UM CAFÉ NA INTERNET – Recém-casado, por Lélia Coelho Frota

 (1938 – 2010)

Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


É pelos corpos que nos perdemos
de nós mesmos, para nos ganharmos.
É pelos beijos que nos despedimos
para nos encontrarmos pelos olhos.
É pela pele que escaldamos
o que em nós havia de secreto:
e é o nosso corpo entregue um corpo
estranho
pois pertence só a quem amamos
por quem morosamente devassamos
o alheamento da carne –
o barqueiro, o pastor que a atravessa
num profundo arremesso vagaroso
levantando ondas, ondas, ondas e
ervas
a subir e descer vagas e montes
levando-me com ele à raia clara
onde água a quebrar-se eu me
constele
na sua barca, conduzida à praia.

 

 

 

 

(obrigado a cseabra.utopia.com.br) 

 

 

Lélia Coelho Frota, para além de poetisa, foi crítica e curadora de arte, tradutora e antropóloga. O argonauta Sílvio Castro, no seu livro Dedicatória autógrafa de autor – Estudo de retórica e teoria literária, Goiânia, Kelps, 2011, diz que a poetisa que A Viagem dos Argonautas / Um café na Internet hoje publica representa um dos pontos mais altos da poesia de 56 (ano de publicação de Grande Sertão: Veredas), com uma obra poética que alarga sempre e continuamente a dimensão mais moderna do lirismo brasileiro. 

 

 

 

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