Diário de Bordo de 10 de Novembro de 2011

 

Armando Vara, com outros 35 arguidos, começou na passada terça-feira a ser julgado no âmbito do mega – processo. Face oculta no Tribunal de Aveiro. As suas alegações sobre os robalos que o empresário Manuel Godinho lhe oferecia são, no mínimo, curiosas. Mas não é disso que vamos falar. Destacamos, pelo ineditismo, o episódio que ocorreu ontem à entrada para o tribunal – Vara foi interpelado por um cidadão que, cara a cara, lhe disse que ele, bem como outros políticos da sua geração, são uma vergonha nacional.

 

É bom que haja pessoas com a coragem daquele senhor que calmamente falou por muitos de nós. Na realidade, estes políticos dos partidos do chamado bloco central são, com honrosíssimas excepções, uma vergonha. O nosso Fernando Pereira Marques, professor universitário e ex-deputado do PS, no seu livro «Sobre as Causas do Atraso Nacional», explica-nos como a partir de 1986, ano da adesão de Portugal à então Comunidade Europeia, se forjou uma nova estirpe de políticos oportunistas, isentos de escrúpulos, que viram no caudal de milhões das ajudas comunitárias uma excelsa oportunidade para enriquecer.

 

Em 25 anos consolidaram fortunas, fizeram alianças, casando, por vezes, os filhos entre si – nasceu aquilo a que se pode chamar uma oligarquia. É um espaço onde as ideias não contam. Ex-ministros ou ex-secretários de Estado, quando saem dos governos, têm à espera lugares em conselhos de administração. Perante o cenário de crise, é óbvio não fazer sentido os vencimentos que alguns gestores auferem. Quando se fala no imperativo de os reduzir drasticamente, ouve-se com frequência a resposta: «- se não lhes pagam bem, vão para o estrangeiro.»

 

Se não fosse uma tragédia dava vontade de rir – estes políticos que, perdidas as eleições dos seus partidos vão para lugares nos conselhos de administração de empresas, o que fariam «no estrangeiro»? Muitos deles nem na construção civil teriam lugar. Seria uma «fuga de cérebros» que deixaria o país mais inteligente e, sobretudo, mais higienizado. Estes homens e mulheres vindos dos partidos do poder, incapazes, corruptos, responsáveis pelo estado a que chegámos e em cujas contas bancárias está uma importante parte da dívida que nós vamos ter de pagar – são como disse o cidadão de Aveiro – «uma vergonha nacional».

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