Antonio Botto no Brasil – 4 – por António Augusto Sales

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As Espessas Nuvens de Niteroi

 

 (Continuação)

  

 

Botto dedica-se, mais pragmaticamente, a equilibrar a situação financeira ou mesmo a revertê-la com solidez, pelo que em Agosto de 1953 o poeta está envolvido num negócio de barcos, segundo carta datada de Niterói, endereçada ao «grande industrial» Adão Pacheco Polónia para a Avenida Serpa Pinto em Matosinhos. Na realidade Polónia seria proprietário de dois barcos de pesca que pretendia vender para o Brasil através da intermediação de António Botto que trabalhou, de facto, para que o objectivo se concretizasse.

 

Na correspondência que trava com o industrial chega a informá-lo também da iniciativa literária de altas figuras que estariam a organizar um recital em sua homenagem, para Outubro de 1953, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Indica os nomes de Pedro Calmon (reitor da Universidade do Rio de Janeiro), Martinho Nobre de Mello (embaixador de Portugal), Henriette Marineau, Maria Sampaio, Beatriz Costa, Dulcina de Morais e João Villaret.

 

O negócio dos barcos não deixa de prosseguir e o poeta, transformado em agente comercial, desdobra-se em contactos e diligências pois a serem vendidos os barcos a comissão dar-lhe-ia, certamente, para vida de nababo durante um tempo. Infelizmente teve azar. Adão Polónia, que chegou a deslocar-se ao Rio de Janeiro, acabou por não concretizar o negócio visto que os brasileiros queriam os barcos mas também o proprietário a fim de trabalhar com eles.

 

 

 

 

 

 

  

Na Vila Violeta agudizam-se as más relações num processo de desgaste que irá arrastar-se por mais de um ano. Circunstâncias não totalmente esclarecidas dão conta que provocações e insultos que se repetem amiúde, chegando à agressão. A vida torna-se infernal e a saúde do poeta começa a dar sinais de perturbação.

 

Carminda suporta com paciência e espírito de sacrifício representado pela sua imagem de mulher franzina permanentemente envolta em pobres roupas negras. Botto, pelo contrário, não está disposto a suportar ostensivos desmandos dos vizinhos sobre a sua pessoa pelo que apresenta queixas na polícia sem qualquer resultado prático. Os dias tornam-se amargos, mas aguentam-se dado que no fim do ano de 1952 um jornal ainda mandava a correspondência para a Casa Três de Vila Violeta.

 

 

 

O alojamento no Brasil foi sempre fonte de múltiplos problemas, obrigando o poeta a uma vida de nómada de hotel em hotel, casa em casa, fosse por razões de rendas em atraso ou conflitos com vizinhos e senhorios. Casos de comprovada culpa sua, outros nem tanto. Os relatos deixados, queixas, lamentações, permitem admitir que António Botto também foi vítima de descriminação homossexual correndo a via de um calvário que contribuiu para o agravamento da sua saúde.

 

 

 

Desgastado por todos estes desatinos em Abril de 1954 dá entrada no Hospital Municipal António Pedro. Os crónicos problemas de garganta tornam-se graves, forte hipertensão e também queixas renais. Efectivamente fica internado, mas no dia 26 de Abril pede alta a fim de ir receber 28.000 cruzeiros que o Instituto Nacional do Livro lhe devia há treze meses. O médico assistente, Dr. Almerindo Lisboa, com relutância concede-lhe a alta por duas ou três semanas. Contacta o director do instituto, Augusto Meyer, que só consegue obter 9.000 cruzeiros prometendo o resto uma semana depois sem resultado. Regressa a casa, entretanto assaltada, e vê-se confrontado com uma ordem de despejo pelo que o hospital fica para melhor oportunidade. «Em casa à 1.30 da madrugada. Extropiado e sem dinheiro, deitámo-nos para morrer de aborrecimento por tanta falta de humanidade»(sic), é um apontamento que ilustra como a situação se tornara de tal modo angustiante que admite regressar a Portugal.

 

 

 O poeta está sofrido e dorido. Sente-se maltratado, injustiçado, resistindo a dificuldades que transformam os dias num tormento. O dinheiro evapora-se nas suas mãos como mais tarde viria a reconhecer num desabafo: «Muito dinheiro me tem aparecido depois que vim para o Brasil, ganho com o meu trabalho, mas como vem desaparece». «Neste três anos devo apenas uns trezentos mil cruzeiros porque passámos muita fome» (20.05.1954). Se considerarmos o trabalho desempenhado, as diversas oportunidades criadas, a indemnização ganha em tribunal bem como a parte jornalística, reconhecemos que, pelo menos, terá ganho dinheiro suficiente para uma vida bastante satisfatória. Todavia, a sua relação distante e desinteressada com o dinheiro, a que não terá sido alheia a homossexualidade, fazia-o desperdiçado à nascença. Desde as condições de saúde às financeiras; das literárias onde não encontra bálsamo às humanas, Botto começa a acumular frustrações e tristezas d’alma.

 

O pensamento em voltar à pátria torna-se natural como é natural, em muitos dos seus apontamentos e registos soltos, que o Brasil saia mal no retrato. Embora mostre estima e gratidão pelas pessoas que o ajudaram (e que o irão ajudar na sua dolorosa descida às amarguras de um triste destino), o vinco colectivo que nos deixa dos brasileiros é o da amizade fácil mas falsa, isto é, prometem, mostram-se prestáveis, mas não fazem nada na hora da prova real.

 

 

 

(continua)

 

 

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 Hoje vamos escutar mais um poema de António Botto – Mísia – “Não me chamem pelo nome”.

 

 

 

 

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