O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 30 – por Raúl Iturra

 

 

Freud costumava dizer que os conteúdos do inconsciente pretendem aceder à consciência por meio das denominadas transformações de compromisso, ou seja, aparecem de formas disfarçadas em sonhos, lapsos, actos falidos, etc. Os sonhos são um dos principais objectos do estudo psicanalítico. Eles são mensajes subliminales do inconsciente, os lapsos e os actos falidos. São acciones impensadas que acontecem na vida quotidiana (erros de escrita ou de fala), factos de irrupções ilógicas dentro da racionalidade do dia-a-dia. São da ordem do inconsciente que, acrescentaria eu, o consciente consegue transformar. Quando acontece um engano ao dizer uma palavra por outra (lapso), a psicología afirma que é o que realmente se queria dizer, os lapsos estariam a falar de um conflito (conflicto) interno. É assim que os sonhos e a associação livre (o primeiro que aparece na mente, em sucessão aparentemente casual) são o elo da análise (análisis) terapêutica.

 

Certos factos da vida quotidiana, demonstram claramente a presença desse outro eu, como quando nos encontramos em casa e um dos nossos filhos aparece a gritar de um canto da mesma para nos assustar. Reagimos de imediato com um salto para pôr distância entre ele e nós. Somente, após alguns segundos, reparamos que não é nenhuma ameaça para a nossa integridade. Essa primeira reacção é um reflexo quase automático, como se o nosso inconsciente se tivesse adiantado à nossa consciência, tomando a iniciativa dos nossos actos[1]. Até parece ser uma resposta, em palavras comuns, do sistema nervoso central[2] ao perigo existente, real ou não.         

 

3. Haverá uma terceira via?

 

Questão que coloco após pensar e estruturar toda a pesquisa em torno da primeira via, o denominado seio bom, definido por Melanie Klein, citada no início deste texto[3]. O seio bom dá esse agir directo do indivíduo com a sua ascendência. Normalmente, a vida social acontece dentro de uma relação directa entre ascendentes e descendentes, entre pais e filhos, em geral uma relação afectiva positiva e directa. O que infelizmente, nem sempre acontece, por ter de passar pelo entendimento de toda a organização da estrutura da personalidade, como tem sido analisado por mim, ao estudar Klein, Freud[4], e Miller[5]

 

Mas, não basta, para entender o saber da criança, entrar na sua estrutura de personalidade, como vimos até agora. Diria mesmo que há um contexto social que conforma a mente da criança. Esse contexto passa pela análise da vida pública.

 

A primeira via, foi definida como sendo os pais dos mais novos; a segunda, os seus substitutos, analistas, docentes, parentes, vizinhos e amigos. Porém, além dos mais próximos, existe uma terceira via: o contacto paroquial ou comunal, a cidade, a vila, a Nação, o Estado. Sítios em que moram seres humanos que impingem saberes orientam a vida social e acabam por ser legisladores. Contexto denominado Soberania Nacional que acaba por configurar também a mente cultural infantil, todavia, em minha opinião, é um elo necessário à análise para o estudo do, por mim denominado, processo de ensino – aprendizagem. Por outras palavras, a análise da vida sócio – política que nos governa deve também ser materializada.


NOTAS:

[1] O texto, da minha autoria, Mis Camélias, 2008, editado por Monografias.com, pode ser lido em: http://www.monografias.com/trabajos5/incon/incon.shtml?relacionados ou http://www.monografias.com ou www.monografias.com. As palavras castelhanas têm sido conservadas por corresponderem a nota de rodapé ou a ligação para outro texto.

 

[2] Em anatomia, chama-se sistema nervoso central (S.N.C.), ou neuroeixo, ao conjunto do encéfalo e da medula espinhal dos vertebrados. Forma, junto com o sistema nervoso periférico, o sistema nervoso, e tem um papel fundamental no controle dos sistemas do corpo. Mais informação em:  http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_nervoso_central

 

[3] Para lembrar o leitor, excertos do texto podem ser lidos em: http://www.estantevirtual.com.br/livro/15600043/Melanie_Klein_Inveja_e_Gratidao___Estudo_das_Fontes____.html

 

[4] Lembram-se as ligações previamente citadas neste texto, como por exemplo: http://en.wikipedia.org/wiki/The_Ego_and_the_Id ou http://classiques.uqac.ca/classiques/freud_sigmund/freud.html, obras completas de Freud.

 

[5] Entre outros, O drama da criança bem dotada, como os pais podem formar ou deformar, texto que pode ser lido em: http://books.google.com.br/books?id=fpGqnZq4FHoC&pg=PA109&lpg=PA109&dq=Textos+de+Alice+Miller&source=bl&ots=gZbYNiyw33&sig=PrNFzFKbl26bEY5TExRhPgxr9bc&hl=pt-PT&sa=X&oi=book_result&resnum=5&ct=result. Para mim, a lembrança mais importante é The Natural Child Project, em: http://www.google.de/search?hl=pt-PT&q=Alice+Miller+The+Natural+Child+Project&btnG=Pesquisa+do+Google The Natural Child Project, Alice Miller Library. A visão deste programa, do qual faço parte, representa um mundo onde todas as crianças são tratadas com dignidade, respeito e simpatia. Apesar de gostar da frase, não é minha. Foi retirada da ligação ao programa:  http://www.gurteen.com/gurteen/gurteen.nsf/id/alice-miller-library . A sua obra está em: http://www.naturalchild.com/alice_miller/index.

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