PATRIMÓNIO IMATERIAL DA HUMANIDADE – A mitologia fadista – por Manuel Simões

 

 

 

Com este título publicou o poeta António Osório (Lisboa, Livros Horizonte, 1974) um importante ensaio, produto de uma investigação inteligente e que, pela primeira vez, punha em causa as teses mais ou menos fantasiosas de Mascarenhas Barreto e outros, os  quais faziam derivar o fado, sem qualquer tipo de prova, da lírica galego-portuguesa (cantigas d’amigo, cantigas d’amor, cantigas de escárnio e maldizer) ou de uma eventual influência árabe. Na esteira deste trabalho, creio que pioneiro, surgiram algumas obras de José Ramos Tinhorão, em especial “Fado, Dança do Brasil, Cantar de Lisboa” (Lisboa, Caminho, 1994) ou “As Origens da Canção Urbana” (idem, 1997), que desenvolveram as teses de A. Osório.

 

Acolhendo as propostas formuladas por estes autores, elaborou Rui Vieira Nery uma série de textos que “O Público” publicou em 20 vols. (2004), cada um deles acompanhado de um CD exemplificativo, textos que receberam o título “Para uma História do Fado” e que, para além das origens e das suas transformações, o fado é estudado como fenómeno da história da cultura portuguesa e da sua imagem no mundo. A posição de Rui Vieira Nery, que condivido plenamente, é por demais conhecida e não vou aqui resumi-la. Importa talvez sublinhar o bem estruturado percurso narrativo da obra e uma actualização que nos acompanha até às mais recentes expressões de uma tradição musical que, a pouco e pouco, e graças a algumas circunstâncias, se foi introduzindo no imaginário colectivo.

 

É preciso dizer, porém, que este imaginário se concentra sobretudo num espaço balizado pelas fronteiras urbanas de Lisboa, tendo-se alargado a outras áreas do país por força da rádio e da televisão. Por exemplo, há casas de fado no Porto, em Coimbra (difundindo aqui o que hoje se designa não por fado mas por canção) ou noutras zonas, geralmente de afluência turística, mas são fenómenos isolados, sem implantação profunda no tecido social. Nas próprias letras do fado ocorrem privilegiadamente referências a Lisboa (entrevista e glosada até à exaustão) e, mesmo assim, são evocados somente os bairros da Mouraria, de Alfama ou Bairro Alto, com algumas incursões ao bairro da Madragoa, isto é, o núcleo histórico donde irradiaram os outros centros urbanos da capital.

 

No princípio dos anos sessenta operou-se uma renovação da lírica fadista e da própria música do fado, produto da tendência renovadora da grande intérprete que foi Amália. Por sua iniciativa, ou por influência de algumas personagens de que soube rodear-se, o fado passou por uma evolução estilística que também se ficou a dever à revolução que José Afonso ia produzindo, subvertendo a lírica tradicional coimbrã. Amália e seus colaboradores sentiram a necessidade de actualizar o fado aos novos ventos que começavam a soprar e daí a sua colaboração com David Mourão-Ferreira e Pedro Homem de Melo no seu álbum de 1962. E o recurso à poesia erudita continuou com as cantigas d’amigo do jogral galego Martin Codax, com temas do “Cancioneiro Geral de Garcia de Resende” ou de Camões, aproximando-se também da poesia de Manuel Alegre, de Alexandre O’Neil, de José Régio, de José Carlos Ary dos Santos, por exemplo.

 

Curiosamente, porém, esta renovação deve muito ao compositor francês, embora nascido em Portugal, de seu nome Alain Oulman, sem o qual o fado não teria atingido a alta qualidade musical do que viria a chamar-se fado-canção, reunindo três factores determinantes: o compositor, a intérprete de excepção e o recurso à grande poesia. Creio que esta foi a “época de ouro” do fado contemporâneo e não tenho notícia de que alguma vez se tenha prestado a Oulman a homenagem que a sua importância musical naturalmente merecia.

 

É muito provável que a UNESCO venha a inserir o fado no Património Imaterial da Humanidade, o que não mudará substancialmente as formas do imaginário a que atrás me referi, a não ser no que se refere à “imposição” progressiva do fado como “canção nacional”, sem que ninguém se ocupe do estudo e da divulgação da nossa música tradicional, de extraordinária riqueza e enraizada espontaneamente no coração popular, com as variedades que lhe conhecemos, do Norte ao Sul do país.

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