Dany-Robert Dufour, um professor de filosofia na Universidade de Paris , autor de uma série de títulos de referência, vem, num artigo publicado sábado passado no Le Monde, levantar uma série de questões pertinentes relativamente à grande crise que estamos a viver. Avisa-nos para o carácter enganador dos diagnósticos que reduzem esta crise a uma dimensão económica e financeira. Aceitar este diagnóstico, implicaria aceitar que a solução se encontra inteiramente no âmbito das ciências económicas.
Ora, o que está em causa nesta crise vai para além dos buracos financeiros, das dívidas, dos bancos. O que está em causa são os princípios pelos quais esta sociedade se rege. Dufour alerta os cidadãos para o facto de, sem o saberem, viverem num novo totalitarismo, decorrente do imperialismo teórico do economicismo, neo e ultra – liberal. Acrescenta que, após o impasse do fascismo, e após a queda dos regimes socialistas, será a vez desse o ultra e neoliberalismo caírem também.
A Europa já viveu ao longo dos seus milénios de história outros momentos em que soube sair do cárcere de dogmas que uma estrutura social nquilosada sempre possui. Abandonar o paradigma (que parecia eterno) da sociedade medieval e da Escolástica e sobre as suas ruínas construir
os alicerces do Renascimento e do Humanismo, é uma prova dessa capacidade. Esta crise pode ser uma oportunidade para pensarmos num futuro possível.
E para o começarmos a edificar.


Meu caro editorAinda na linha do artigo em questão sabemos e sublinhemos : -genericamente todos nós, as famílias, estamos endividados :-genericamente todos os estados estão endividados-genericamente todos os bancos estão encalacrados.-genericamente todas as câmaras estão endividadas.-seguramente as gerações futuras vão viver em piores condições que nós.Ninguém se torna multimilionário sozinho, vêm-nos como slogan dos Estados Unidos. Ninguém se endivida sozinho é a imagem que a esta também pode corresponder, pois não há devedor sem o correspondente credor. Sendo assim, então que sociedade é esta que vive assente numa enorme montanha de dívidas, de débitos e de créditos, pela sua própria dinâmica gerados e que agora, cegamente e de repente, mantendo tudo o resto constante quer com todo o endividamento acabar. E já agora, a favor de quem? E já agora, como? Que sociedade é esta, então? Lembro aqui um título de um artigo de uma revista, vejam lá, bem neoliberal, The Economist , que bem nos diz também do desespero do lá de lá, dos que alimentaram este sistema: The world economy Be afraidUnless politicians act more boldly , the world economy will keep heading towards a black holeLiderados por ignorantes, por convencidos das suas certezas, liderados sobretudo pelo grande capital que entretanto se esconde nos dark pools , bolsas confidenciais, no shadow banking sistem , sistema bancário paralelo, não regulado, enquanto os seus lacaios, os nossos governantes, nos vão impondo as políticas que na sua cegueira pensam ser as mais oportumas , estamos numa sociedade ou numa selva?Júlio Marques Mota
Plenamente de acordo com tudo o que dizes.O que o professor Dufour disse, andamos nós a dizer desde que começámos – Mas a questão que ele levanta sobre a incapacidade das ciências económicas para solucionarem esta crise, que é sobretudo uma crise de natureza ética, parece-me correcta. O homem é professor de filosofia e está a puxar a brasa à sua sardinha, mas parece-me que, nesse aspecto, tem razão. Não achas? Sobre o optimismo que demonstra quanto à capacidade que a Europa terá para mudar de paradigma, depondo este modelo de sociedade e criando outro… Gostava de acreditar.