A Europa vendida ao desbarato à China? Por Hélène Bekmezian, Le Monde. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Nicolas Sarkozy reuniu com o presidente chinês Hu Jintao a 26 de Outubro

 

AFP/ERIC FEFERBERG


No último minuto, o acordo finalmente foi encontrado entre Paris e Berlim para salvar o euro, na noite de quarta-feira para  quinta-feira, 27 de Outubro. Mas perante o impasse no qual se encontravam  as negociações e face à recusa dos Estados europeus de se endividarem ainda  mais, foi necessário recorrer aos  investidores não europeus como os países emergentes, entre os quais a China.


Foi isto que a oposição, em  França, imediatamente denunciou: “O anúncio da participação de grandes Estados externos à Europa, na construção  deste fundo, é profundamente desconcertante “, assim considerou François Hollande num comunicado. “Pode-se imaginar que se a China, por esta forma enviesada, vem em apoio  da zona euro, o fará  sem nenhuma contrapartida? “, interrogou-se o candidato socialista à eleição presidencial, considerando  que  se “ trata de uma dependência de facto, que traduz uma confissão de fraqueza “. Será este o caso? A Europa vendida ao desbarato à China?

 

A PARTICIPAÇÃO DA CHINA AINDA HIPOTÉTICA

 

No acordo encontrado, a noite passada, entre Nicolas Sarkozy e a chanceler alemã, Angela Merkel, o papel atribuído à China é, de momento, totalmente hipotético. Só as grandes linhas do acordo entre Paris e Berlim foram comunicadas; os detalhes serão estipulados até ao final de Novembro. Foi decidido  que um segundo fundo ia ser criado – um fundo que não anula nem substitui o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) – e que  ficará a ser supervisionado pelo  Fundo Monetário Internacional (FMI).


“ Os Estados europeus não querem endividar-se eles próprios  ainda mais, porque estão sujeitos à tutela dos mercados financeiros e das agências de notação, explica Mathieu Plaine, economista no OFCE. Daí a ideia deste  fundo, que permitiria pedir apoio a qualquer tipo de investidor, europeu ou não, privados ou públicos “. É, por conseguinte,  no âmbito deste novo fundo que a China comunicou a sua intenção de participar e de comprar títulos de dívida pública da zona euro mas, de  momento, não há  nenhum detalhe sobre as modalidades ou sobre os números, nada foi  filtrado.


A CHINA PROCURA DIVERSIFICAR OS SEUS INVESTIMENTOS


Com o seu importante excedente comercial, a China tem reservas de câmbio que procura diversificar, tanto mais quanto  a agência Standard and Poor’ S.A. degradou  a notação  dos Estados Unidos. Além disso, a China tem como “preocupação essencial “  o querer facilitar a transição inegável de uma economia de produção para  uma economia de consumo “, como o explicou  o sinólogo  Jean-Luc Domenach. “Não o pode fazer de uma forma imediata. Por conseguinte, deve conservar importantes mercados externos. (…) Ela está em vias de adquirir meios para ter  peso sobre as autoridades europeias. Pondo o dedo na  [a economia europeia], vai por conseguinte continuar a nela obter um acesso rentável e manobrar para melhorar as suas relações com cada Estado-Membro “, diz ele.


O risco de uma dependência relativamente a um grande  investidor


O problema não é tanto o do país em si mesmo como é o facto de pedir apoio  a um grande investidor externo. No entanto, para Sylvain Broyer, economista no banco  Natixis, isto é uma falsa questão, porque, considera que  “ não havia outras escolhas “. A China é sobretudo um “actor económico a parte inteira desde há  uma dezena de anos “, que tem interesse em investir na  Europa e com que a Europa tem interesse em negociar, explica.


Mathieu Plaine, de OFCE, é mais circunspecto. Este economista considera que “é uma solução de curto termo “. “Isto  tranquiliza os mercados, diz, mas não penso que sejam estratégias que garantam a estabilidade de que a  zona euro tem necessidade. Isto  pode dar uma independência no que diz respeito aos mercados, mas cria uma dependência face a um  outro grande investidor. “ Mathieu Plaine coloca várias outras questões: “Se, no futuro, este novo fundo toma uma certa dimensão, ou mesmo vem a subsitutir o FEEF, e se a China investiu muito, o que é  que se vai passar, se ela decidir depois  retirar-se? E  se esta se  retira, que será necessário fazer para que este venha a voltar?”


Por último, Philippe Ricard, correspondente do Le Monde em  Bruxelas, explicava num blog sobre o Monde.fr que a intervenção da China é “um momento de viragem decisivo na história dos Europeus “.  Isto  traduz duas coisas: por um lado, a subida em força  dos países emergentes desde o início da crise financeira, 2008; por outro lado, a dificuldade dos Europeus em se organizar para apoiar o resgate financeiro  dos seus membros mais fracos “, analisa.


UMA SOLUÇÃO DE SOCORRO


Para Mathieu Plaine  assim como para Philippe Ricard, o Banco Central Europeu (BCE) teria podido alimentar este fundo, o que teria tranquilizado suficientemente os mercados. Mas, como o explicava  Arnaud Leparmentier, jornalista do Le Monde encarregado dos assuntos do Eliseu, à  ideia de transformar o FEEF em banco alimentado pelo BCE opôs-se “o não” categórico do presidente da instituição, Jean-Claude Trichet e de Angela Merkel.


A Alemanha temia nomeadamente que isso  enviasse uma mensagem laxista aos países fortemente endividados, como a Grécia ou a Itália, que poderiam então ter o sentimento de se poderem endividar impunemente. “Mas a opção de apoiar o fundo de resgate  do BCE teria quebrado um novo tabu, porque também  contrário aos tratados que proibem o apoio  financeiro  a um  Estado pelo BCE. Se tivesse sido a opção  privilegiada, é provável que os europeus não teriam tido necessidade de pedir ajuda à  China “, considera Philippe Ricard.


A CHINA PÕE AS SUAS CONDIÇÕES


“ A China já tinha colocado na mesa  as suas condições, explicou Philippe Ricard. Este país quer mais abertura no mercado europeu; exige receber finalmente  o estatuto de economia de mercado, que os Europeus lhe  recusam desde há anos; incentiva também os Estados a colocarem em prática  planos de redução  orçamental assim como  reformas para  poderem  corrigir a sua  situação.  É certo que o apoio chinês, que existe já através da via dos  investimentos nas obrigações de Estados em dificuldade, como a Grécia ou Portugal, não será dado sem contrapartida.

 

Hélène Bekmezian, L’Europe a-t-elle été bradée à la Chine ?, Le Monde, 27 de Outubro de 2011. 

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