Alexandre Herculano (1810-1877)
Alexandre Herculano de Carvalho Araújo nasceu em Lisboa, a 28 de Março de 1810, no seio de uma família da classe média. Era filho de Teodoro Cândido da Araújo, um modesto funcionário administrativo e de D. Maria do Carmo de S. Boaventura, filha de José Rodrigues de Carvalho, pedreiro empregado nas obras da Casa Real.
Preparou-se para a matrícula na Universidade de Coimbra, mas em 1827, seu pai ficou cego, e seu avô materno sofreu um grande revés da fortuna, pela falta de pagamento de somas importantes de que era credor como mestre nas obras da Ajuda, faltaram-lhe os recursos; contudo, Alexandre Herculano não desanimou do propósito de se educar, e conseguiu aprender particularmente os idiomas francês, inglês e alemão, matriculando-se no primeiro ano da Aula do Comércio em 1830, seguindo o curso de Paleografia, a que então se chamava Diplomática, na Torre do Tombo.
Os ânimos políticos eram acirrados naquela época; a guerra civil com todos os seus horrores absolutistas, enchia as cadeias de presos do reino só pelo crime de serem liberais, e nas praças públicas eram os levantados patíbulos frequentemente. Alexandre Herculano viu-se obrigado a interromper os estudos para seguir a revolução.
Em 1831 compromete-se na revolta do 4 de Infantaria, escapando à matança dos insurrectos que a liquidou, e vê-se obrigado a fugir para Inglaterra.
Regressou a Portugal como soldado da expedição de D. Pedro, e tomou parte em combates e acções militares. Mas já então colabora em trabalhos de reforma cultural relacionados com a revolução.
A Revolução de Setembro de 1836 trouxe o moço escritor para a notoriedade: demitiu-se, como protesto, do seu lugar de bibliotecário, e em Lisboa, para onde veio, publicou contra os novos governantes um folheto a Voz do Profeta.
No ano de 1858 o círculo de Sintra quis elegê-lo seu representante em Cortes, porém ele não aceitou. Era cavaleiro da ordem da Torre e Espada, agraciado por decreto do 1º de Março de 1839.
Aceitou esta mercê porque entendia que a merecera como soldado, mas depois dessa data rejeitou sempre todas as honras, recusando a comenda da mesma ordem do próprio soberano, el-rei D. Pedro V, que o procurou um dia para lhe oferecer os arminhos de par em 1861, e a grã-cruz da ordem reformada de S. Tiago em 1862.
D. Pedro V respeitava os homens políticos importantes do seu tempo, e era grande respeitador de Alexandre Herculano, a quem visitava frequentes vezes, entretendo com o notável historiador discussões científicas; passava largas horas, quando estava em Mafra, a consultar crónicas e outros livros antigos daquela valiosa biblioteca.
Privava o autor da amizade de D. Pedro V, mas não quis aceitar as benesses e distinções que lhe foram oferecidas.
Em 1867, desgostos
o com a morte precoce de D. Pedro V, rei em quem depositava muitas esperanças, e desiludido com a vida pública, retirou-se para a sua quinta em Vale de Lobos, onde se dedicaria quase exclusivamente à vida rural, casando com D. Maria Hermínia Meira, sua namorada da juventude.
Com a morte prematura do monarca as suas reacções são sentidas:
«Se eu tivesse um filho e me morresse, não me custava mais a morte dele do que me custou a daquele pobre rapaz…» – dirá Alexandre Herculano.
Afirmando que dava por terminada a sua carreira literária dedicou-se, nos anos seguintes, à vida agrária.
Defensor intransigente da propriedade rural, o nosso pensador no entanto mostrou-se sensível à sorte dos camponeses da sua região, que lhe renderam sentida homenagem quando da sua morte, ocorrida em 13 de Setembro de 1877.
A seguir – Camilo Castelo Branco

