O “pulmão do planeta” é cada vez mais necessário – por Augusta Clara

 

Floresta amazónica

 

 

 

A Ecologia é uma disciplina integrada no conjunto curricular dos cursos de Biologia. Diz respeito a todos os biótipos (os indivíduos de todas as espécies animais e vegetais), ao equilíbrio natural entre eles e com o meio ambiente que os rodeia.

 

É, pois, uma disciplina científica. Se se vulgarizou e é tratada por muita gente com outros objectivos, transformando-a numa actividade pseudo-científica ou apenas lúdica, esse comportamento não anda muito longe do daqueles que se intitulam especialistas de certas medicinas naturais e métodos terapêuticos variados que por aí pululam.

 

Infelizmente, à Ecologia não lhes deu para chamarem Ecologia Natural, o que seria um pleonasmo engraçado.

 

A Estatística sintetiza a representação quantitativa de fenómenos e acontecimentos sobre os quais, de outra forma, seria impossível  fazer juízos ou extrair conclusões. Contudo, creio não haver na Matemática disciplina que mais se preste a ser manipulável consoante os objectivos a atingir.

 

Longe de mim pôr em causa os especialistas de estatística cujo profissionalismo reputo de tanta competência e honorabilidade como o de qualquer outra área, desde que os seus profissionais o sejam, evidentemente.

 

Passa-se que tratar fenómenos sociais ou naturais só com números – usando, portanto, exclusivamente métodos quantitativos -, não apenas deturpa a realidade dos mesmos fenómenos como se trata de fazer uso da facilidade, comportamento que nunca abonará a favor dum cientista de qualquer área. Todos os investigadores em ciências sociais sabem que assim é, que há que aplicar a análise qualitativa para se chegar a resultados com baixas percentagens de erro.

 

E o que acontece na Natureza muitas vezes não é apenas natural. Parecendo que não – ou que sim -, em certos acontecimentos naturais estão envolvidas  muitas opções mas de natureza política.

 

Porque digo tudo isto que vem atrás? Pois bem, porque me quero pronunciar sobre afirmações feitas no livro citado pelo Octopus no seu artigo de sábado passado, dia 19, intitulado “Os mitos ecológicos” – http://aviagemdosargonautas.blogs.sapo.pt/544024.html – cujo autor (do livro) diz coisas que me deixaram atónita.

 

A primeira dessas afirmações tem a ver com o desagravamento dos efeitos das marés negras provocadas por acidentes com os super-petroleiros que cruzam os mares e os oceanos do planeta, arruinando a fauna e a flora dos locais atingidos pelos milhares de toneladas de combustíveis que transportam.

 

Afirmar que a gravidade dessas catástrofes é reduzida –  por exemplo, quanto ao número de aves marinhas mortas, face ao número de aves que morrem todos os dias por impacto com os arranha céus de todos os Estados norte-americanos -, é não só caricato como nada inocente. Não esquecendo que a morte de aves não é o único efeito das marés negras.

 

Todos sabemos de que países vêm esses monstros, para que países vão, que indústrias vai alimentar o conteúdo dos seus contentores. Temos igualmente conhecimento dos motivos que os levaram a mudar drasticamente de dimensões: algumas rotas do globo tornaram-se-lhes invioláveis por legítima vontade de países a cuja soberania pertencem certas passagens intercontinentais. São, assim, obrigados a dar voltas maiores, daí a opção pelo aumento de tamanho, tanta é a voracidade pelos recursos naturais de outras paragens. Ainda se fosse uma voragem paga com dinheiro limpo e não com sangue…

 

Os barcos tornaram-se descomunalmente grandes e os efeitos dos seus derrames evoluíram na mesma proporção.

 

Custa a crer que o Prof. Bjorn Lomborg, que ensina Estatística na Universidade de Aarthus,  tenha pertencido ao Greenpace que tão bravamente luta contra os atentados ecológicos praticados por todo o lado.

 

Mas passemos, finalmente, à floresta amazónica, a tal a que deram o nome de “pulmão do planeta” e aqui começo por uma formulação que presumo extraída do livro anteriormente referido. Diz ela como segue:

 

“Nomear a Amazónia “pulmão do mundo” não passa de um mito, com efeito, se é verdade que as plantas produzem oxigénio através da fotossíntese, quando morrem e se decompõem consomem a mesma quantidade do oxigénio, assim uma floresta em equilíbrio não produz nem consome oxigénio”.

 

Francamente, por mais que leia, não percebo o que é que o autor quer dizer com este parágrafo. O que será para ele uma floresta em equilíbrio? É uma floresta metade morta metade viva? Morta natural ou artificialmente?

 

Antes de continuar, é preciso ter em conta dois pontos:

 

– As plantas vivas também respiram (pelo texto dá a impressão que só a decomposição dos produtos vegetais consome oxigénio);

 

– Nas plantas mortas, ou nos seus restos, já não se realiza a fotossíntese;

 

Se se está a falar de equilíbrio, terá que, antes de se passar adiante, ter estes dois pontos bem presentes. A menos que o que esteja na mesa seja mais um ludibrio.

 

(o que lhe têm feito)

 

Na verdade é impróprio chamar à floresta amazónica pulmão no sentido anatómico e funcional do órgão dos animais superiores que lhes permite respirar, isto é, inspirar o ar ambiente do qual extraem o oxigénio necessário à vida e ao bem estar orgânico por incorporação em todos os processos fisiológicos em que está comprometido, e libertar dióxido de carbono (CO2) para a atmosfera.

 

Daí o considerar-se o pulmão um órgão benfazejo para os seres de cuja anatomia faz parte.

 

Não é, porém, por este processo – a respiração – que o conjunto de plantas constituindo a floresta amazónica se denominou “pulmão  do planeta”.

 

É precisamente pelo processo inverso – a fotossíntese – através do qual nas folhas das plantas verdes, durante o dia e sob a acção da luz solar, se dá a absorção do CO2 da atmosfera e têm lugar reacções  fotoquímicas complexas, por acção das quais é libertado oxigénio.

 

Não iremos agora falar dos outros compostos a que a fotossíntese dá origem porque não vêm ao caso do que estamos a tratar.

 

Cingindo-nos ao que nos interessa: as plantas verdes duma floresta, não só nos oferecem oxigénio, como libertam a atmosfera duma percentagem do dióxido de carbono (CO2) que nela existe em excesso devido aos processos fabris do tal desenvolvimento sustentável, esse sim levantando agora muitas interrogações quanto à sua infinita sustentabilidade. E devido, também, às queimadas, no caso da Amazónia, provocadas para a desflorestação  a fim de se criarem espaços de pastorícia ao mesmo tempo que se vende a madeira e se abrem caminhos para as obras de construção de barragens cuja energia alimentará as tais indústrias poluentes fornecedoras de mais CO2.

 

Uma boa notícia é que a biomassa da floresta amazónica está a aumentar e, com ela, aumenta a fotossíntese. É uma luta de contra-relógio em que a Natureza, cumprindo a sua função universal, continua no caminho do equilíbrio que os humanos subvertem a toda a hora. Algo no seu cérebro, porventura por excesso de peso, se desequilibrou, isto é, se equilibrou no sentido da ganância.

 

Porque o que está em causa não é nada disto. E o autor do livro sabe-o tão bem como eu.

 

Os projectistas da expansão brasileira “descobriram” que os rios amazónicos estavam mal aproveitados e puseram em marcha a construção de inúmeras barragens hidroeléctricas para alimentarem os seus projectos expansionistas. Poucos lhes importa o efeito benéfico da floresta. E ela que já fora suficientemente devastada pela acção dos madeireiros – recordemos as mortes de quem a defendia – continua a sê-lo sob o pretexto do benefício que estas obras levarão ao povo brasileiro. Lá como cá. Faz lembrar Foz-Coa em que se tentaram afogar as gravuras a pretexto da prioridade para as populações da construção duma barragem.

 

E, por isso, lá como cá, alguém sirva de lacaio e deprecie, se necessário demonize, a acção de quem denuncia esta mentira. Porque as barragens beneficiam maioritariamente os donos dos complexos industriais que delas de servem. As populações, onde está o seu progresso económico? Para que serve a tão desejada barragem do Alqueva? Perguntem aos donos dos campos de golf. Eles talvez saibam responder.

 

O discurso do autor, na minha opinião, é de tal forma capcioso que à primeira vista pode convencer muita gente da indignidade geral dos movimentos ecologistas. Talvez sejam estes os mais fáceis de visar.

 

São variados os “mitos ecológicos” a que se refere este Prof.. Um deles é o da fome. Também há coisas sérias que dão vontade de rir.

 

“As pessoas alimentam-se cada vez melhor mesmo nos países pobres, e cada vez se morre menos de fome no mundo apesar do aumento da população”, afirma o autor que parece ter chegado doutro planeta.

 

Consta que acontece o contrário: nos países ricos, a alimentação à base do fast food tem contribuído para o aumento da obesidade com o consequente desenvolvimento de doenças que ameaçam quer a qualidade quer o aumento da esperança média de vida. Nos países pobres que valor têm estes dados estatísticos sobre a diminuição da fome, se ela continua a existir e, presentemente, ninguém duvida de que vai aumentar? O que significará para ele melhor alimentação? Será que fala, em simultâneo, na quantidade de bens alimentares existentes,  suficientes para nutrir toda a população da terra? Tudo leva a crer que uma profusão de números é, por sua vez, o alimento principal deste macrobiótico livro em termos de ideias que nos convençam. Antes pelo contrário.

 

Não li o livro. Refiro-me somente ao que vem referenciado no artigo do Octopus.

 

Depois de, muito oportunamente, se servir ele das “fraquezas ecológicas”, atira-nos à cara com o subentendido “por muito mal que seja, vejam lá que já foi pior. Assim não estamos mal de todo”.

 

Este é o discurso do cobarde  capitalismo  a soçobrar e a pedir desesperadamente que lhe dêem a mão. Até aos que nada têm tenta convencer a conformarem-se alegando já ter sido muito pior.

 

Repito: não li o livro, não sei o que mais vem lá dentro.

 

Mas, pela amostra, há coisas que, mesmo  não perceptíveis à vista, nos entram pelos olhos dentro.

2 Comments

  1. Muito muito bom Augusta! Bem escrito, bem argumentado, lógico, racional, sincero e sábio. Não só não enfias o barrete como o devolves à cabeça do autor. “Discurso do cobarde capitalismo a soçobrar…” Os meus parabéns

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