A primeira questão que o presente tipo de trabalho apresenta liga-se ao título: “Biblioteca minima”, não “Biblioteca básica“. Naturalmente as razões que distinguem os dois conceitos são muitas. Mas as principais podem ser especificadas de imediato. O conceito de “Biblioteca básica“ traduz desde logo a tomada de posição crítica do organizador da proposta que praticamente declara uma escolha indiscutível, praticamente fechada e não passível de grandes modificações. Naturalmente tudo isso diante da destinação à qual a escolha se dirige. Esta escolha é em geral uma proposta resultada de leitura metódica de determinada literatura nacional a partir de seus produtos mais salientes, escolha por isso mesmo feita para um público que deseja um modelo de leitura.
O conceito quase sinonímico ao de “Biblioteca básica” vem a ser aquele de “Biblioteca mínima”. Porém, sendo quase um sinônimo age igualmente com a força do antônimo. Com ele, o organizador praticamente renuncia a qualquer pretensão de guia fechada. Prefere expor uma proposta apenas orientadora para a leitura de uma literatura nacional e isto nos momentos privilegiados de uma não-iniciação propriamente dita, mas enquanto proposta que pode ser validadamente ser substituída por muitas outras. E isso é quanto acontece nesta minha presença escolha. Os seus elementos são muitos, mas sintetisáveis em alguns poucos: 1) O número das obras escolhidas. 50 obras, é um número, pode-se quase dizer, minimamente razoável para as literaturas de ampla dimensão como é aquela brasileira. Por isso mesmo, esta referência estatística poderá tomada para casos correspondentes ligados a escolha de textos-guias de outras literaturas de ampla dimensão. As literaturas nacionais mais jovens, e por isso mesmo de dimensões histórico-editoriais menores podem, e devem, receber uma referência quantitativamente menor. 2) Os critérios de apresentação das obras podem ser os mais diversos. No caso presente escolhemos o critério cronológico da realização, não necessariamente da edição, das obras escolhidas. 3) A escolha se apóia essencialmente sobre a obra, não sobre o seu autor. Isto porque, como no nosso caso, muitas vezes o autor da obra escolhida tem uma produção copiosa. São razões que devem ser orientadora para operações semelhantes à presente Assim muitas vezes escolhemos um determinado texto porque aquele mais universal, ao contrário dos demais do mesmo autor, mais especialísticos. Como é o caso de Tobias Barreto. 4) Mesmo sendo um elemento não primário da escolha, o autor pode aparecer na mesma com forte realce, porque invés de da regra geral de uma obra, como exige o número relativamente exíguo de 50 títulos, merecem um realce simbólico pelo muito que representam na história da literatura tratada. Por isso mesmo, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa estão presentes com 2 obras cada um deles na presente “Biblioteca mínima”. Então propomos 50 obras, mas somente 47 autores…
Trabalhos desse tipo estão fatalmente , e positivamente, ligados aos critérios que caracterizam a atividade do respectivo organizador. No caso presente isso se verifica imediatamente com a escolha do primeiro título, cronologicamente considerado, da Carta de Pero Vaz de Caminha que em forma imortal relata ao rei de Portugal, D. Manuel I, as peripécias da navegação de Pedro Álvares Cabral culminadas com a descoberta do Brasil. Assim como estabeleci no texto de Caminha a razão central da metodologia por mim criada para a realização da minha História da Literatura Brasileira, em 3 vv. (Lisboa, 1999-2000), assim considerei fazer para a presente proposta de uma “Biblioteca mínima da literatura brasileira”. A partir das mesmas razões devem ser consideradas as claras presenças de autores como o Pe. Antônio Vieira e Tomás Antônio Gonzaga, reinvindicados igualmente pela literatura portuguesa. Isto naturalmente consequência de demonstradas razões e não somente por amor pátrio…
Toda forma de operação antológica está fadada às maiores críticas como consequências de ausências, quando não pelo método estabelecido pelo autor da mesma… A atual “Biblioteca mínima da literatura brasileira” poderia ser completamente diversa em face da existência das centenas e centenas de outras obras que enobrecem a literatura do Brasil. Mas, confiamos que a nossa presente escolha traduza muito bem a excelência da criatividade literária brasileira. Esta criatividade, nós aqui a consideramos segundo as nossas convicções de teoria e história literária. Por isso, apresentando exemplos de criatividade em poesia, romance, conto, ensaio, excluimos outras, como a de teatro. Por essa razão aqui não figuram obras de teatrólogos contemporâneos como Ariano Suassuna, Nelson Rodrigues etc., etc., bem como o importante oitocentista, de Machado de Assis, José de Alencar, Martins Pena etc., etc., e nem aquele do período colonial, de Anchieta ao notável teatro setecentista.
Esta “Biblioteca mínima“ è dirigida a todo o público internacional de língua e em particular se endereça à CPLP, Comunidade Internacional dos Países de Língua Portuguesa. Por isso, seria boa coisa que à mesma seguissem correspondentes elaborações referentes às demais literaturas dos países que compõem a CPLP.
Biblioteca mínima da literatura brasilera:
- Vaz de Caminha, Carta sobre a descoberta do Brasil.
- Gregório de Matos, Poemas escolhidos (por José Miguel Wisnik).
- Pe. Antônio Vieira, História do Futuro.
- Cláudio Manuel da Costa, Labirinto de Amor.
- Tomás Antônio Gonzaga, Marília de Dirceu.
- José Bonifácio, Representação à Assembéia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil sobre escravatura.
- Gonçalves de Magalhães, Suspiros poéticos e saudades.
- Gonçalves Dias, Primeiros Cantos.
- Fagundes Varela, Cantos do Êrmo e da Cidade.
10 José de Alencar, Iracema.
11. José de Alencar, O Guarani.
12. Castro Alves, Espumas Flutuantes.
13. Tobias Barreto, Dias e Noites.
14. Machado de Assis, Contos escolhidos.
15. Machado de Assis, D. Casmurro.
16. Capistrano de Abreu, Capítulos de História colonial: 1500-1800.
17. Joaquim Nabuco, Minha Formação.
18. Oliveira Lima, Formação histórica da nacionalidade brasileira.
19. Raul Poméia, O Ateneu.
20. Cruz e Sousa, Broquéis.
21. Cruz e Sousa, Faróis.
22. Euclides da Cunha, Os Sertões.
23. Manoel Bonfim, O Brasil Nação – Realidade da Soberaria brasileira.
24. Alberto Torres, O problema nacional brasileiro.
25. Rui Barbosa, Cartas políticas e literárias.
26. Paulo Prado, Retrato do Brasil.
27 Augusto dos Anjos, Eu e Outras Poesias.
28. Adelino de Magalhães, A Hora Veloz.
29. Manuel Bandeira, Carnaval.
30. Cecília Meireles, Mar absoluto.
31. Mário de Andrade, Macunaíma.
32. Oswald de Andrade, Memórias sentimentais de João Miramar.
33. Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do Mundo.
34. Carlos Drummond de Andrade, Fazendeiro do Ar.
35. Jorge Amado, Mar Morto.
36. Jorge Amado, Velhos marinheiros.
37. Graciliano Ramos, Vidas Secas.
38. Raquel de Queirós, O Quinze.
39. Cassiano Ricardo, Jeremias sem chorar.
40. Cassiano Ricardo, Reflexões sobre a poesia de vanguarda.
41. Gilberto Freire, Casa Grande & Senzala.
42. Afonso Arinos de Melo Franco, O Índio brasileiro e a revolução francesa.
43. Sérgio Buarque de Holanda, Visão do Paraíso (Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil).
44. Antônio Cândido, Formação da literatura brasileira: momentos decisivos.
45. Celso Furtado, Análise do ‘Modelo’ brasileiro.
46. João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina e Outros Poemas em voz alta.
47. Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas.
48. Guimarães Rosa, Tutaméia.
49. Clarice Lispector, A Maçã no Escuro.
50. Ferreira Gullar, Poema sujo.

