COMEMORAÇÕES DA REPÚBLICA – Fantasmas do Centenário – 2 – por César Príncipe

 

 

 

 

PERÍODO SIDONISTA

 

Filho de Sidónio Marrocos Pais, notário e secretário judicial e de Rita Silva Pais, doméstica, Sidónio Pais foi oficial do Exército, professor, deputado, diplomata, ministro do Fomento, das Finanças, dos Negócios Estrangeiros, da Guerra, além de presidente da República. Na fase coimbrã, aderiu a uma loja maçónica, demonstrando ser um investidor no que prometia dar. Em 1918, instigou a perseguição a maçons e o assalto a lojas do ramo. Em 5 Dezembro de 1917, encabeçara um golpe contra o governo republicano eleito, proclamando uma República Nova. As novidades vieram de rajada: suspendeu a Constituição que, como deputado constituinte, aprovara; passou a governar por decreto; ignorou a competência legislativa e fiscalizadora do Parlamento; revogou a separação da Igreja do Estado; impôs o estado de sítio; abarrotou as prisões; encheu os tribunais de processos políticos; forçou uma série de personalidades ao exílio, entre elas, o presidente deposto, Bernardino Machado; reinfestou a administração pública de monárquicos. 

A visão renovadora era tão estreita que perseguiu monárquicos que manifestavam alguma reserva, entre eles, Aristides de Sousa Mendes, que viria a destacar-se como cônsul em Bordéus, definitivamente ostracizado por Salazar. O auto-fascínio de Sidónio roçou o patético: extinguiu os ministérios do organograma governamental. Nem em ministros delegava ou confiava. Com a passadeira livre, alçou-se a presidente da República e a chefe do Governo. Só admitiu secretários. Fernando Pessoa, numa jaculatória sebastianista, elevou o major a Presidente-Rei . Reinou um ano. Seguir-se-ia um reinado de 48 anos. Sidónio ensaiou uma ditadura de longo prazo. Ambição interrompida por duas balas na estação do Rossio, ao pôr o pé no comboio para o Porto. 

O beatério fez romagens, juncou o túmulo de flores, jurou desforra, encomendou missas, reivindicou a canonização. Haveria sinais da esfera celeste: a aparição do Major foi precedida da aparição do Anjo em 1916 e caucionada por aparições da Virgem em 1917. O ambiente estava a pedir um Salvador. Os púlpitos e os jornais de idêntico verbo santificaram o lente-artilheiro, desde a primeira hora. António Sardinha, adepto da Teologia da Opressão, não deixou de ver, na aparição de Sidónio, a intercessão da Virgem Maria . Quanto à Medicina, Egas Moniz, prémio Nobel, tipificou a sidonite como desvario messiânico . Seja como for, o messias do Alto Minho explorou a conjuntura messiânico-mariana. Não lhe faltando a lamiré dos céus, também contou com uma Igreja de raiz inquisitorial e senhorial, um campesinato servil, manhoso e de alfabeto rudimentar, um aparelho burocrático tocado por séculos de venalidade e amestrado em vénias e genuflexões, um patronato fabril e financeiro inquieto com o despertar da consciência do trabalho. Os cadetes de Sidónio também irromperam, emprestando garbo e guarnição ao Salvador . Uma chuva de louros e de pétalas jorrou do céu lusitano durante a passagem e após o passamento de Sidónio: ele era O Grande Português, O Libertador , ombreava com Nuno Álvares Pereira, Infante D. Henrique e Vasco da Gama, D. João I, D. Sebastião e D. João IV, ele foi coroado Napoleão Bonaparte, ele foi consagrado Santo Apóstolo do Ideal Salvador da Pátria, Predestinado Condutor de Povos, Protector dos Humildes, Bem-Amado Grande Morto. Rematando a sidoniolatria, Sidónio também provocava outros efeitos magnéticos. Causava desmaios. Por aquele tempo, sem telenovelas luso-tropicais ou revistas cor-de-rosa, as meninas da sociedade e as senhoras de bom porte cultivavam fantasias de quartel. 

É inquestionável que, perante este florilégio virtuoso, a República se veja na obrigação de integrar o ciclo de Sidónio nas celebrações do centenário. No propósito de contribuir para os festejos, não se sugere uma avenida em cada cidade e vila com o seu nome. Salazar já tratou da perenização toponímica em 1948, como cuidou de trasladar os despojos para o Mosteiro dos Jerónimos em 1953 e daqui para a Igreja de Santa Engrácia em 1966. Parece-nos que a melhor maneira de resgatar o sidonismo dos assombramentos da República será com um alerta. Os sidónios não acabaram em 1918. Regressaram em 1926. Regressarão sempre, porque é intolerável, para os sidonistas, que os pequenos portugueses de Fernão Lopes e de Soeiro Pereira Gomes tomem conta das ruas e moldem as leis. Assim tem sido. Assim tenderá a ser. SP/Sidónio Pais, caudilho da República Nova e SP/Silva Pais, torcionário do Estado Novo, são dois exemplos do crime político organizado, dois instrumentos da luta de classes. Ambos majores, ambos S, ambos P. Que nos desculpem os bons majores, os bons sidónios, os bons silvas e os bons pais. Quanto a Sidónio, está desculpado e reabilitado, aguardando-se folga de orçamento para um museu na sua terra. Cavaco Silva já se inteirou do projecto. O potencial é promissor. Viana do Castelo e Caminha disputam a paternidade do pastel Sidónio. No meio da querela da doçaria regional, um novo factor competitivo começa a delinear-se: o culto do D. Sebastião de Caminha rivalizará com o da lampreia. O Alto Minho pode perder o comboio, a agricultura e a indústria mas deve apegar-se ao pastel de feijão. Portugal (do Minho aos Açores) organizará excursões à Romaria da Agonia e ao Museu do Santo Apóstolo do Ideal. Estamos a regressar, em passo acelerado, à sopa do Sidónio. Até o Regimento de Cavalaria de Braga disponibilizou homens e viaturas para distribuir 600 rações de combate à fome. Imaginem que Salgueiro Maia, em vez de se dirigir para o Terreiro do Paço e o Largo do Carmo, lhe dava para a Revolução da Marmita. O dia 25 de Abril ter-se-ia limitado a um peditório na Rua da Misericórdia. 

 

A seguir – Povo a Sopa

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