Diário de bordo de 4 de Novembro de 2011

 

 

A convicção de que Portugal é, depois da Grécia, como se diz nas barbearias, «o senhor que se segue» no cabelo e barba da crise profunda, assalta toda a sociedade portuguesa. Pedro Santos Guerreiro, director do Jornal de Negócios, reconhece que toda a Europa se aproxima do abismo e Portugal, evidentemente, é o próximo. Encaremos a realidade – estamos à beira do abismo.

 

Este consenso em torno da iminência do desastre, faz lembrar outro de há meses atrás –  aquele que uniu  a oposição parlamentar para fazer cair o governo socialista. Será que a esquerda com assento na AR mediu bem o que estava a fazer? Não se discute a necessidade de erradicar Sócrates e a sua equipa – era óbvia. O que se pergunta é se as coisas foram feitas no timing certo. Se não teria sido preferível a esquerda ter chegado a uma plataforma mínima de entendimento. Porém, talvez a esquerda parlamentar não tivesse alternativa. Demos um passo em frente. Demos?

 

Concorda-se que o governo socialista não era aceitável, mas deixar que esta gente o substituísse terá sido uma solução assisada? Afirma-se que  o anterior executivo teria de assumir medidas iguais ou semelhantes às que estão a ser tomadas pela equipa de Passos Coelho. Não sabemos. Nunca o saberemos.  O que sabemos é que gente como Vítor Gaspar, admirador de Milton Friedman, o homem que «pós na ordem» o Chile de Pinochet – e que em «Capitalismo e Liberdade» dizia que O poder para fazer coisas certas é também poder para fazer coisas erradas; os que controlam o poder hoje podem não ser os mesmos de amanhã; e, ainda mais importante, o que um indivíduo considera bom pode ser considerado mau por outro. É verdade, uma verdade de La Palisse, mas uma verdade. Embora não se descortine nada de bom ou de certo feito por esta gente. O depois é pior do que um antes que parecia não poder piorar. Num inquérito europeu feito em Junho, concluía-se que apenas três em cada cem portugueses se sentia satisfeito com a situação económica do País. Onde estarão hoje esses três por cento de optimistas? As medidas tomadas por Passos Coelho põem funcionários públicos e pensionistas a pagar a crise.

 

Luz ao fundo do túnel não se vê. António José Seguro não é alternativa a coisa alguma. Como disse, Pulido Valente, é o político português dos últimos tempos mais próximo do zero absoluto. O que nos deixa sem oposição organizada. A greve do próximo dia 24, protestando contra «o maior roubo da história da humanidade”, no dizer de Carvalho da Silva, é necessária. Mas que eficácia terá quando se pôs no governo gente que considera a troika como uma força divina e o seu memorando como uma bíblia?

 

A sensação que se tem é a de que, neste quadro, pouco há a fazer. Se aceitamos como certas as premissas deste jogo, diríamos que as soluções não existem. Parece-nos que a solução seria mudar de jogo recusando liminarmente as regras deste que nos impõem. Portugal está à beira do abismo – é bom que não dê mais um passo em frente.

 

 

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