrigados a obedecerem a  uma direcção. “Contra esta deriva  hierárquica, estes activistas escolheram um modo de funcionamento “horizontal”. Aquando das assembleias, é necessário o consenso para  que uma ideia seja adoptada. É o modo de funcionamento das grandes organizações internacionais, com o mesmo inconveniente: a lentidão. As reuniões podem ser intermináveis, mesmo desencorajadoras, e uma decisão pode  necessitar de dois ou três dias de discussões. “Avançamos devagar, mas é para ir para a frente”, proclama um cartaz para contrariar esta crítica.


Este modo de funcionamento complexo visa evitar qualquer recuperação política, qualquer tentativa de controle. Mas o movimento também não põe proibições. Aquando da manifestação em Bruxelas, bandeirolas gigantes de partidos ou de organizações confidenciais, bastante felizes por se  poderem  mostrar, perturbaram a mensagem, da mesma maneira que este exibicionisra que se passeia nu  no meio de um cortejo familiar. Em Roma, por falta de um serviço de ordem próprio, os vândalos  fizeram degenerar a manifestação e perverteram  o que se queria  “uma revolução não violenta”.


Em nome dos grandes princípios, “não podemos proibir-lhes o acesso”, constata Pamela Bartlett. Mas esta incómoda presença oferece uma propaganda fácil aos adversários do movimento e desencoraja às vezes as vocações, como o pude verificar em Junho em  Lisboa, onde um ruidoso conjunto  de bêbados acabou por afastar aqueles que vinham para a manifestação na  esperança de ajudarem a refazer o mundo. “Os meios de comunicação social mostram os junkies, não os velhos ou as crianças que seguem o movimento”, lamenta Pamela Bartlett.


Os manifestantes  são filhos da WEB. Utilizam as redes sociais, mesmo se desconfiam  de Facebook, gostam  muito de Twitter, multiplicam os sítios, ainda que nenhum possa  pretender a ser uma referência oficial, com o risco da confusão. Gostam igualmente de técnicas ancestrais, lançam nas manifestações brigadas de palhaços (já vistos nas manifestações contra a guerra no Iraque), o que permite desactivar as tensões com a polícia. Não se bate seriamente em alguém que passa por palhaço.


Nós somos e nós nos afirmamos como apolíticos, mas não fazemos mais do que isso, a política”, brinca  Charlotte Géhin, 25 anos, de Montpellier e no desemprego apesar de um diploma de marketing. A mundialização do movimento seduz a jovem mulher: “A reflexão deve ser internacional, porque a resposta só pode ser internacional. É necessário atravessar as fronteiras. “


Uma ideia comum une os membros do movimento, de Tóquio a Lima, de Sydney a  Berlim, a rejeição do capitalismo tal como se exprime  actualmente. “Vê-se com o resgate financeiro dos bancos e com as leis para reduzir as despesas sociais: os políticos já não defendem  o interesse geral, considera Kim Lequang. Encontram dinheiro para os bancos mas nada disso  para os cidadãos.“


“Il faut dépasser le stade du capitalisme qui ne met plus l’humain au centre de la vie. Il existe d’autres modèles de société. Des alternatives sont là”, estime Amaury Ghijselings, 32 ans, un Belge qui travaille dans une ONG. Cette génération d’après la chute du Mur ne croit plus, à l’inverse de Jean-Paul Sartre, que le marxisme soit “l’horizon philosophique indépassable de notre temps”. “Nous devons réinventer un système”, poursuit Amaury Ghijselings. Le mouvement pioche donc des idées chez les altermondialistes, dans l’économie citoyenne de Christian Felber, l’écologie, etc.


“É necessário ultrapassar a fase do capitalismo que já não coloca mais o humano no centro da vida. Existe outros modelos de sociedade. Alternativas estão aí “, considera Amaury Ghijselings, 32 anos, um Belga que trabalha numa ONG. Esta geração depois depois da queda do Muro de Berlim já não acredita mais, ao contrário de Jean-Paul Sartre, que o  marxismo seja “o horizonte filosófico inultrapassável  do nosso tempo”. “Devemos reinventar um sistema”, continua  Amaury Ghijselings. O movimento agarra pois as ideias nos altermundistas, na economia cidadã de Christian Felber, na ecologia, etc.


Os “Indignados” rejeitam os partidos políticos tradicionais. “Não nos representam mais, considerou  Jon Palais. O povo já não exerce mais o poder. Estamos num governo não representativo, não estamos em democracia. Tem-se o sentimento que a classe política é uma classe completamente à parte. Então, é certo,  voto às eleições mas não espero grande coisa. “


Porquê votar em  cada quatro anos ou cinco anos, enquanto que tudo isto  se vai concluír  numa coligação que aplicará por toda a parte a mesma política? ”, diz Amaury Ghijselings. O movimento está particularmente implantado nos países que cultivam o sistema bi-partidário, onde a esquerda se empenhou, comprometida aos seus olhos, na gestão da crise: Espanha, Portugal, Grécia, Grã-Bretanha, Estados Unidos. Que sejam  numerosos os políticos, como Barack Obama, que exprimem hoje a sua compreensão perante o movimento não será isso suficiente para lhes melhorar  a imagem da classe dirigente a estes refractários.


Porque é que a França, conhecida como  contestária, está a ser arrastada, sem iniciativa? Os activistas evocam a campanha eleitoral. “Na França, é demasiado cedo. Há ainda a esperança que a esquerda vá  alterar as coisas “, considera Charlotte Géhin. “No nosso país , o grande circo democrático continua”, acrescenta Vincent Aubanel, 55 anos, jardineiro em Nîmes. Em  Paris e em  múltiplas outras cidades, há  grupos que tentam estruturar uma dinâmica de contestação. “Na Espanha, foram  meses e meses de acção que foram necessários para o desenvolvimento do movimento. Aqui,  em  França, levará também tempo “, sugere Cécile Stratonovitch, 31 anos, médico na  região parisiense.


Jon Palais avança, ele, a teoria da rã em  banho-maria para explicar a apatia. “Se lançarmos  uma rã na água quente, esta vai agitar-se, debater-se. Se a mergulharmos na água fria e se aumentarmos, depois, a temperatura, a rã não vai mexer-se. É o que se passa na Europa. Os países que conheceram uma crise brutal reagiram. A França, onde a crise aumenta progressivamente de intensidade desde há anos, não reage.

 

Benoît Hopquin, L’internationale de la colère, Le Monde,  21.10.11

 

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