(Continuação)
Porém, o esforço por uma empresa de tais imensas dimensões enfraqueceu fortemente o país, limitado no seu potencial humano e material; condições das quais a Espanha tirou grandes vantagens. A passagem de Colombo ao serviço dos Reis de Castela deve ser vista a partir desta perspectiva.
Em um quadro que vê os países ibéricos quais as maiores potências marítimas européias, as suas ações de Conquista na América não podem ser consideradas como um processo unitário. O Brasil conquistado pelos portugueses se fará uma distinta América, seja em confronto com aquela de origem espanhola, seja igualmente com aquel’outra de predominante derivação inglesa. A Europa representada por tão diferentes realidades políticas, unidas porém pelo comum sentido do eurocentrismo, deverá confrontar-se com a Alteridade americana uniforme só em aparência.
A Conquista espanhola da América apresenta tonalidades específicas, muito contrárias daquelas do Brasi de origem portuguesa. Octavio Paz, falando do México no seu brilhante trabalho sobre Juana della Cruz, tem ocasião de afirmar: «Nós mexicanos do séc. XX, inclusive os Índios puros, vemos o mundo pré-colombiano como um mundo que se encontra numa outra parte. Não tão somente o vemos longe no tempo, mas colocado num outro versante. É claro – ainda que oficialmente, por uma aberração intelectual e moral, nos negamos de aceitar tal coisa – que existem maiores afinidades entre o México independente e a Nova Espanha do que entre estes e as sociedades pré-hispânicas. Isso é demonstrado pelo fato que o nosso comportamente no confronto do mundo índio não é muito distinto daquele dos novispânicos».
Castela realiza a sua Conquista naquelas partes do novo continente habitadas por povos que tinham atingido alto grau de desenvolvimento técnico e de civilização. Tratava-se de populações organizadas em complexas estruturas políticas e sociais, baseadas numa sólida cultura. Em verdade, no quadro da Conquista castelhana, é difícil definir, entre a cultura dos conquistadores e aquela dos conquistados, qual apresentasse maior grau de desenvolvimento cultural e material.
A ação castelhana se afirma a partir de difíceis pressupostos – pressupostos de inferioridade numérica no confronto com as populações americanas; de consciência da existência de uma estrutura cultural «alta», com a qual deveria confrontar-se; de uma inicial incerteza em relação à própria superioridade de meios e técnica militares, etc. – mas era igualmente sustentada pela certeza indiscutível dos valores do eurocentrismo cristão que empurrava o Conquistador ao ponto de fazê-lo perder de vista ou subvalorizar a realidade dos valores com os quais se confrontava. Inicialmente os soldados dos Reis Católicos e depois os seus colonos enfrentaram a própria empresa atentos somente aos valores que os tinham conduzido em tão longínquos espaços: a ambição da riqueza fácil e imediata, aliada a um generalizado sentido religioso de evangelização, sempre subordinado à realização mais ou menos satisfatória do sonho de riqueza. Não se trata mais, neste vago sentido evangélico e de difusão da fé cristã, do antigo espírito de cruzada – já então a reconquista não é referida a lugares, mas a bens materiais – e todavia aquele espírito se encontra, de uma ou de outra forma, sempre presente no Eu conquistador.
Os povos americanos sucumbem aos castelhanos por um incompreensível complexo de inferioridade nas batalhas e, talvez ainda mais, pela maciça destruição causada pelas doenças e epidemias seguidas aos contactos com o européu. [Relata F. Jennings no seu estudo A Invasão da América – Indianos, colonos e mitos da conquista: «No outono de 1630 Oldhan (o capitão John Oldhan, conquistador morto pelos índios em 1636) entrara por via terrestre até a alta vale do Connecticut, alojando-se durante a viagem nas aldeias indígenas; era a primeira viagem deste tipo jamais realizada por um inglês. Logo depois, desecadeou-se uma epidemia de varíola que se dilatou por todas as tribos». No Brasil, em 1666, uma epidemia de varíola expandiu-se por toda a costa. Em 1668 Recife viu a sua população reduzida à metade pela febre amarela. Em 1694, o médico brasileiro de Recife, João Ferreira da Rosa, publicou em Lisboa a primeira obra da literatura médica mundial sobre a febre amarela: Tratado Único da Constituição Pestilencial de Pernambuco.]
As populações sucumbidas a tais epidemias e doenças se transformam em fáceis presas das constrições físicas do Conquistador e sujeitos passivos ao processo de evangelização.
No vasto território da Conquista espanhola, depois da inicial ação de força militar que sufoca Impérios de antigas tradições, o sistema de conquista espiritual completa lentamente a sobreposição da cultura do Conquistador àquela dos povos conquistados. E a cultura que, nos séculos, resulta de um tal fenômeno não é mais nem a primeira forma dominante eurocentrista, nem a segunda, mais fraca, dominada, mas uma terceira, ao mesmo tempo participante e distinta de ambas.
Mais que um processo de aculturação da parte mais fraca em favor do sistema mais forte, verificou-se então uma síntese derivada de lenta mas clara ação de sincretismo cultural e religioso. Sincretismo que toma as ~estruturas européias e as adapta às mais profundas expressões da cultura indígena, com resultados que são verdadeiras conquistas de modernidade. O homem hispano-americano resultado de uma tal operação pode ser ou um sujeito ativo de uma nova identidade cultural, ou a expressão da permanência dos valores da civilização conquistadora, ou senão o resultado não ainda diferenciado em relação àquele primeiro momento de interrelação entre conquistador e conquistado da fase colonial. Os índios puros, estes não podem ver e confrontar-se com um tal quadro político-cultural senão a partir de fora.

Quanto ao espaço da Conquista portuguesa, o Brasil apresenta, em linhas predominantes, as mesmas características sócio-culturais da formação dos países hispano-americanos, porém em formas talmente diversas que o fazem uma realidade americana isolada. (Diz G. Friederic no seu iluminante estudo Caráter das descoberta e conquista da América pelos europeus: «Muitos fenômenos do Brasil colonial dificilmente se compreenderiam sem o conhecimento das ocorrências e das condições da África e da Ásia portuguesas.»]
(Continua)
