O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 19 – por Raúl Iturra

 Para o ritual do Bar-Mitzva[1], Freud teve de estudar o Talmude e saber as leis que o governam de cor e salteada. No livro de Jiménez Fernández, a título de exemplo, na página 23,  define-se  o que é ser homem e a sua masculinidade. Na página 29 define o que é um homem e o que é uma mulher. Diz o livro de Bem Sira[2]: “uma boa esposa é um bom presente para o marido, aposentar-se-á no seio do Deus temeroso (Sira, 26.3) Mas, repara, o que está escrito é a palavra “boa”. Uma má esposa é uma praga para o marido» «Uma esposa bela faz feliz o marido, e os seus dias duplicam-se.”[3] (Sira 26,1; Sal. 1.1).

Ao lermos este texto, entendemos por que Freud, no seu citado livro de 1905, denomina de aberração as relações dentro do mesmo sexo. É, pois, a partir do seu ritual, ao tentar tratar das neuroses de mulheres sós, se não têm relações íntimas com um homem, justifica que as mesmas procuram afecto em doenças e tristeza de si próprias. Estes factos fazem-me pensar que Freud criou a psicanálise a partir do seu saber médico neurologista, mas não só. A sua formação no saber judaico, levou-o também a entender essas profundezas desconhecidas da mente humana. Ele próprio, durante muitos anos, passou em permanente introspecção, especialmente para preparar o seu Bat Mitzav. Se Freud e Durkheim ficaram fartos de rituais e aprendizagens de doutrinas divinas e de ministros rabínicos, é outro assunto. Ao estudar as suas vidas, sou capaz de reparar que a minha hipótese não era falsa. Por dois motivos. O primeiro, Durkheim declarou abertamente o seu ateísmo, passando a estudar apenas a estrutura da crença e os rituais dos crentes. Freud, fez o mesmo, como declara num texto, que passarei a citar, no entanto, antes, gostava de referir o segundo motivo: muitos de nós temos usado o saber teológico, canónico e doutrinal, como Freud e Durkeim, para nos entendermos a nós próprios, aos que analisamos e aos que partilham connosco a vida económica e social.


[1] Bar Mitzvah e Bat Mitzvah “Bar Mitzvah”, significa literalmente “filho do mandamento”. “Bar” é filho em aramaico, que costumava ser a língua vernácula do povo judeu ( Jewish people.) “Mitzvah” é “mandamento”, seja em língua Hebreia ou em Aramaico. “Bat” é filha, em Hebreu e Aramaico. (A pronúncia Ashkenazic, essa variante do judaísmo mais ortodoxa, é “bas”). Tecnicamente, o conceito define ao infante que advém a idade adulta, sendo estritamente correcto referir-se a alguém que está a completar a “ idade adulta de bar ou que está a ser um bar (ou bat) mitzav”. Porém, é mais comum que o conceito seja usado para referir que tem chegado a idade da cerimónia em si: um rapaz está a chegar a adulto e está a passar pelo ritual de bar mitzav.

 De acordo com a lei judaica, as crianças não estão obrigadas a observar os mandamentos, apesar de serem encorajadas a respeitá-los, tanto quanto possível, para assim aprenderem as obrigações que vão surgir na idade adulta. Aos 13 anos, os rapazes e aos12, as raparigas, ficam obrigados a observar os mandamentos. O cerimonial de bar mitzvah define formalmente a tomada de posse dos deveres e obrigações mandados pelo decálogo, acompanhado com os direitos e deveres adquiridos como adulto maior, dentro da vida social e religiosa (religious services). Ao fazer parte de um minyan (cerimónia com um número pequeno de pessoas para celebrar partes de rituais religiosos conduzidos), adquire-se capacidade para contratar, para testemunhar em julgamentos religiosos e o direito a casar.

 O texto original, em inglês, http://www.jewfaq.org/barmitz.htm, de que fiz uma tradução livre, diz: Bar Mitzvah and Bat Mitzvah

Bar Mitzvah” literally means “son of the commandment.” “Bar” is “son” in Aramaic, which used to be the vernacular of the Jewish people. “Mitzvah” is “commandment” in both Hebrew and Aramaic. “Bat” is daughter in Hebrew and Aramaic. (The Ashkenazic pronunciation is “bas”). Technically, the term refers to the child who is coming of age, and it is strictly correct to refer to someone as “becoming a bar (or bat) mitzvah.” However, the term is more commonly used to refer to the coming of age ceremony itself, and you are more likely to hear that someone is “having a bar mitzvah.”

Under Jewish Law, children are not obligated to observe the commandments; although they are encouraged to do so as much as possible to learn the obligations, they will have as adults. At the age of 13 (12 for girls), children become obligated to observe the commandments. The bar mitzvah ceremony formally marks the assumption of that obligation, along with the corresponding right to take part in leading religious services, to count in a minyan (the minimum number of people needed to perform certain parts of religious services), to form binding contracts, to testify before religious courts and to marry.

[2] Ben Sira foi o autor do livro mãe dos deveres canónicos denominado Sirach. O nome do autor poderá ter sido Shimon (Simon), filho de Yeshua (Jesus/Joshua), filho de Eleazar, filho de Sira[1]. No texto grego, o autor chama-se “Jesus o filho de Sirach de Jerusalem.” (l.27) “Jesus” é a forma Anglicana para o nome grego Ιησους, equivalente ao Hebrew Yeshua` e ao mais antigo Masoretic Hebrew Yehoshua`. Texto completo em: http://en.wikipedia.org/wiki/Ben_Sira.

[3] O texto está em castelhano, tomei a liberdade de o traduzir.

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