A Grécia é apenas o início, por João Machado

A Grécia tem enchido os títulos, os écrans, as primeiras páginas. A Grécia é um país desequilibrado, numa zona instável, num mundo em crise. Dominada pelo império otomano durante séculos, destroçada pela Segunda Guerra Mundial e pela guerra civil que se lhe seguiu, em permanente tensão com o seu poderoso vizinho turco, debatendo-se internamente com enormes contrastes sociais, sempre a braços com uma corrupção inacreditável, a sua história portentosa não lhe serve de garantia contra o capitalismo selvagem que hoje quer dominar o mundo definitivamente. Em vários sectores refere-se que a Grécia é um problema especial, que se poderá resolver amputando-o, isto é, expulsando a Grécia da zona euro e, talvez, da União Europeia (UE). Será que nos outros países da zona euro e da UE as possibilidades de ocorrerem situações semelhantes não existem? Claro que existem. E em vários países. No Reino Unido importantes sectores reclamam um referendo sobre a continuação do país na UE. Em Portugal a insatisfação é grande, a emigração, válvula tradicional das tensões sociais, volta a ter números elevados, os militares reúnem-se, está marcada uma greve geral. Em Espanha há cinco milhões de desempregados, mais de 20 % do total da força de trabalho. Em vários países continua o movimento dos Indignados, que parece ter cada vez mais aceitação.

 

O recurso ao referendo pelo primeiro ministro Papandreou é obviamente uma jogada desesperada. Fala-se que teria sido motivado para tentar prevenir um eminente golpe militar, que não seria inédito na Grécia. Também teria sido para tentar retirar espaço de manobra aos manifestantes que protestam denodadamente contra a austeridade. Mas o facto é que os resultados são perfeitamente imprevisíveis. Também poderá ocorrer a rejeição do referendo pelo parlamento. Ou então este dissolver-se e dar lugar a novas eleições. A Grécia tem características próprias, é verdade. Os gregos reagem à sua maneira. Contudo, o que acontece no país não é assim tão diferente de outros lados.

 

Penso que o mais impressionante é não se obviar directamente à causa primeira desta instabilidade, que é a espantosa crise financeira que assola o mundo, em particular a Europa. E que esta crise resulta de uma especulação desenfreada, açulada a partir de alguns centros de interesse, que põe em crise países cujas economia e vida social assentaram, nos últimos decénios, num sistema financeiro que incentivou a utilização de crédito bancário. Este foi utilizado em grande escala para fomentar operações correspondentes a actos do dia a dia dos indivíduos e famílias (compra de casa, de carro, outros actos de consumo normais no quotidiano das classes médias e mesmo médias baixas), que de outro modo dificilmente seriam realizáveis, e para facilitar acções de enriquecimento rápido (pensem nos terrenos rurais que passaram a urbanos com repentinas e substanciais alterações de preço). Obtiveram-se assim ganhos desproporcionados, que incentivaram uma espiral de investimentos de risco.

 

Mais, por este caminho as perturbações não se vão limitar á Grécia. Não é com certeza alarmismo prever que vai haver medidas abusivas noutros países (em Portugal já estão a ser impostas, e de que maneira), e que a agitação se vai generalizar. As medidas tomadas caracterizam-se, como a maioria das pessoas já percebeu, pelo desmantelamento generalizado dos serviços públicos (alega-se que vão ser substituídos por serviços privados, a pretexto de que estes são mais eficientes) e pelo corte nos rendimentos na generalidade das pessoas, tanto em termos de remunerações do trabalho como de prestações sociais.

 

Em democracia não se pode limitar a resposta a reprimir desordens. As pessoas podem e devem manifestar-se, por todos os processos legítimos. É preciso chamar a atenção para o facto elementar de que esta crise (é uma crise porque deixa ficar mal a maioria das pessoas, embora haja quem esteja a lucrar com ela) não tem solução se não for atacado o que a motiva: a falta de regulação financeira. Essa regulação tem de aparecer rapidamente e afastar mitos e tabus. Porque é que a banca não é nacionalizada (e não só os prejuízos)? Para quando a separação da banca de depósito da banca de investimento? Não se pode falar em recapitalização e deixar tudo nas mãos dos especuladores. Para quando o fim dos produtos financeiros tóxicos? Quando se deixam de fazer privatizações ruinosas? É criminoso usar a crise para entregar a privados bens públicos a preços irrisórios, sem nenhuma justificação real.

 

O pior é tentar-se esconder que nem todo o bom comportamento à moda de Bruxelas ou de Wall Street vai evitar a nossa falência. As razões da crise são conhecidas. Os países têm a obrigação de se governarem bem, de não cometerem desperdícios nem loucuras. Não se lhes pode é exigir que se arruínem para pagar a especuladores, que dominam cenários alternativos da realidade, a que chamam mercados (podiam também chamar-lhes casinos, porque não?)

1 Comment

  1. Naturalmente que a Grécia não vai ser um caso único na União Europeia. Portugal parece ser o «senhor que se segue». Com um ministro das Finanças admirador de Milton Friedman , estão reunidas as condições para um cenário tenebroso. Uma das acusações feitas ao Prémio Nobel da Economia é o de ter manuseado números esquecendo os dramas humanos que muitas das suas «soluções» provocaram. É assim, com essa frieza que raia a inconsciência , que a equipa de Passos Coelho quer solucionar de uma forma linear um problema complexo. A Grécia não será um caso único. Bela análise, João.

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