O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 33 – por Raúl Iturra

 

 

 

O comportamento libidinoso das crianças, além de ser parte da sua estrutura de personalidade, definido por Freud, faz, também, parte da libido de muitos adultos que, aí sim, podemos considerar abusadores de menores, ao obrigá-los a prostituírem-se por meio tostão. Na Cidade de Talca, ao Sul de Santiago do Chile, há casas de prostituição fechadas para homens adultos pedófilos , que levam para a cama rapazes púberes ou pré púberes para seu belo prazer. Adultos de posses e poder que a lei não incrimina, menos ainda a autoridade, que até fomenta e participa neste tipo de actividades. Não há lei a punir a pedofilia.

 

No caso português, o Código Penal de 1940, reformulado em 2008 e o Projeto de Lei 3773/08 (passado, entretanto, a Lei) condena a pedofilia como crime de prisão até quatro anos. Duas leis de tipos diferentes foram promulgadas. Uma, no caso português, para punir crimes de adultos contra crianças, menino ou menina, que reformula o Código Penal e o actualiza no ano de 2008, passando a pedofilia a ser considerada delito de abuso sexual de menores. A outra, no Brasil, foi mais longe ao criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pedofilia. Este programa vem corrigir alguns problemas com a legislação vigente, visto que até então a posse de material exibindo menores de idade em situações de sexo explícito ou safardanagem em geral não era considerada crime . Vários países de dentro ou fora da União Europeia, têm reagido de forma dura contra a actividade sexual que fere os sentimentos emotivos da criança, ferimentos que, mais tarde, causam traumas na vida adulta, excepto se a pessoa tiver um grande poder de resiliência, conceito definido por Boris Cyrulnik .

 

Antes de passar propriamente ao conceito definido por Boris Cyrulnick, permitam-me referir a especialista brasileira em educação, Sandra Maria Farias de Vasconcelos , que o soube explicar tão bem. Boris Cyrulnick ao definir o conceito resiliência, como essa inaudita capacidade de construção humana , fâ-lo da seguinte forma: Fazer nascer um filho não é suficiente, acrescentando na obra citada: é mais importante e necessário dá-lo ao mundo educado, colocando à sua volta tutores de desenvolvimento. Isto começa muito antes do nascimento, através das representações da mãe que banham o embrião numa determinada atmosfera psí¬quica. Apenas cerca de um terço das gravidezes se realizam em condições sãs. As outras são marcadas por problemas emocionais, uma patologia associada ou por angústias que criam um meio sensorial mais ou menos perturbado. Uma vez nascido o bebé, provoque prazer ou não ao adulto, vai desencadear reacções diferentes que, por sua vez, vão realizar ou não o seu desenvolvimento.

 

NOTAS:

 

 

[1]A
pedofilia é um desvio que consiste na atracção sexual do adulto por crianças. Definição retirada dos meus textos, especialmente: “Pedófilos, serão apenas os romanos?”, publicado no jornal A Página da Educação, Profedições, Porto, Nº 114, ano 11, Julho 2002, em:  ttp://www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=1963.

 

[1] Texto completo em: http://meiobit.pop.com.br/meio-bit/internet/nova-lei-contra-pedofilia-pune-ate-lolicon.

 

[1] No seu texto de 2001, denominado Les villaines petits canards, Éditions Odile Jacobs, Paris. O título do livro foi propositadamente retirado de um outro título de um conto para crianças: O patinho feio, essa pequena ave aquática que ninguém queria por não ser bela, mas que foi capaz de aguentar esse ser diferente dos outros, até crescer e transformar-se num belo cisne. Não é por acaso que é uma história universal do tipo de contos usados por Alice Miller, como a análise que fez do conto tradicional: “O rei vai nu”, citado e analisado por mim no livro: A ilusão de sermos pais, 2008, em: http://br.monografias.com/trabalhos913/licoes-etnopsicologia-infancia/licoes-etnopsicologia-infancia.shtml.
Tornando ao livro de Cyrulnik, traduzido para português com esse péssimo título que nem permite vender: ninguém sabe o que é resiliência, excepto os
“eruditos”. No entanto, a importância da teoria de Boris Cyrulnik (psiquiatra, neurólogo, etólogo, psicanalista e professor universitário), é inquestionável
ao renovar conceptualmente a teoria psicanalítica e ao «refrescar» as análises com uma escrita comum, utilizando conceitos simples retirados da vida real. As suas obras parecem romances. Tem-se imposto quer pelos seus inúmeros livros, quer pelo objectivo de tornar a ciência da análise mais acessível. E fá-lo brilhantemente, na minha opinião, ao definir e fazer circular esse conceito tão amado e usado por todos nós, a noção de resiliência, comentado em :
http://lionel.mesnard.free.fr/le%20site/boris-cyrulnik.html

 

 

[1] A ciência interroga-se, há mais de quarenta anos, sobre o facto de certas pessoas terem a capacidade de superar as piores situações, enquanto outras ficam presas nas malhas da infelicidade e da angústia que se abateu sobre elas, como numa rede engodada. A questão é saber porque certos indivíduos são capazes de se levantar após um grande trauma e outros permanecem no chamado fundo do poço, incapazes de, mesmo sabendo não ter mais forças para cavar, subir tomando como apoio as paredes desse poço e continuar seu caminho?, Ana Maria Farias de Vasconcelos, graduada em Letras pela Universidade Federal do Ceará (1996), com especialização em Psicopedagogia e doutorada em Sciences de L’Education pela Universidade de Nantes (2003). Actualmente, professora adjunta da Universidade Federal do Ceará, chefia o Departamento de Letras Vernáculas, também professora colaboradora da Universidade Estadual do Ceará e membro do Conselho de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES) do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). O texto completo pode ser lido em: http://www.sbpcnet.org.br/livro/57ra/programas/CONF_SIMP/textos/sandravasconcelos-resiliencia.htm. Todavia, este comentário, não me parece suficiente para definir um conceito recentemente criado, que, de imediato, passou a ser tão usado e tão válido, conceito usado por muitos de nós e largamente por mim, o de resiliência. Noção retirada de conceitos da física, usada também, e de forma mais importante, para definir a energia da capacidade humana para ultrapassar golpes duros. Se os materiais resistem, porque é que uma emoção e uma biologia não mudariam? É possível
comparar, a psicologia tomou essa imagem emprestada da física, definindo resiliência como a capacidade do indivíduo saber lidar com
problemas emotivos, com abusos biológico ou psicológicos, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas – choque, stress, etc. – sem entrar em surto psicológico. No entanto, Francisco Job (2003), que estudou a resiliência em organizações, argumenta: a resiliência se trata de uma tomada de decisão quando alguém se depara com um contexto entre a tensão do ambiente e a vontade de vencer. O texto é da sua tese de doutoramento, JOB, F. P.P, 2003: Os sentidos do trabalho e a importância da resiliência nas organizações, referido incompletamente, apenas com comentário, em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Resili%C3%AAncia_(psicologia), texto e comentário, podem ser consultados em:  pt.wikipedia.org/wiki/Resiliência_ (psicologia). Apesar de ser um trabalho sobre Administração de Empresas uso-o para apoiar a minha hipótese. Por outras palavras, a resiliência passou a ser um conceito mais universal ao entrar no mundo da psicanálise, a partir da teoria da física, motivo porque chamo aqui estes autores.

Tais conquistas, face a essas decisões, propiciam forças nas pessoas para enfrentar a adversidade. Assim entendido, pode-se considerar que a  resiliência é uma  combinação de factores que propiciam ao ser humano superar problemas e adversidades. Para saber mais, o texto completo está na enciclopédia que me apoia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Resili%C3%AAncia_(psicologia)

 

[1] Definição retirada do texto Resiliência, 2003, Edições do Instituto Piaget, tradução para a língua lusa de Les Vilaines Petit Canards, título retirado de uma história de Hans Christian Andersen, citado antes, página 28, texto que tenho comigo em suporte de papel. Há um comentário sobre o livro que define autor, conceito e valor da palavra de Miguel Santos Guerra: Vou deter-me neste ponto, pois há quem pense estar condenado a ser desgraçado por toda a vida por lhe ter sucedido uma desgraça qualquer (maus tratos, violência, humilhação) na infância. Não é necessário ser muito sagaz para verificar que há muitos meninos no mundo (e muitas meninas,sobretudo muitas meninas) que suportam uma infância atroz. Vítimas da guerra,
vítimas de maus-tratos, vítimas de vexames, vítimas de abandono, vítimas da falta de amor… Crianças que vivem de forma visivelmente aterradora. Outras, de forma camuflada, porém não menos cruel. Terão elas a sua vida destruída?
Estarão marcadas para sempre? Não. Há que pôr fim ao fatalismo, ao determinismo, às crenças que engendram destinos sem regresso
.

Boris Cyrulnik (2002) utiliza, como subtítulo da sua obra “Os Patinhos Feios”, uma frase que resume a sua tese base: “A resiliência: uma infância infeliz não determina toda uma vida”. A resiliência é “uma propriedade que define a resistência de um material ao choque”. O autor utiliza o conceito como
sinónimo de resistência ao sofrimento. Chama a atenção, tanto para a capacidade de resistir aos embates de natureza psicológica, como para o impulso
de reparação psíquica que nasce desta resistência.

O autor desta obra tinha apenas seis anos quando conseguiu escapar de um campo de concentração, no qual a sua família foi internada e nunca mais
regressaram. A sua família estava constituída por judeus russos emigrantes
.”
Texto completo no blogue Azul Índigo, de 10 de Novembro de 2008, que tem por título: valor de resiliência, em: http://anapsiroqueantunes.blogspot.com/2008/11/valor-da-resilincia.html Não resisto a acrescentar, o motivo de Cyrulnik ao dar este título ao livro. O analista comenta como as desgraças da criança podem não ser um dano quando for adulto. A metáfora é O Patinho Feio (em dinamarquês Den grimme
ælling), conto de fadas do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen. (Odense, 2 de Abril de 1805Copenhague, 4 de Agosto de 1875), conta
uma história que apoia a tese de Cyrulnik: Um filhote de cisne é chocado no ninho de uma pata. Por ser diferente dos seus irmãos, o pobre é perseguido, ofendido e maltratado por todos os patos e galinhas do terreiro. Um dia, cansado de tanta humilhação, ele foge do ninho. Durante a sua jornada, ele pára em vários lugares, mas é mal recebido em todos. O pobrezinho ainda tem de aguentar o frio do inverno. Mas, quando finalmente chega a primavera, ele abre suas asas e une-se a um majestoso bando de cisnes, sendo então reconhecido como o mais belo de todos.
História toda em: http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Patinho_Feio Sobre o escritor, em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hans_Christian_Andersen.

Comentar é simples: as crianças que sofrem em pequenas, acabam por ser criadoras se não se deixarem abater pelas ofensas aos seus sentimentos ou às suas pessoas. O Patinho Feio na vida real, é esse chamado Robert – Boris Cyrulnik – salvo da morte por Margerite Farge. Cyrulnik foi capaz de adquirir essa inaudita capacidade de construção humana, frase do seu livro Les vilaines petis canards, que admiro e uso, pelo qual rendo- lhe homenagem, como por esse outro de 2003: Les murmure de fantômes, Ódile Jacob, 2003, Paris. O
texto não está em linha, mas há imensas referências nas entradas Internet da
página web: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Les+murmure+de+fant%C3%B4mes&btnG=Pesquisar&meta=, especialmente o comentário de http://www.passeportsante.net/fr/P/Bibliotheque/Fiche.aspx?doc=biblio_a_21250: traduzido para português como O murmúrio dos fantasmas, editado por Actividades Editoriais Lda. Temas e Debates, Lisboa. Os problemas da infância são esse murmúrio dos fantasmas no pré adolescente e no púbere, que andam sempre na sua memória, mas são apagados com a resiliência e com a criação de novas relações sociais e afectivas. O texto tem este comentário: Este livro é uma verdadeira mensagem de esperança
Marilyn Monroe não conheceu a ternura quando criança. Tornou-se um fantasma. Já Hans Christian Andersen conseguiu ser reaquecido. A afeição é uma necessidade tão vital que, quando somos privados
dela,nos apegamos intensamente a qualquer acontecimento que faça uma migalha de vida voltar a nós, a qualquer preço. Os que recusam permanecer prisioneiros de uma ruptura traumática devem livrar-se dela para tornar à vida. Até a transformam em uma ferramenta para conquistar felicidade. Neste livro, Boris Cyrulnik conta
como o tumulto do passado ainda murmura na criança mais velha que estabelece novos vínculos afectivos e sociais. Como o apetite sexual na adolescência constitui um momento sensível na evolução da reparação de si. Uma nova atitude diante do sofrimento psíquico, a resiliência propõe construir esse processo de libertação.
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