DIÁRIO DE BORDO, 27 de Novembro de 2011

 

Portugal hoje em dia vê o seu futuro fortemente condicionado pelo futuro do projecto europeu. O nosso país ligou-se à então CEE há 25 anos, em condições que não lhe foram benéficas, nomeadamente no aspecto do desenvolvimento das suas estruturas produtivas. A indústria, a agricultura, as pescas pouco ou nada beneficiaram com a adesão. As significativas verbas atribuídas para formação e para o fomento foram mal aproveitadas. E hoje em dia o que nos vem da agora chamada União Europeia são constantes exigências de austeridade, de equilíbrio orçamental, de medidas que sabemos que Portugal não conseguirá suportar.

 

A Europa está profundamente desequilibrada. Tem um país enorme, muito rico, que não quer suportar as dívidas e prejuízos de outros estados, e pouco ou nada faz para os ajudar a sair os que estão em crise dos impasses em que se encontram. Pode-se não concordar, mas percebe-se: na prática, o sentimento nacional prevalece sobre o sentimento de pertença à Europa. As rivalidades inter-europeias desembocaram no século XX em duas guerras mundiais. Os sentimentos nacionalistas, no século XXI, ajudam a manter a crise.

 

É verdade que a chamada crise não se resume aos problemas inter-europeus. Mas a grande ofensiva dos chamados mercados financeiros (o grande capital especulativo) tira partido da fraqueza dos países europeus, quando não as encoraja. Veja-se as agências de rating. Como já alguém disse, elas agora elogiam as políticas portuguesas, mas baixam as taxas de risco de investimento por causa da recessão que essas mesmas políticas causam. E dizem que não devemos entrar em teorias da conspiração. E que temos de trabalhar, mesmo não havendo empregos.

 

Obviamente que é preciso procurar saídas. Duas questões são muito importantes. Uma é da compreensão de como chegámos a esta situação. Um aspecto fundamental será o de se perceber como contraída a dívida ao exterior, e em que percentagem será legítimo que os seus encargos recaiam sobre todos nós. Neste aspecto recorda-se que no passado dia 15 de Novembro foi constituída a IAC – Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Divida Pública, para exigir às entidades oficiais a informação a que todos temos direito, e simultaneamente preparar e desenvolver acções de pesquisa neste campo.

 

Outra questão é a de procurar pressionar os poderes políticos, tanto ao nível nacional como europeu, ou mesmo internacional, para uma alteração das suas políticas. Aqui é sabido que o chamado arco dos partidos do poder é contrário a qualquer alteração aos acordos e compromissos tomados no campo financeiro (mesmo sabendo que são impossíveis de cumprir), económico e político. Terá de ser fora deles. Mas tentar internacionalizar este movimento, e dar-lhe uma expressão política. 

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