
Nesta bela gravura de Rugendas(1802-1858), o pintor alemão que durante três anos viajou pelo Brasil, recolhendo preciosos testemunhos dos costumes populares. Nesta imagem, vemos escravos dançando o lundum.
Que em dois continentes separados por um oceano, tenham nascido duas canções urbanas com sonoridades idênticas, eivadas de nostalgia e fatalismo, não será estranha coincidência. O fado e o tango surgiram em cidades portuárias, onde se chega e parte – “Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!”, afirma-nos Álvaro de Campos. Jorge Luis Borges, num texto publicado há anos atrás no “Diário de Notícias”, estabelecia curiosos paralelismos entre ambos, sugerindo que o fado fazia parte da genealogia do tango. O que é possível, pois seja qual for a tese pela qual se opte, o fado surgiu primeiro. Quando? Aí reside o problema.
Há a tese mais vulgarizada de que, quando a Corte de D.João VI regressou, trouxe consigo uma dança em voga no Rio de Janeiro a que se chamava «Fado», inspirada no lundum, e que podia ser acompanhada por canto. Na realidade, os primeiros registos escritos sobre o tema começaram a surgir no século XIX, mais na segunda metade. Mas foi uma inovação que depressa se converteu em tradição. No «Cancioneiro Alegre de Poetas Portugueses e Brasileiros», organizado por Camilo Castelo Branco, inclui-se um poema de Alexandre da Conceição – sobre um tal Marialva que «dançava o fado à noite em tabernas» – referência que acentua a tese da dança vinda do Brasil. Encontramos referências aos fado e aos fadistas, por exemplo, nos romances de Eça de Queirós.
Outra referência cultural, o famoso quadro de José Malhoa, data de 1910.
Nestes primeiros tempos, o fado surgia como fenómeno tipicamente lisboeta. As grandes fadistas do século XIX, a lendária Maria Severa (1820-1846), nasceu e morreu em Lisboa, e Maria Vitória (1891-1915), creio que também. Esta última cantava nas revistas e celebrizou o «Fado do 31», mais tarde interpretado por Estevão Amarante.
Todos estes dados apontam para uma tradição, se assim se pode chamar, que se instalou rapidamente e que, como planta trepadeira, se enroscou no fatalismo da alma portuguesa e no miserabilismo inerente à pobreza citadina, com ele se confundiu, e às vezes pareceu mesmo estar na sua origem, ser causa e não efeito. Não esqueçamos que «fado» vem do latim «fatum», ou seja, «destino». A palavra é antiga, Camões usa-a. O género musical adoptou-a. O destino e a sua incerteza, é tema recorrente nas letras dos fados.
Não sendo especialista na matéria, apenas a tendo investigado superficialmente, sem preconceitos nem preferências por qualquer das teses em presença, limito-me a registar o óbvio. Se o fado vem mais de trás, por que razão não há registos da sua existência? Por que motivo só no século XIX a literatura e a pintura se lhe referem? Se o fado provém das melopeias árabes ou, como também há quem defenda, seria uma herança dos celtas, se vem de tempos tão remotos por que não existem nas baixas e tordiões, por exemplo, ou noutro tipo de canção popular dos séculos que mediaram entre a herança céltica ou árabe e o século XIX, um fio condutor, um elo, que ligue esses vestígios?
Já o fado de Coimbra, com uma genealogia diferente, parece estar mais ligado às baladas tradicionais e, mais especificamente, à música beirã. Embora também seja um fenómeno relativamente recente. Os cantores Augusto Hilário, António Menano e Edmundo Bettencourt, bem como o grande guitarrista Artur Paredes, pai de Carlos Paredes, nomes maiores da canção coimbrã, são tudo gente do século XX.
Não tenciono sequer tentar provar que fado e tango têm origens comuns. Apenas chamar a atenção para algumas similitudes. O tango é ainda mais recente do que o fado. Foi buscar as suas origens à «habanera» (de La Habana). Desta dança terão surgido o maxixe brasileiro e o tango argentino e uruguaio. A dança começou por se chamar «tango criollo» simplificando-se depois para tango. É já no século XX que se instala nos dois lados do rio La Plata, em Buenos Aires e em Montevideu. Como canção encontra em Carlos Gardel o seu mais emblemático intérprete.
A relação fado/tango era evidente – canções nostálgicas, fatalistas. Amália disse ter encontrado a sua voz, cantando os tangos de Gardel. Agora é uma argentina, María Lavalle, que, inspirando-se em Amália, volta a acentuar a relação entre as duas formas musicais. Há meses, apresentou no Teatro Calderón de Madrid o seu espectáculo «Tú que puedes, vuélvete», fundindo o tango puro com o fado puro, misturando músicos argentinos e portugueses. Coisa que a nossa Mísia já tinha feito, para não falar no fado tango de Amália, «Cansaço», agora interpretado por Camané. Basta de divagações – vamos lá escutar María Lavalle.
Silêncio, que se vai cantar o tango.

