UM CAFÉ NA INTERNET – Canto do Rio em Sol, de Carlos Drummond de Andrade – por Chico Buarque

(1931 – )

Um café na Internet


 

 

 

 

 

Canto do Rio em Sol

de Carlos Drummond de Andrade

 

I

Guanabara, seio, braço

de a-mar:

em teu nome, a sigla rara

dos tempos do verbo mar.

Os que te amamos sentimos

e não sabemos cantar:

o que é sombra do Silvestre

sol da Urca

dengue flamingo
mitos da Tijuca de Alencar.

Guanabara, saia clara

estufando em redondel:

que é carne, que é terra e alísio

em teu crisol?

Nunca vi terra tão gente

nem gente tão florival.

Teu frêmito é teu encanto

(sem decreto) capital.

Agora, que te fitamos

nos olhos,

e que neles pressentimos

o ser telúrico, essencial,

agora sim és Estado

de graça, condado real.

II

Rio, nome sussurrante,

Rio que te vais passando

a mar de estórias e sonhos

e em teu constante janeiro

corres pela nossa vida

como sangue, como seiva

— não são imagens exangues

como perfume na fronha

… como pupila do gato

risca o topázio no escuro.

Rio-tato-

-vista-gosto-risco-vertigem

Rio-antúrio

Rio das quatro lagoas

de quatro túneis irmãos

Rio em ã

Maracanã

Sacopenapã

Rio em ol em amba em umba sobretudo em inho

de amorzinho

benzinho

dá-se um jeitinho

do saxofone de Pixinguinha chamando pela Velha Guarda

como quem do alto do Morro Cara de Cão

chama pelos tamoios errantes em suas pirogas

Rio, milhão de coisas

luminosardentissuavimariposas:

como te explicar à luz da Constituição?

III

Irajá Pavuna Ilha do Gato

— emudeceram as aldeias gentílicas?

A Festa das Canoas dispersou-se?

Junto ao Paço já não se ouve o sino de São José

pastoreando os fiéis da várzea?

Soou o toque do Aragão sobre a cidade?

Não não não não não não não

Rio, mágico, dás uma cabriola,

teu desenho no ar é nítido como os primeiros grafismos,

teu acordar, um feixe de zínias na correnteza esperta do tempo

o tempo que humaniza e jovializa as cidades.

Rio novo a cada menino que nasce

a cada casamento

a cada namorado

que te descobre enquanto rio-rindo.

assistes ao pobre fluir dos homens e de suas glórias pré-fabricadas.

Vera
Pessoa

 

 

Leave a Reply