RECEITA PARA UM GOVERNO DE SUCESSO – por José Goulão

 

Um consultor da Goldman Sachs e da Coca Cola com lugar de grande relevo no Grupo de Bilderberg, um almirante da NATO que seja também comandante do Comité Militar da aliança, o presidente do segundo maior banco do país, o presidente da primeira empresa de electricidade do país, um íntimo do Vaticano, vários professores de universidades privadas escolhidos a dedo, eis a receita do governo tecnocrático de Itália para suceder ao do megaempresário da comunicação social e do futebol, Silvio Berlusconi, conhecido por Sua Emittenza por ser igualmente figura grata do Estado papal.

 

Podia escrever-se: eis a Itália de hoje. Mas seria insuficiente, porque há mais informações que não são de pormenor. Depois de o consultor da Goldman Sachs e agora primeiro ministro, Mario Monti, ter declarado que esta solução é melhor porque assim “os políticos não atrapalham a governação”, eis que mais de 500 políticos se uniram em maioria esmagadora no Parlamento para aprovar e aplaudir um tal governo.

 

E fizeram-no com espírito de crentes, movidos por mística fé salvadora porque este concílio de banqueiros, cavalheiros da indústria, homens de negócios, senhores da guerra e cardeais sem paramentos não precisou de apresentar programa para se instituir como governo. Bastaram o ámen de um outro político, o chefe de Estado, e um plano de referência do ex-governo de Silvio Berlusconi, aprovado pouco antes no Parlamento.

 

Por favor reconheçam que esta espécie de democracia emergente do poço sem fundo a que chegou a economia neoliberal é um prodígio de imaginação. É verdade que a Itália sempre foi um laboratório para invenções políticas e inovações económicas – a eterna, fogosa e aggiornata Mafia serve para o comprovar. A Itália, porém, consegue ainda e sempre superar-se. Registem esta maravilha: os dois maiores partidos italianos, o Democrático e o Rep…, perdão, o Pólo da Liberdade, que se esgatanharam anos a fio como oposição a Berlusconi e governo de Berlusconi, caíram nos braços um do outro para salvar a pátria em torno de uma equipa messiânica equipada com um plano de Berlusconi.

Melhor é impossível?

 

Falso. Melhor é possível.

 

Ora vejam. O senhor Mário Monti não desceu anonimamente dos céus do mercado com as vestes alvas da Goldman Sachs e da Coca Cola e o bastão do Grupo de Bilderberg, cenáculo da conspiração global. Ele traz dez anos de experiência como comissário europeu das Finanças, precisamente o período em que foi inoculada na União Europeia, principalmente na Zona Euro, em nome do mercado e da ordem neoliberal, a crise multifacetada que ameaça a moeda única e a economia mundial. Acresce que o senhor Monti vai agora governar a Itália sob ordens da troika formada pela própria Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo FMI, que há pouco mais de dois anos foi envergonhado com orelhas de burro por não ter previsto a crise de 2008/2009.

 

Aqui chegados, só nos resta aceitar, com fé de crentes, que esta originalidade italiana tem todos os condimentos para ser uma receita global de sucesso.

 

 

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