Sobre os cães da minha infância, sobre os cães da minha velhice, um olhar depois do G20 – Iª Parte – Jon Corzine ou a queda de um financeiro sem escrúpulos – Sylvain Cypel et Marc Roche, Le Monde, . Por Júlio Marques Mota

No  texto sobre Os cães da minha infância, sobre os cães da minha velhice pelos argonautas publicado havia um basset alemão de fino trato e má cara  e um  perdigueiro com setter  cruzado e de pêlo bem malhado, cão este de uma ganância impensável, capaz de comer um presunto inteiro e comia enquanto que pelo rabo o largava, falei de cães que também souberam o gosto pelo sangue mas que controlados, regulados bem ensinados e sucessivamente em treinos bem confrontados  quando se caçavaem grupo. Mas estes  cães tem a sua imagem nos tempos modernos mas são uma outra coisa. Estes, ensinados, bom ensinados por faculdades  como Paris-Dauphine, por Harvard ou outras, são cães de uma raça superior, assim se pensam, mas de uma ganância semelhante. Ensinados são nos métodos de  gestão moderna, não a serem remunerados pelos resultados de equipa mas pela remuneração exclusiva por resultados individuais  e por acautelarem o que é seu independentemente dos seus resultados  globais, ensinados portanto a verem  apenas o mundo pelo seu  próprio umbigo, pelos seus próprios interesses,  destes cães muito se poderia falar. Por estes dois textos se escreve uma história, onde passam dos melhores exemplares caninos modernos, maiores na sua relação em dimensão que o meu perdigueiro de  então em altura e bem maiores de ambição que até deixariam o meu setter de perdigueiro cruzado e de pêlo  bem malhado bem cheio de inveja.  Daqui se fala de Jon Corzine o homem que agora declara a oitava falência em importância de Wall Street, de Henri  Paulson, secretário do Tesouro nos tempos de Bush e que a estes cães queria distribuir aos milhões, daqui se fala de Robert  Rubin, antigo Secretário  de Estado do Tesouro nos tempos de Clinton que depois de ter destruído a barreira central de segurança contra os grandes senhores da Finança,  a queda da lei Glass-Steagall,  lei que ele revogou, foi no dia seguinte ocupar um lugar num dos maiores beneficiados com esta aprovação, no CitiGroup a ganhar muitos milhões de dólares por ano.


A este nível da questão deixem-me citar Phil Angelides, o Presidente da  Financial Crisis Inquiry Commission,  no âmbito  de uma audição sobre a crise quando se dirigia a Robert Rubin:


“ “You were not a garden-variety board member,” disse Angelides. “I think to most people chairman of the executive committee of the board of directors implies leadership. Certainly $15 million a year guaranteed implies leadership and responsibility.” “

 

Por aqui, por estes dois  textos passam  também os mercados derivados, por aqui passa também a aliança dos diferentes bassets, cães de baixo porte e pelos vistos agora bem mandados,  que se terão eventualmente reunido em Cannes  para mostrarem que nada querem fazer a não ser que temem o poder da democracia como se mostra com a questão do referendo na Grécia.

 

Ainda perto de Cannes, aos leitores de A viagem dos Argonautas que  por aí estejam e que não tenham podido ir jantar ao hotel recomendado no Mónaco, paraíso fiscal pelo G 20 bem respeitado, que não tenham ido por falta de recursos  junto envio uma  nota de cem euros que reproduzida e multiplicada até às 3 dezenas poderá  chegar para aí jantar no meu restaurante preferido. Está autorizado a fazê-lo da mesma forma que se podem multiplicar até ao infinito a compra de  produtos derivados sobre os bens alimentares, e por essa via os stocks alimentares imobilizar,  pode multiplicar os produtos financeiros altamente sofisticados como os ETF que a UBS e outros sobre estes bens continuam a negociar. Pode fazê-lo, o G-20 não se importuna, como não se importuna com  os  esfomeados que de morte podem caír, mas a si, nesse restaurante,  nada lhe poderão reclamar. A polícia a si garante-o, caro viajante, coma bem, pague bem melhor mesmo com notas falsas,  que dos esfomeados aí ninguém contra si poderá protestar.

 

E boa leitura.

 

Júlio Marques Mota  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

I ª Parte

 

 

Jon Corzine ou a queda de um financeiro sem escrúpulos

 

 

Nova Iorque, Londres,  correspondentes –

 

Em  Wall Streetcomo na City, é necessário nunca julgar as pessoas sobre o aspecto que aparentam. Com as suas óculos de aros de metal , a sua barba com a cor do sal, o seu crânio já com bons ares de careca, com o seu ar de mal-arranjado, négligé,  acompanhado  de uma ponta de fantasia, Jon Corzine, 64 anos, tem um aspecto  “de prof” de universidade. Falta-lhe apenas o tom de pele  e a invisível distância que os transforma em cancro.  No entanto, como o indica o perito da alta  finança americana, William Cohan, a propósito do Chefe agora caído  da firma de corretagem de Nova Iorque MF Global, com a sua declaração de falido desde  31 de Outubro, “sob os seus ares de  relax, Jon Corzine é o protótipo do financeiro hiperambicioso a 100.000 volts”.

 

 

De facto,  o comportamento do Presidente da firma, responsável do maior acidente em  Wall Street desde a falência de Lehman Brothers em 2008 (Le Monde do 2 de Novembro), não tem nada a invejar dos maiores e também piores especuladores  dos recentes e loucos  anos da  bolha subprime. Pense-se nisto:  quando assumiu a direcção de MF  Global, em Março de 2010, a acção do fundo valia  7 dólares. Menos de dois anos depois caía a 1,20 dólares. Para isso, fanático pela remuneração pelo desempenho, pelos resultados, este Presidente concedeu a si-próprio e sem problemas de ética excepcionais prémios. Melhor, enquanto que fez que a sua firma de investimentos assumisse os mais altos riscos, e acaba, no pânico, por ter utilizado os  montantes depositados pelos seus investidores modo a cobrir os seus prejuízos  – um delito cuja lógica assemelha às famosas  “ fraudes piramidais”, Jon Corzine nunca se esqueceu de proteger os seus interesses pessoais. Assim, no caso de saída de MF Global , qualquer que seja o motivo e qualquer que tenha sido o seu desempenho, ele receberia  contratualmente em espécies o montante antes de termo das suas stock options  (11 milhões de dólares – 8 milhões de euros) ao qual se acrescentaria  um pára-quedas dourado de 12,1 milhões.

 

 

A sua história é banal além-Atlântico , é a história  de um pequeno rapaz de Willey Station, uma aldeola de  Illinois, filho  de um de trabalhador agrícola e de uma professora primária, que percebeu bem  que só a educação e o trabalho o fariam sair do seu meio onde a maioria das pessoas trabalhava nos campos. Depois de  estudos de economia e de comércio, fez o seu serviço militar no corpo dos  Marines, mas sem servir no Vietname, é recrutado pela Continental Illinois. Aí aprende  as bases do mercado dos títulos do Tesouro  americano. Devido  aos  grandes volumes movimentados , no mercado obrigacionista, só  conta o resultado, não o tempo passado no trabalho.

 

 

Esta avaliação vale a  este grande carniceiro ser recrutado por Goldman Sachs (GS) em 1975. Na  época, a insígnia de prestígio  é um banco de negócios médio organizado em regime de parceria. Quatro anos depois, Jon Corzine dirige o departamento obrigacionista em pleno desenvolvimento e torna-se membro associado do Goldman Sachs. Tem apenas 33 anos. No número  85, Broad Streetem Nova Iorque, este Rastignac realiza uma carreira meteórica à sombra do  seu mentor, Robert Rubin, que co-preside  a firma. Aí, faz amizade  com outra estrela ascendente, Christopher Flowers, um ás das fusões-aquisições de quem se  faz  um aliado. Em 1994, dois anos depois da partida de Robert Rubin para o lugar de Secretário de Tesouro de Bill Clinton, Jon Corzine torna-se co-director geral ao  lado de um banqueiro de negócios ele também originário do Middle West, Henry Paulson.

 

 

A inimizade entre os dois homens é uma legenda. Sobretudo, se ambos apoiam  a introdução de Goldman Sachs na  Bolsa, estes dois são depois adversários em tudo o resto.  Em especial, Henry Paulson bloqueia as tentativas repetidas de Jon Corzine, tomado pela ganância e pela megalomania, pela corrida ao gigantismo, impede-o de adquirir  um  concorrente. Com uma habilidade  temível, Henry Paulson desembaraça-se gradualmente dos membros do clã rival. A começar por Christopher Flowers que, caído em desgraça, bate com  a porta para fundar a sua própria firma de capital-investimento, JC Flowers & Co. Progressivamente isolado, megalómano não ouvindo mais ninguém, Jon Corzine  é forçado por Henry Paulson a “desembarcar” da direcção de GS em 1999.

 

 

Mortificado, este homem volta-se então para uma das carreiras que, nos Estados Unidos, é a que mais necessita de meios financeiros: a política. Por sorte,  acumulou, durante os seus anos Goldman e como  indemnização da sua saída, uma fortuna avaliada em  400 milhões de dólares. Tinha com que se mostrar mais persuasivo junto das instâncias do seu partido – Jon Corzine afirma-se democrata – e mais ainda junto dos eleitores. Em 2000, o ex-proprietário de GS ganha um dos dois lugares de senador de New – Jersey. Gastou 62 milhões de dólares da sua fortuna pessoal  e foi, de facto e  até agora, a campanha mais cara da história do Senado. O senador Corzine será muito activo sobre projectos de lei que têm a ver com as  ajudas aos estudantes e a extensão da cobertura-saude e votará, em 2002, contra a entrada em guerra dos Estados Unidos no Iraque. Mas a actividade de legislador não é a chávena de chá deste homem de acção. Mesmo antes do fim do seu mandato, pede a demissão para se lançar  na  corrida à função de governador do mesmo Estado.

 

É aí, em 2005, que obtém o seu mais maior sucesso político, esmagando  o seu adversário republicano por 10 pontos de  diferença. Governador, está outra vez em contacto directo e operacional com os financeiros. Tendo na sua mão  igualmente os homens de  negócios assim como  os sindicatos, constrói-se uma fortaleza que parece inexpugnável . Desta época data a sua notoriedade: Jon Corzine não hesita em passar por cima de toda a ética para conseguir ser eleito chegando mesmo a comprar seguidores. Azar…  Os seus volumosos meios não lhe serão de nenhum socorro para conseguir ser reeleito, em 2009. Explicá-lo-á de resto ele mesmo, depois da  sua derrota: anteriormente, “ser um antigo sócio de Goldman Sachs era um enorme mais num percurso. Agora, as pessoas viram os excessos da finança. A sua atitude é muito diferente”. De facto, o seu adversário republicano bateu  o apelo das suas tropas  com um slogan devastador: “Corzine geriu New – Jersey de maneira tão  catastrófica como os  seus amigos banqueiros  em  Wall Street.» Impacto assegurado, tanto Goldman Sachs simboliza então a ganãncia dos  “banqueiros-ladrões”.

 

 

Depois da sua derrota, o seu amigo Chris Flowers vem procurá-lo  para lhe confiar as rédeas de MF Global. Christopher Flowers, que tinha 10% nesta casa de corretagem, está descontente do rendimento do seu investimento. A firma limitou-se às operações de corretagem em proveito dos seus clientes e na gestão dos activos em cash  dos seus investidores. Homem de Goldman Sachs, levado agora a PDG, Jon Corzine tem apenas uma ambição, criar um mini Goldman Sachs transformando a sociedade MF Global  num supermercado da finança que age por sua conta própria. No  primeiro ano, a acção aprecia-se de 26% contra 17% para o índice S & P500. No centro da sua estratégia vencedora está  a aposta sobre o aumento da dívida soberana dos países em crise da zona euro, da qual Jon Corzine se ocupa  pessoalmente. Seguro da sua habilidade e das suas opções , decide sozinho,  sem disso dar conta aos seus controladores de riscos ou aos seus analistas. Mas no verão2011, a crise soberana europeia agrava-se e as perdas acumulam-se.

 

 

Hoje, J C Flowers & Co teria perdido 48 milhões de dólares na falência de  MF Global. Para o banco Goldman Sachs igualmente, a queda do seu antigo líder cai na pior altura  possível. Depois das  acusações levantadas pelo Procurador de Nova Iorque e pela SEC (Securities and Exchange Comissão, a tutela dos mercados americanos) contra Rajat Gupta, um ex-administrador de GS suspeito pela justiça de delitos de iniciado e  de grande envergadura, é a segunda vez numa semana que o seu nome, por repercussão, é arrastado na lama.

 

 

Em 2007, Jon Corzine tinha sido vítima de um grave acidente de automóvel enquanto que era conduzido por um motorista do Estado do New – jersey a  150 km/hn uma auto-estrada onde a velocidade é limitada à 105. Facto agravante, o governador viajava sem cinto  de segurança. Custar-lhe -á fracturas do fémur, onze costelas, do esterno e de uma vértebra. Além de uma cirurgia plástica facial. Quando lhe perguntaram  porque é que o motorista não tinha exigido do seu passageiro que utilizasse  o seu cinto  de segurança, um colaborador de Jon Corzine indicou que este era muito “pouco aberto a  este tipo de sugestões”. No  dia da sua saída do hospital, o veículo que o transportava foi também  surpreendido em  excesso de  velocidade. Visivelmente, o banqueiro aventureiro  foi  sempre  um adepto do desafios até ao limite do inadmissível.

 

 

 

Sylvain Cypel et Marc Roche, Le Monde, 3.11.11.

 

(Continua)

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