O conceito de politicamente correcto surgiu nos Estados Unidos nos anos 70 do século XX e inundou a Europa na década seguinte. Não conseguimos apurar nem como nem quando foi defendido pela primeira vez. Foi bem acolhido, pois tentou controlar a linguagem, evitando excessos racistas ou sexistas e não podia deixar de se apoiar essa contenção de uma «liberdade» que, geralmente sob a capa do humor, ofendia a dignidade humana. Era uma forma de evitar que os preconceitos alastrassem até a um discurso do ódio à diferença – anti-semitismo, racismo e homofobia, machismo e todas essas degenerescências comportamentais.
Combatendo o conservadorismo e formas estratificadas de analisar a sociedade, o politicamente correcto instalou-se de armas e bagagens. Como mancha de óleo, alastrou sobre todo o tecido conceptual que nos rege e mal alguém diz alguma coisa que não se enquadre na cartilha, lá vem um fiscal emendar-nos. Até porque é mais fácil decorar meia dúzia de princípios básicos do que debater ideias. O que apareceu como aceitação social generalizada de bons princípios de convívio entre as pessoas, configura hoje uma ideologia repressiva e conservadora – o politicamente correcto converteu-se na censura desta democracia totalitária. É o caminho para o pensamento único.
Entre nós (e não só) há quem ganhe fama e estatuto de guru, sofisticando e defendendo de forma elaborada os princípios do politicamente correcto, aqueles princípios óbvios que muitos de nós defendemos sem necessidade de outra filosofia que não seja a decorrente da trilogia – igualdade, fraternidade e liberdade. Além de que, o que é politicamente correcto ou incorrecto, decorre de conceitos que evoluem impulsionados pelo precesso histórico – tentar codificar esse conjunto de conceitos mutantes é como prender uma ave numa gaiola – um acto estúpido e desumano.
Berthe Bernage, uma escritora francesa de romances cor de rosa, escreveu uma “Arte das Boas Maneiras – manual de educação e civilidade” que, em meados do século XX foi obra de grande sucesso. Destinado principalmente às «meninas», era lido por gente de género e faixas etárias diferentes. Deve existir, mas não conhecemos nenhum «Manual do Politicamente Correcto». Se há, não devia o seu autor/a esquecer uma entrada sobre a liberdade de expressão e de pensamento. Podia dizer: «É politicamente incorrecto limitar ou constranger alguém que quer usar esse direito para fazer afirmações que saiam do quadro estrito (tacanho) do politicamente correcto».
Um exemplo: um democrata deve poder afirmar que esta democracia é anti-democrática e, do ponto de vista prático, constitui uma nova forma de totalitarismo oligárquico – ou será politicamente incorrecto dizê-lo?

