Como se cozinha uma guerra – por José Goulão

 

A NATO ainda não terminou as delirantes comemorações da sua vitória na Líbia, os soldados norte-americanos ainda estão a fazer as malas no Iraque porque não se recolhem facilmente os trastes de uma ocupação de mais de oito anos, o Pentágono ainda não pôs totalmente em campo a sua nova “arquitectura” para reforçar a presença militar norte-americana no Golfo e na Península Arábica, mas soam cada vez mais alto os tambores de uma nova guerra.

 

Os generais do Império, os estrategos da NATO sofrem de bichos-carpinteiros, não conseguem estar quietos nem dar sossego aos povos, são tão adictos em guerra como os viciados nos derivados do ópio que a ocupação do Afeganistão tornou felizes porque nunca como hoje esses produtos circularam com tanta abundância.

Chegou a vez do Irão. Poderia ser a vez da Síria, mas as condições parecem não estar maduras. Talvez depois… Por ora os dirigentes da Liga Árabe ainda andam entre o Cairo e Damasco fazendo com o senhor Assad o que o FMI vai fazer com o senhor Berlusconi, isto é, fiscalizar se aquele vai cumprir as reformas do regime de que o incumbiram.

 

Nesta opção por Teerão é óbvio que a palavra determinante foi a do primeiro ministro de Israel. Mesmo afrontando a opinião contrária da maioria dos braços do polvo que é o seu “gabinete restrito”, desconfiados dos riscos que a operação pode envolver, o senhor Netanyahu, bem acompanhado pelo seu ministro dos Estrangeiros,  o racista moldavo e ex-porteiro de discoteca senhor Lieberman, decidiu que vai atacar o Irão.

 

Bem, ao que parece não todo o Irão mas sim os sítios onde se presume, segundo fontes tão inquinadas como a espionagem americana e os inquisidores da Agência Internacional de Energia Atómica, que o regime islâmico de Teerão estará a produzir bombas atómicas em vez de energia eléctrica para as populações.

 

 

Uma guerra contra a Síria poderia ser perturbadora para Israel; é nas suas fronteiras, envolve territórios ocupados pelo regime de Telavive e também pode contagiar o imprevisível Líbano, país onde as tropas israelitas jamais se deram bem e nunca conseguiram vitória que se visse, a não ser arrasar regularmente as vidas e os bens de dezenas de milhares de cidadãos libaneses de todos os credos e ideologias.

 

 

Além disso, dentro de poucas horas prevê-se que a Agência Internacional de Energia Atómica apresente um relatório que deveria estar ainda recatadamente guardado mas que os tantãs belicistas da modernidade, a comunicação social oficial da globalização, já sentenciaram como terrível para o Irão, o libelo mais completo sobre a entrada de Teerão na elite das potências militares atómicas. Logo a seguir à divulgação, como se prevê, os dirigentes dos dois lados do Atlântico juntarão cabeças para decidir o que fazer, certamente mais sanções mas não só porque a palavra (quem sabe também os aviões carregados de mísseis) dos senhores de Israel far-se-ão ouvir em nome de uma punição exemplar. Por isso mesmo, a nova “arquitectura” militar imperial no Golfo e Península Arábica foi idealizada segundo cenários nos quais se inclui uma guerra com o Irão.

 

Mesmo custando a crer que dirigentes político-militares que se dizem responsáveis e governam o mundo estejam envolvidos numa sangrenta aventura como esta, com resultados e consequências que não dominam nem conseguem prever, os factos aí estão. A possibilidade de guerra contra o Irão é para levar muito a sério, criando provavelmente no mundo o mais terrível foco de conflito dos últimos 60 anos.

 

 

Permitam-me que deixe aqui uma pequena explicação sobre a consideração, que pode legitimamente ser considerada abusiva, segundo a qual não incluo a Agência Internacional de Energia Atómica entre as instituições idóneas para produzir elementos capazes de conduzir a uma tragédia militar. É que se o fosse, já teria investigado e divulgado ao mundo o poderio militar atómico de Israel, que Telavive nega mas não é mais do que um segredo de Polichinelo. Israel é a única potência nuclear do Médio Oriente e, com a cumplicidade do mundo “civilizado e atomizado”, quer continuar a sê-lo. Por isso, o fabrico de bombas atómicas pelo Irão pode (ou não) ser tão verdadeiro como as armas de extermínio que Bush jurou existirem no Iraque de Saddam, mas até lançarem uma guerra os dirigentes mundiais que se dizem responsáveis deveriam pensar melhor e dar um pouco mais de espaço a uma diplomacia menos preconceituosa e, se possível, livre do espírito das novas cruzadas. É que há mais de duas décadas Israel bombardeou o Iraque alegando o mesmo motivo e essa foi a primeira acção de uma guerra baseada na primeira de muitas mentiras que deixaram o Iraque “democrático”, “civilizado”, mas exangue e destroçado.

 

 

Percebe-se que a NATO esteja em delírio com a sua primeira vitória, também à custa de uma Líbia exangue e destroçada, mas ainda assim é surpreendente que, com os evidentes fracassos no Afeganistão e no Iraque, os tão responsáveis dirigentes mundiais ainda não se tenham inteirado de que o Irão não é o Afeganistão, o Iraque, muito menos a Líbia.

 

 

 

 

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