O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 40 – por Raúl Iturra

 

 

No Paraíso encantado, havia uma fada madrinha, a minha Nana Griselda, que me criara e tinha a paciência de esperar o meu regresso a casa, às vezes pela noite dentro. Época em que eu organizava Sindicatos, defendia os plebeus definidos por Gracchus Babeuf em 1785 e teorizados por Marx em 1848. Por tratar de casos criminosos em bairros de lata, costumava chegar por volta das onze da noite. Lá estava ela, a tricotar e à minha espera para me servir a comida. Sem duvidar jamais, comíamos ambos na cozinha. Contava-me histórias, especialmente da nossa família que a nossa Senhora Mãe lhe havia contado e eu, depois, transmitia-as aos meus irmãos. Como na Casa dos Espíritus de Isabel Allende. Enquanto eu comia, ela tricotava, narrava e ria. Com um riso alegre e calmo, alimento de serenidade para o meu espírito rebelde e radical de combatente dos plebeus.

 

A minha Fada Madrinha em breve passou a ser a Chela, alcunha inventada por mim ao longo da cronologia dos nossos cálidos jantares a dois, enquanto toda a casa dormia. De manhã, às seis, hora em que ela ainda dormia, eu acordava os meus irmãos e primos para o pequeno-almoço antes de partir para a cidade. A minha Fada Madrinha ou qualquer outra pessoa da cozinha, preparava a mesa da copa para os Iturra mais novos se alimentarem com queijos, o eterno porridge ou aveia com leite, ovos escalfados, torradas e manteiga, por vezes rins ou carne assada, era uma avalanche de alimentos para suportar essas enormes manhãs, sustentar o corpo e a nossa inteligência!

 

A minha Fada Madrinha, que nos abandonou para entrar na eternidade, ainda muito nova, conheceu os seus “netos” – os nossos filhos – e orgulhava-se dos seus descendentes adoptivos. Foi ela, quando por motivos académicos saímos de Laguna Verde para Santiago, quem nos apoiou, enquanto os nossos Senhores Pais tratavam dos trabalhos da indústria nessa encantadora Laguna Verde. Baía que visito sempre que me desloco ao Chile e rememoro as nossas vidas especiais… A minha memória está incutida em Laguna Verde, na casa, hoje abandonada, que já não recebe a descendência dos Senhores meus Pais, espalhada pelo mundo, todavia acolhe a minha Chela, através das recordações. A sua passagem para a eternidade marcou o começo de um fim: das visitas dos primos, dos tios, dos amigos, dos artistas amigos dos Senhores pais; a criançada cresceu e o tango de Gardel, Adiós Pampa Mia, começou a ser cantado na materialidade da vida.

 

Chegava ao fim o Paraíso encantado, sem barulho, longe da cidade, com carros para nos deslocar, ou com as nossas bicicletas ou, simplesmente, a pé ou a cavalo.

 

Com a minha amada irmã Blanquita, mal havia temporal, ou os bem conhecidos terramotos, normalmente um por ano, ou tremores de terra, quase diários, lá íamos à procura de asilo para os que sem casa ficavam solicitando aos ricos o empréstimo dos seus armazéns, das suas adegas ou terrenos abandonados para construir casas designadas meias águas, feitas em madeira com um tecto para a água da chuva, sempre muita, escorregar – daí, meias água (porque tinha apenas uma placa de madeira, para resguardo da água). O nosso crescimento fez-nos pessoas implicadas persistentemente na defesa dos direitos humanos. A minha doce irmã, nos Centros de Madres com a nossa Senhora Mãe, de uma simpatia e solidariedade impossível de descrever, doce e muito religiosa, de terço às tardes, de joelhos, a família toda, até que, a pouco e pouco, foi ficando apenas com os empregados de casa. O nosso irmão, a converter operários para o marxismo, eu a fundar sindicatos de pescadores e de operários da fábrica, outra a dançar andaluz o tempo todo enquanto criava uma escola para as raparigas operárias.

 

O primeiro sindicato a reclamar leveza no trabalho, organizei-o com quinze anos de idade e dois anos mais tarde, aos dezassete, criei o teatro; o Centro de Madre, foi fundado pela minha amada irmã apenas com catorze anos; o nosso irmão aos treze anos de idade formou centros marxistas de rebelião ao passo que a mais nova, completava os seus estudos.

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