BARBARA STROZZI
Venezia 1619 – Padova 1677
“la Virtuosissima Cantatrice “… Nicolò Fontei
“1619 adi 6 agosto
Barbara, et Cat.a [Caterina] fia de m.a Isabella Griega et di padre incerto, compadre il S.r Gasparo Fusili, battizò per io pronan.”
(ASPV: S. Sofia. Battesimi. Registro 4 (1602 mar 14 – 1623 dic 2)
Bernardo Strozzi, c. 1635, Allegoria della musica, Dresda, Gemäldegalerie
(Considerado um retrato de Barbara Strozzi, embora o apelido seja uma coincidência)
Filha ilegítima de Isabella Griega, de seu verdadeiro nome Barbara Valle, cresceu na casa de Giulio Strozzi, poeta, libretista, académico e que era, muito provavelmente, seu pai: no seu testamento, de 1628, chamava-lhe a sua figliuola elettiva.
Giulio Strozzi era colaborador de Monteverdi, Francesco Cavalli e outros grandes compositores de Veneza, com quem Barbara contactou desde muito jovem e que a encorajaram a desenvolver os seus dotes musicais. Criou em sua casa, um salão literário e musical denominado Accademia degli Unisoni.
Também desde muito jovem, a sua beleza e a sua arte de cantora cheia de expressividade puseram a seus pés toda a intelectualidade veneziana.
Mas o que me fez escolher Barbara Strozzi como primeiro “compositor desconhecido” (e aqui comparecerão, se tudo correr como planeado, muitas outras compositoras – as grandes desconhecidas, as que mais ficaram na sombra da História) foi o facto de ter ousado viver uma vida corajosamente à margem das convenções admitidas no século XVII, na pretensamente liberal Veneza.
Há quem sugira que terá vivido longo tempo como respeitável cortesã (o que não seria tão contraditório como poderia parecer, nem sem precedentes à altura – recorde-se o caso da notável poetisa e epistológrafa Veronica Franco, no século anterior, cuja vida “deu um filme” ― Dangerous Beauty (Mais Forte que o Destino), com Catherine McCormack e Jacqueline Bisset, baseado na biografia The Honest Courtesan, de Margareth Rosenthal).
Investigações mais recentes apontam para que tenha mantido uma longa relação com um académico, colega de seu pai, Giovanni Paolo Vidman, com quem terá tido, pelo menos, 3 dos seus filhos. Sabe-se hoje que este providenciou dotes para as 2 filhas e uma herança para os filhos; e poderão não ter casado por razões de preservação de património, o que também não era procedimento incomum nas famílias nobres da época…
Barbara viveria na casa paterna até à morte dos pais, provavelmente demasiado ocupada com a sua arte e os cuidados com os filhos.
Mas o facto de ser mulher terá efectivamente impedido que, ao contrário dos seus colegas masculinos, conseguisse um patrono permanente para exercer a sua profissão.
Ao contrário das outras raras compositoras desses tempos, que publicaram muito poucas obras, Barbara Strozzi editou nada menos de 8 livros de madrigais (hoje – e numa arco de poucos anos – já todos (ou quase) interpretados por formações musicais de grande valia e editados em CD.
Utilizando poemas de Giulio Strozzi, que qualifica de scherzi, Barbara afasta-se do carácter tradicionalmente sério do madrigal a várias vozes para adoptar uma atitude decididamente epicurista, que se exprime em obras de grande ironia e mesmo comicidade, características que assumiam, então, grande modernidade.
Referem os especialistas que essa modernidade se manifesta também nos recursos musicais utilizados: alternância frequente e cheia de efeitos de diversos elementos, como agrupamentos de vozes, formas declamatórias, tipos de compassos e criação de atmosferas.
Há mesmo quem lhe credite um papel importante na génese da “cantata”.
Apesar da aparente modéstia com que se referia às suas obras, nomeadamente nas “dedicatórias”, como era de uso na época, esses mesmos textos evidenciam a confiança de Barbara Strozzi nas suas capacidades, como o poema que escolhe para 1.ª peça do 1.º Livro de madrigais, em que agradece à sua boa estrela, que lhe há-de permitir aceder ao Panteão dos poetas imortais onde será coroada como uma “Saffo novella”.
E, na última, agradece a Deus, que a coroou de louros e mirtos pela sua primeira oferta ao templo das Musas, e promete-lhe, desde logo, que no futuro produzirá outras obras ainda mais belas… E, nos últimos versos, a quem não queira reconhecer a qualidade das suas criações musicais, lança o desafio de que faça melhor!…
Esta magnífica interpretação de L’Eraclito Amoroso será uma boa introdução à obra desta notabilíssima compositora:
Cristina Presutti. Ensembre Poïesis.
Se alguém pretender explorar a maestria dos madrigais da Strozzi, tive a sorte de encontrar este vídeo de uma das melhores edições que conheço, um duplo CD que adquiri, há exactamente 10 anos, na cidade natal da compositora:
Dal I Libro de’Madrigali:Giulio Strozzi, Poesie per il Primo libro de’ madrigali di Barbara Strozzi
Venezia, 1644
-“Priego ad Amor” a cinque voci s, c, t, t, b
-“Pace arrabbiata” a tre voci [c, t, b]
-“Gli amanti falliti” a cinque voci s, c, t, t, b
Orlando di Lasso Ensemble


