António Botto no Brasil – 3 – por António Sales

 

 (Continuação)

 

 

 

 

     

 

 

Brasil, Meu Irmão!

 

Ilumina-se a manhã sobre a vaga de betão.

 

Já correram os mares de Pedro Álvares e viram-se ao longe as terras de Vera Cruz que o padrão dos portugueses marcou como sua e a missa de chegada cristianizou para sempre.

 

 O navio atracou ontem, pela noite, ao cais de Guanabara, ainda a tempo de assinalar os 50 anos de António Botto nesse dia 17 de Agosto de 1947. Hoje, no desembarque, o poeta toma em si a plenitude da nova luz de esperança que lhe corre nos olhos irrequietos na observação do movimentado cais. A vibração tropical e cadenciada dos corpos abre espaço ao descarregar das malas. Senhor ou servo, dona ou cabocla, preto ou branco, homem de estiva ou de negócio, todos cumprem as regras de um ritmo de vida que arranca de cada passo ou de cada ginga uma alegria exclusiva, um cântico agradecido pela dádiva de existir, de respirar as cores do mundo sentindo o cheiro do dia. Do ruído salta a alegria salutar de quem vive segundo a ordem da natureza dos corpos submetidos à vibração de uma sensualidade eivada de languidez. A cor da alva renasce incendiada pelo fogo da energia que transforma um cenário sem idade. Com o coração exultante impõe-se retribuir ao santo a generosidade da sua protecção. Oh, alma da cidade vem ao encontro do poeta e entrega-te! Aqui está o futuro! Aqui está a recuperação da glória com a fé de quem se encontra habituado ao triunfo!

 

 

  

António Botto pisa o cais recebido entre abraços e saudações, pessoal

das rádios e jornais recolhendo notas sobre este inventor de

ritmos poéticos. Amigos intelectuais que o acarinham: Pompeu de

Souza, Olavo Bilac, Macedo Soares, Horácio de Carvalho, Vinícius

de Morais, Dantom Jobim. Devido à exoneração da função pública de

que fora vítima em Portugal, chega precedido de uma certa

imagem contestatária, que não alimenta mas não desmente,

de perseguido pela censura e pelo regime de Salazar. Será saudado

com todas as honras na Academia de Letras do Rio de Janeiro (Jornal

“Correio da Manhã”- 03.02.1956 – Rio de Janeiro) com discursos de boas

vindas de João Neves Fontoura e de Manuel Bandeira. Os jornais do Rio,

São Paulo, Recife, Ceará, Baía, falarão dele dedicando-lhe entusiásticos

louvores, chamando-lhe mesmo o maior poeta português em notícias de primeira página e publicando artigos sobre a sua obra assinados por grandes nomes da literatura brasileira. É convidado para banquetes, recepções e homenagens de afectuosa admiração que ultrapassa tudo quanto se tinha feito em idênticas circunstâncias. Não foi um desconhecido que desembarcou, um emigrante de Trás-os-Montes à procura da fortuna, mas um poeta português que o Brasil conhece e recebe com todas as honras.

 

Segundo alguns registos da imprensa o casal Botto começa por instalar-se no Hotel Copacabana, segundo outros no Hotel Atlântico certamente mais modesto pois um jornalista relata que o escritor iria mudar-se «talvez para o Internacional onde se hospedou o meu amigo Nijinski» (Vaslav Nijinsky -1890/1952- célebre bailarino russo), já que nestas coisas Botto não o fazia por menos. Na realidade, pouco importa onde se fixou visto ser breve esta primeira estadia no Rio de Janeiro, contudo suficiente para deixar marcas a propósito de artigos e entrevistas em que o poeta teria dito mal do seu país e da forma como fora tratado, considerações que ditaram a intervenção de Erico Braga numa carta datada de Lisboa (27 de Outubro de 1947- BNL espólio AB). O amigo não lhas perdoa chamando a atenção num tom severo: «Meu caro António. Estou tristíssimo contigo! Tu não fazes uma ideia do mal que tens feito a ti próprio. (…) Então que loucura é essa, António de andares a pôr Portugal pelas ruas da amargura. (…)» Braga informava que em Lisboa distribuíam-se panfletos insultando Botto e os jornais tratavam-no «impiedosamente». A carta não era menos impiedosa e acabava com uma interrogação onde se expressava simultaneamente a crítica e a incredulidade: «Que onda de loucura te passa pela cabeça, rapaz?».

 

 

 

 

 

 

Hotel Copacabana em 1950; Erico Braga.

 

 

  

 

 

 Na emoção da sua indefectível amizade Erico Braga (foto à direita) não terá cuidado de indagar sobre o eco que aqui chegava das “diatribes” de António Botto lá pelo Brasil e que os inimigos (ou invejosos), por cá deixados, tratavam de ampliar embora, penso eu, com repercussões limitadas aos meios artístico e intelectual. O autor de Canções sempre proclamou que o caso foi uma cabala com peças forjadas para o desprestigiar. Sob a designação de Difamação Escandalosa existe no seu espólio a explicação dos factos que terão começado num encontro fortuito com Jorge Amado na Avenida Rio Branco. Nessa tarde, a convite do romancista, combinam encontrar-se no apartamento da actriz Maria de la Costa e de Fernando Barros, português e jornalista. Jorge Amado foi buscar o casal Botto e o suposto serão íntimo transforma-se num acto de convívio mundano onde comparecem Viegas Neto, Joseph Guerreiro, Chianca de Garcia, Abílio de Carvalho e um fotógrafo do jornal Directrizes. A conversa foi suficiente animada para António Botto, de modo informal (como mais tarde Viegas Neto viria a reconhecer) e no seu estilo de grande senhor, produzir considerações desagradáveis sobre intelectuais e escritores portugueses e mesmo sobre Portugal. Cansado das mundanices dos últimos tempos o casal convidado retirou-se cedo não sem, no entanto, ter-se deixado fotografar.

 

No dia seguinte Viegas Neto, ao tempo director do jornal, telefona ao poeta a convidá-lo para uma festa em sua casa com gente importante. Possivelmente fatigado pela intensa vida social dos últimos tempos Botto justifica-se e pede escusa. Neto insiste, Botto recusa. Como nessa altura a presença do lírico lusitano era motivo de atracção e mais valia Viegas Neto não lhe perdoa a desfeita e com Fernando Barros cozinham uma entrevista, que Botto nunca deu, e publicam no Directrizes, tablóide semanal de carácter cultural, fundado em 1938, que na origem fora antifascista pelo que lutou contra os integralistas, sobretudo no período da Grande Guerra e da ditadura de Getúlio Vargas. Este acontecimento relevante acabou por chegar a Portugal dando origem à campanha de desprestígio a António Botto e à carta de Erico Braga. O poeta sempre invocou o seu patriotismo e acabou por apresentar queixa sobre a citada entrevista. Comprovada que foi a falsidade jornalística o semanário foi punido.

 

 

Provas tipográficas de Canções revistas por Botto.

 

Começa assim, de forma complicada, embora entusiástica, a entrada de Botto no Brasil com roteiro marcado para São Paulo onde o aguarda a Rádio Bandeirantes com quem tem contrato para trabalhar em programas sobre a sua poesia e um Portugal que jamais arrancará do coração, contanto o reconheça ingrato e mesquinho. Tempos de glória estes! Continuava a colaborar na imprensa lisboeta e inscrevia o seu nome em importantes diários do Rio de Janeiro, São Paulo e Belém do Pará. O regresso da esperança entrava-lhe na alma e aquecia-a qual lume cheiroso de uma lareira beirã.

 

Aproveita-os, António, aproveita-os!

 

(Continua)

_____________

 

  

“Palavras De Um Rouxinol”, de António Botto, in Poemas de Bibe, por Mário Viegas e Manuela de Freitas. Escutemos:

 

 

 

 

 

publicado por João Machado às 23:55

Leave a Reply