O OUTONO DO LIBERISMO BERLUSCONIANO – por Sílvio Castro

 

 

O capitalismo liberista que invadiu o mundo nas duas últimas décadas do século XX e que entrava no XXI° como querendo caracterizá-lo, agora corre diretamente para o seu outono, preanunciando a primavera de muitos povos.

 

Depois da grande crise financiário-econômica partida dos USA em 2007-2008 e que agora retorna abrangendo igualmente a Europa, em particular os 17 países membros da área do Euro, a economia mundial de tipo liberista começa a demonstrar que as suas metas, tendencialmente valorizadoras do processo de enriquecimento de minorias em desfavor das necessidades essenciais das maiorias, não consegue superar a primeira crise, mas se envolve em uma segunda fase da mesma, mais extensa e possivelmente igualmente mais profunda.

 

Durante esse período liberista, nem mesmo os governos socialistas – como foi o caso de Portugal e da Espanha – souberam equilibrar as tendências gerais do período. Não foram capazes de conviver com o liberismo, atenuando as dificuldades globais invadentes com convenientes medidas de fundo social, próprias de uma desejada direção liberal-socialista. Não foram capazes de de gerar ações próprias de uma moderna social-democracia.

 

Se até mesmo entre os governos de orientação social tal fenômento se apresentou em forte maioria, ainda mais o fenômeno se alastrou nos países governados por maiorias políticas de centro-direita. Dentre esses, possivelmente o exemplo mais gritante foi a Itália dos diversos governos de Silvio Berlusconi, num percurso de 17 anos de poder político, ainda que com rápidas alternâncias da oposição de centro-esquerda, avançada nos seus ideais por uma moderna política social, mas quase sempre incapaz de convencer a maioria dos eleitores italianos.xxx Os governos Berlusconi, ao contrário, usando das artimanhas fáceis de um liberismo populista soube por longo tempo agregar uma maioria de adesões que lhe permitiram até mesmo muitas alterações nas estruturas institucionais da Itália e que lhes permitia a continuidade de uma ação política que se dirigia na direção não dos interesses maiores do país, mas naquela do grande capital. A começar pelo chefe do governo.

 

Homem que amealhou uma das maiores riquezas pessoais, na dimensão mundial, Berlusconi transforma a política liberista também numa ação de auto-enriquecimento capitalista. Suas empresas, dedicadas aos mais diversos setores financiários, desde a da televisão até a do jogo de azar, penetram nos mais diversos setores da vida nacional, condicionando-a fortemente. Muitas vezes tais atividades se demonstraram verdadeiras formas de conflitualidade com os interesses comuns, mas jamais foram verdadeiramente coibidas. Desta forma, o capitalismo liberista fez com que nascesse na Itália uma política que sempre trabalhava não para o interesse comum, mas para a manutenção de privilégios pessoais ou grupais. O que naturalmente gerava uma não-política, fonte imediata de uma ondata incomum de corrupção pública.

 

Com o dilagar da crise financiária que atingiu inicialmente a Grécia, passando depois para a Irlanda, Portugal, Espanha, a situação política italiana, divorciada do país real, gerou imediatamente um correspondente estado de crise, principalmente devido à grande dívida pública, mas igualmente à improdutividade que vem assaltando a economia italiana. O governo berlusconiano, em tais situações, não soube legislar – apesar de sua grande maioria parlamentar – mas apenas se dedicou a procurar mais recursos financeiros a partir de novas e dolorosas taxações, dirigidas quase exclusivamente ao trabalhador dependente. Jamais tocando os grandes patrimônios.

 

Tal situação, como não poderia ser diferentemente, acentuou a crise que vinha de fora, fazendo com que um país que apresenta uma sociedade civil de estável condição (basta pensar que 80% das famílias italianas possuem a casa-própria), verificasse que, entretanto, o Estado se encontra inteiramente divorciado dessa mesma sociedade. Em tais condições, a Itália caiu verticalmente na crise europeia, enquanto a ação política berlusconiana procurava esconder a realidade com uma intrigante manifestação de inconsequente otimismo. Daí resultou a chamada, quase comissariamento, por parte da UE que pretendia do governo da Itália urgente e imediata tomada de decisões contra tal estado de coisas.xxx Como resposta, Berlusconi apresentou a Bruxelas uma carta de intenções reformistas – conforme as exigências da CE – que deixou em suspenso uma decisão do poder comunitário e, principalmente, chocou-se com os ideais da opinião pública nacional.

 

Nos diversos itens da dita carta de intenções apareceram problemas de grande interesse para a vida nacional, como aquele referente à aposentadoria depois de 40 anos de trabalho, prescindindo da idade básica para a mesma aposentadoria, quando as mesmas intenções concordava em elevar para 67 anos a idade para as ditas aposentadorias, de homens e mulheres. Tal questão – único fator de discordia dentro do governo berlusconiano, pois a 2ª. componente da coalisão, a Liga Nord, de Umberto Bossi, não abre mão quanto ao direito de ancianeidade – dificilmente poderá encontrar uma positiva resposta parlamentar, principalmente se se pensa que a idade básica para a aposentadoria da mulher italiana é atualmente de 57 anos. Outro ponto de gritante absurdidade política se encontra naquele item da carta famosa que, pretendendo lutar contra a improdutividade nacional, propõe-se a criar o “licenciamento fácil“, isto é, o direito de toda empresa que se encontre em dificuldades econômico-financeiras de licenciar seus dependentes sem qualquer forma de contestação legal dos mesmos. Tudo isso, o atual governo italiano pretende invés de procurar estruturar uma política de desenvolvimento.

 

O grande absurdo de tudo isso se acentua com o conhecimento dos grandes números de desempregos que assalta o país. Em particular quanto aos jovens. Neste momento 1 jovem – de 18 aos 35 anos – em 3 se encontra sem ocupação. O que sobrecarrega fortemente a economia das famílias e deixa sem perspectivas a vida do país. De tudo isso se pode concluir que o outono do berlusconismo se apresenta visivelmente. Porém, não se pode afirma com certeza que a vida italiana saberá depois de uma tal estação viver em plenitude uma sua primavera.

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