No texto sobre Os cães da minha infância, sobre os cães da minha velhice pelos argonautas publicado havia um basset alemão de fino trato e má cara e um perdigueiro com setter cruzado e de pêlo bem malhado, cão este de uma ganância impensável, capaz de comer um presunto inteiro e comia enquanto que pelo rabo o largava, falei de cães que também souberam o gosto pelo sangue mas que controlados, regulados bem ensinados e sucessivamente em treinos bem confrontados quando se caçavaem grupo. Mas estes cães tem a sua imagem nos tempos modernos mas são uma outra coisa. Estes, ensinados, bom ensinados por faculdades como Paris-Dauphine, por Harvard ou outras, são cães de uma raça superior, assim se pensam, mas de uma ganância semelhante. Ensinados são nos métodos de gestão moderna, não a serem remunerados pelos resultados de equipa mas pela remuneração exclusiva por resultados individuais e por acautelarem o que é seu independentemente dos seus resultados globais, ensinados portanto a verem apenas o mundo pelo seu próprio umbigo, pelos seus próprios interesses, destes cães muito se poderia falar. Por estes dois textos se escreve uma história, onde passam dos melhores exemplares caninos modernos, maiores na sua relação em dimensão que o meu perdigueiro de então em altura e bem maiores de ambição que até deixariam o meu setter de perdigueiro cruzado e de pêlo bem malhado bem cheio de inveja. Daqui se fala de Jon Corzine o homem que agora declara a oitava falência em importância de Wall Street, de Henri Paulson, secretário do Tesouro nos tempos de Bush e que a estes cães queria distribuir aos milhões, daqui se fala de Robert Rubin, antigo Secretário de Estado do Tesouro nos tempos de Clinton que depois de ter destruído a barreira central de segurança contra os grandes senhores da Finança, a queda da lei Glass-Steagall, lei que ele revogou, foi no dia seguinte ocupar um lugar num dos maiores beneficiados com esta aprovação, no CitiGroup a ganhar muitos milhões de dólares por ano.
A este nível da questão deixem-me citar Phil Angelides, o Presidente da Financial Crisis Inquiry Commission, no âmbito de uma audição sobre a crise quando se dirigia a Robert Rubin:
“ “You were not a garden-variety board member,” disse Angelides. “I think to most people chairman of the executive committee of the board of directors implies leadership. Certainly $15 million a year guaranteed implies leadership and responsibility.” “
Por aqui, por estes dois textos passam também os mercados derivados, por aqui passa também a aliança dos diferentes bassets, cães de baixo porte e pelos vistos agora bem mandados, que se terão eventualmente reunido em Cannes para mostrarem que nada querem fazer a não ser que temem o poder da democracia como se mostra com a questão do referendo na Grécia.
Ainda perto de Cannes, aos leitores de A viagem dos Argonautas que por aí estejam e que não tenham podido ir jantar ao hotel recomendado no Mónaco, paraíso fiscal pelo G 20 bem respeitado, que não tenham ido por falta de recursos junto envio uma nota de cem euros que reproduzida e multiplicada até às 3 dezenas poderá chegar para aí jantar no meu restaurante preferido. Está autorizado a fazê-lo da mesma forma que se podem multiplicar até ao infinito a compra de produtos derivados sobre os bens alimentares, e por essa via os stocks alimentares imobilizar, pode multiplicar os produtos financeiros altamente sofisticados como os ETF que a UBS e outros sobre estes bens continuam a negociar. Pode fazê-lo, o G-20 não se importuna, como não se importuna com os esfomeados que de morte podem caír, mas a si, nesse restaurante, nada lhe poderão reclamar. A polícia a si garante-o, caro viajante, coma bem, pague bem melhor mesmo com notas falsas, que dos esfomeados aí ninguém contra si poderá protestar.
E boa leitura.
Júlio Marques Mota
I ª Parte
Jon Corzine ou a queda de um financeiro sem escrúpulos
Nova Iorque, Londres, correspondentes –
Em Wall Streetcomo na City, é necessário nunca julgar as pessoas sobre o aspecto que aparentam. Com as suas óculos de aros de metal , a sua barba com a cor do sal, o seu crânio já com bons ares de careca, com o seu ar de mal-arranjado, négligé, acompanhado de uma ponta de fantasia, Jon Corzine, 64 anos, tem um aspecto “de prof” de universidade. Falta-lhe apenas o tom de pele e a invisível distância que os transforma em cancro. No entanto, como o indica o perito da alta finança americana, William Cohan, a propósito do Chefe agora caído da firma de corretagem de Nova Iorque MF Global, com a sua declaração de falido desde 31 de Outubro, “sob os seus ares de relax, Jon Corzine é o protótipo do financeiro hiperambicioso a 100.000 volts”.
De facto, o comportamento do Presidente da firma, responsável do maior acidente em Wall Street desde a falência de Lehman Brothers em 2008 (Le Monde do 2 de Novembro), não tem nada a invejar dos maiores e também piores especuladores dos recentes e loucos anos da bolha subprime. Pense-se nisto: quando assumiu a direcção de MF Global, em Março de 2010, a acção do fundo valia 7 dólares. Menos de dois anos depois caía a 1,20 dólares. Para isso, fanático pela remuneração pelo desempenho, pelos resultados, este Presidente concedeu a si-próprio e sem problemas de ética excepcionais prémios. Melhor, enquanto que fez que a sua firma de investimentos assumisse os mais altos riscos, e acaba, no pânico, por ter utilizado os montantes depositados pelos seus investidores modo a cobrir os seus prejuízos – um delito cuja lógica assemelha às famosas “ fraudes piramidais”, Jon Corzine nunca se esqueceu de proteger os seus interesses pessoais. Assim, no caso de saída de MF Global , qualquer que seja o motivo e qualquer que tenha sido o seu desempenho, ele receberia contratualmente em espécies o montante antes de termo das suas stock options (11 milhões de dólares – 8 milhões de euros) ao qual se acrescentaria um pára-quedas dourado de 12,1 milhões.
A sua história é banal além-Atlântico , é a história de um pequeno rapaz de Willey Station, uma aldeola de Illinois, filho de um de trabalhador agrícola e de uma professora primária, que percebeu bem que só a educação e o trabalho o fariam sair do seu meio onde a maioria das pessoas trabalhava nos campos. Depois de estudos de economia e de comércio, fez o seu serviço militar no corpo dos Marines, mas sem servir no Vietname, é recrutado pela Continental Illinois. Aí aprende as bases do mercado dos títulos do Tesouro americano. Devido aos grandes volumes movimentados , no mercado obrigacionista, só conta o resultado, não o tempo passado no trabalho.
Esta avaliação vale a este grande carniceiro ser recrutado por Goldman Sachs (GS) em 1975. Na época, a insígnia de prestígio é um banco de negócios médio organizado em regime de parceria. Quatro anos depois, Jon Corzine dirige o departamento obrigacionista em pleno desenvolvimento e torna-se membro associado do Goldman Sachs. Tem apenas 33 anos. No número 85, Broad Streetem Nova Iorque, este Rastignac realiza uma carreira meteórica à sombra do seu mentor, Robert Rubin, que co-preside a firma. Aí, faz amizade com outra estrela ascendente, Christopher Flowers, um ás das fusões-aquisições de quem se faz um aliado. Em 1994, dois anos depois da partida de Robert Rubin para o lugar de Secretário de Tesouro de Bill Clinton, Jon Corzine torna-se co-director geral ao lado de um banqueiro de negócios ele também originário do Middle West, Henry Paulson.
A inimizade entre os dois homens é uma legenda. Sobretudo, se ambos apoiam a introdução de Goldman Sachs na Bolsa, estes dois são depois adversários em tudo o resto. Em especial, Henry Paulson bloqueia as tentativas repetidas de Jon Corzine, tomado pela ganância e pela megalomania, pela corrida ao gigantismo, impede-o de adquirir um concorrente. Com uma habilidade temível, Henry Paulson desembaraça-se gradualmente dos membros do clã rival. A começar por Christopher Flowers que, caído em desgraça, bate com a porta para fundar a sua própria firma de capital-investimento, JC Flowers & Co. Progressivamente isolado, megalómano não ouvindo mais ninguém, Jon Corzine é forçado por Henry Paulson a “desembarcar” da direcção de GS em 1999.
Mortificado, este homem volta-se então para uma das carreiras que, nos Estados Unidos, é a que mais necessita de meios financeiros: a política. Por sorte, acumulou, durante os seus anos Goldman e como indemnização da sua saída, uma fortuna avaliada em 400 milhões de dólares. Tinha com que se mostrar mais persuasivo junto das instâncias do seu partido – Jon Corzine afirma-se democrata – e mais ainda junto dos eleitores. Em 2000, o ex-proprietário de GS ganha um dos dois lugares de senador de New – Jersey. Gastou 62 milhões de dólares da sua fortuna pessoal e foi, de facto e até agora, a campanha mais cara da história do Senado. O senador Corzine será muito activo sobre projectos de lei que têm a ver com as ajudas aos estudantes e a extensão da cobertura-saude e votará, em 2002, contra a entrada em guerra dos Estados Unidos no Iraque. Mas a actividade de legislador não é a chávena de chá deste homem de acção. Mesmo antes do fim do seu mandato, pede a demissão para se lançar na corrida à função de governador do mesmo Estado.
É aí, em 2005, que obtém o seu mais maior sucesso político, esmagando o seu adversário republicano por 10 pontos de diferença. Governador, está outra vez em contacto directo e operacional com os financeiros. Tendo na sua mão igualmente os homens de negócios assim como os sindicatos, constrói-se uma fortaleza que parece inexpugnável . Desta época data a sua notoriedade: Jon Corzine não hesita em passar por cima de toda a ética para conseguir ser eleito chegando mesmo a comprar seguidores. Azar… Os seus volumosos meios não lhe serão de nenhum socorro para conseguir ser reeleito, em 2009. Explicá-lo-á de resto ele mesmo, depois da sua derrota: anteriormente, “ser um antigo sócio de Goldman Sachs era um enorme mais num percurso. Agora, as pessoas viram os excessos da finança. A sua atitude é muito diferente”. De facto, o seu adversário republicano bateu o apelo das suas tropas com um slogan devastador: “Corzine geriu New – Jersey de maneira tão catastrófica como os seus amigos banqueiros em Wall Street.» Impacto assegurado, tanto Goldman Sachs simboliza então a ganãncia dos “banqueiros-ladrões”.
Depois da sua derrota, o seu amigo Chris Flowers vem procurá-lo para lhe confiar as rédeas de MF Global. Christopher Flowers, que tinha 10% nesta casa de corretagem, está descontente do rendimento do seu investimento. A firma limitou-se às operações de corretagem em proveito dos seus clientes e na gestão dos activos em cash dos seus investidores. Homem de Goldman Sachs, levado agora a PDG, Jon Corzine tem apenas uma ambição, criar um mini Goldman Sachs transformando a sociedade MF Global num supermercado da finança que age por sua conta própria. No primeiro ano, a acção aprecia-se de 26% contra 17% para o índice S & P500. No centro da sua estratégia vencedora está a aposta sobre o aumento da dívida soberana dos países em crise da zona euro, da qual Jon Corzine se ocupa pessoalmente. Seguro da sua habilidade e das suas opções , decide sozinho, sem disso dar conta aos seus controladores de riscos ou aos seus analistas. Mas no verão2011, a crise soberana europeia agrava-se e as perdas acumulam-se.
Hoje, J C Flowers & Co teria perdido 48 milhões de dólares na falência de MF Global. Para o banco Goldman Sachs igualmente, a queda do seu antigo líder cai na pior altura possível. Depois das acusações levantadas pelo Procurador de Nova Iorque e pela SEC (Securities and Exchange Comissão, a tutela dos mercados americanos) contra Rajat Gupta, um ex-administrador de GS suspeito pela justiça de delitos de iniciado e de grande envergadura, é a segunda vez numa semana que o seu nome, por repercussão, é arrastado na lama.
Em 2007, Jon Corzine tinha sido vítima de um grave acidente de automóvel enquanto que era conduzido por um motorista do Estado do New – jersey a 150 km/hn uma auto-estrada onde a velocidade é limitada à 105. Facto agravante, o governador viajava sem cinto de segurança. Custar-lhe -á fracturas do fémur, onze costelas, do esterno e de uma vértebra. Além de uma cirurgia plástica facial. Quando lhe perguntaram porque é que o motorista não tinha exigido do seu passageiro que utilizasse o seu cinto de segurança, um colaborador de Jon Corzine indicou que este era muito “pouco aberto a este tipo de sugestões”. No dia da sua saída do hospital, o veículo que o transportava foi também surpreendido em excesso de velocidade. Visivelmente, o banqueiro aventureiro foi sempre um adepto do desafios até ao limite do inadmissível.
Sylvain Cypel et Marc Roche, Le Monde, 3.11.11.
(Continua)

