A RODA DOS EXPOSTOS por Clara Castilho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Expostos, meninos de ninguém, desespero, vergonha, pobreza, incapacidade parental…tudo nomes que vimos associados a esta existência…

 

“Nas sombras da alba, os vultos de túnica e cogula, ou embocados em largos capotes, que se viam deslizar pelas vielas que vinham desembocar ao Rossio, levavam contrabando: os infalíveis naciturnos para a Roda. …. Espreitavam-se das esquinas para evitar encontros molestos, pois que na cidade, dizimada pela peste e as aventuras ultramarinas, todos se conheciam. O aparelho fazia certo restolhadeiro a girar, se não era o vagido da criança que avisava. E logo uns braços profissionais, e no entanto os melhores braços caritativos daquele século, pegavam no recém-nascido.” – Aquilino Ribeiro – “Príncipes de Portugal, suas grandezas e misérias”.

 

 

Em 1768, o Marquês de Pombal institui esta modalidade – a RODA – com o objectivo de diminuir os infanticídios, ficando adstritas a hospitais ou albergarias de cada cidade (em Lisboa o Hospital de Todos os Santos). Num mecanismo cilíndrico, composto por duas partes, uma côncava e outra convexa, que giravam sobre si mesmas, eram depositadas as crianças cujos pais não podiam ou não queriam com elas ficar.

Muitas vezes iam acompanhados de “sinais” que mais tarde poderiam possibilitar o reconhecimento da criança. Era registada à entrada, assim como tudo o que a acompanhava. Se trazia nome, esse ficava. Caso contrário recebia o do santo do dia. Mas muitas das crianças já chegavam cheias de maleitas, as condições de vida eram precárias, os cuidados com elas reduzidos… e a mortalidade rondavam os 80%! As crianças até aos 3 anos eram entregues a amas a viver no campo, até aos 7 permaneciam em asilos e a partir daí iam aprender um ofício.

Em Lisboa, a Santa Casa de Misericórdia de Lisboa, por mão do Conde de Rio Maior, extinguiu este “Serviço” em 1870, atribuindo pequenos subsídios a mães “indigentes”. E muitas das crianças passaram de “expostas” a “encobertas” – aquelas cujas mães as não queriam registar. E as que as registavam, era sem nome de pai, o que as autoridades consideravam melhor do que a situação anterior. Por essa altura, essas mães podiam ficar com seus filhos até um ano, a expensas da SCML, como que a servir de “amas de leite” dos próprios filhos. E são fornecidos os seguintes dados:

Em 1870, altura da extinção da Roda, havia 2 879 crianças “expostas”; em 1871 havia 1692 crianças “encobertas”; em 1972, 449. E dizem-nos que em 1938 só havia 5 crianças na rua!

Em 1977, decorrentes do Dec.-Lei nº 496/77 foram criados  Serviços de Adopções, tendo a legislação já sofrido várias alterações.

 

 

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