VIAGEM COM PASQUALINI- 14– por Sílvio Castro

(Continuação)

 

 

Pasqualini me disse

 

quero conversar com você, meu caro Sílvio, sobre os Estados Unidos. Você é jovem, está apenas começando uma carreira política que irá alargar-se nos anos de um novo século; eu sou velho, venho de tempos burrascosos, de guerras e ditaduras, de violências constantes aos ideais da democracia e dos direitos humanos. Eu sou o tempo das esperanças, das muitas perdidas esperanças; você representa um tempo novo que poderá realizar-se também com possíveis certezas. Venho das utopias e, muitas delas, já as vi desmorar não sempre pela justiça das novas direções tomadas pelo homem. Você vive diretamente o tempo das certezas globalizantes, ainda que sinto que elas não tiveram ainda a força de dar aos seus pensamentos uma paz segura. Eu vivo de encontro à memória, partindo de longes passados e tradições antigas; você convive com um futuro que se obstina em invadir o seu presente. Os meus sentimentos são impregnados do odor da terra e das coisas vividas em contato com ela; você é forte da movimentação vital da cidade que cresce sempre, se projeta sempre para diante.

 

quero conversar com você soube os Estados Unidos, porque sei que, nas suas ânsias de justiça social para um Brasil que se deve fazer, ele está presente como sempre esteve nas minhas lutas por um outro Brasil que se fez quase só memória. Mas eu acredito que podemos falar uma mesma linguagem, porque os Estados Unidos não mudaram ou ainda não querem mudar.

 

falemos: antes de tudo temos uma obrigação, a de ser anti-americanistas. Por nós e pelos americanos.

 

quero partir de um dado de crônica para chegar a deduções mais amplas: não podemos aceitar uma maneira de compreender a vida de uma sociedade que assiste indiferente a um intenso movimento de solidariedade internacional pela vida de um condenado a morte, como aconteceu com a execução de Karla Tucker. Não podemos conviver com a idéia de que um governador de um estado, seja ele o Texas, ou outro qualquer, possa representar a voz de um país que se coloca ao lado de um espetáculo de negação dos direitos humanos reconhecidos por uma comunhão de sentimentos de gentes as mais diversas e nos mais diversos pontos do mundo. Não ao lado dessa América oficial devemos nos colocar, mas daquela do homem comum que passa a noite de falsas esperanças na justiça exibindo cartazes que proclamam «a execução não é a solução».

 

mas, além dos episódios de grandes comoções diretas, outros nos levam a proclamar a necessidade de um anti-americanismo: não podemos suportar que um país, o mais brilhante que seja por cultura, ciência, arte ou poder de criação, se isole num processo de narcisismo coletivo ao acreditar que a sua realidade corresponda á perfeição da convivência humana. E que a partir de tal convicção se veja no direito de impor diretamente o próprio modelo a territórios diversos que não observem as regras americanas em relação à existência. Por isso, inadimissível é a doutrina – demasiadamente usada – que alarga as fronteiras físicas dos Estados Unidos às terras mais distantes, criticáveis pela prática de modelos diversos daqueles americanos. A teoria do perigo para a paz interna americana não pode ser aceita como norma para intervenções no exterior. Da mesma maneira, não é defendível a doutrina da hegemonia e do direito de emprego de força quando a realidade política americana se confronta com realidades opostas aos seus pontos de vista. Somente os organismos internacionais oficiais, como a ONU, podem receber e aplicar propostas de intervenções contra possíveis perigos para a paz internacional. Os americanos democráticos certamente defendem essa posição.

 

o americano, enquanto considera o seu viver nacional como modelo absoluto, deve ser criticado. A sua segurança interna não deve ser medida pelo comportamento cultural de outros povos. Revelar-lhe um tal conceito é lutar diretamente pela sua integração na comunidade internacional mais claramente democrática.

 

mais além dos fatos objetivos facilmente reconhecíveis de um modelo americano não desejável, pode-se chegar a denúncias mais profundas do sistema: tal denúncia se realiza principalmente contra a tendência da cultura oficial americana de usar seus potentes meios de comunicação no plano universal, mas incapaz de um controle dos mesmos. Correspondendo à certeza de uma economia predominante, a cultura americana tende a esquecer a sua natureza específica e a identificar-se com a própria hegemonia economica, teccnológica e militar no plano internacional. Desta maneira, os verdadeiros produtos culturais estadunidenses – e eles são muitos e valiosos – se confundem com uma produção maciça de subprodutos. A opinião cultural interna absorve predominantemente a mensagem dessa produção de massa, enquanto o mercado antisocial interno assim gerado impõe ao mercado mundial o falso produto cultural. Devemos lutar para que uma tal cultura não se propague no Brasil, numa contaminação fácil dada a frequente instabilidade da economia e do mercado brasileiros. Os nossos meios de comunicação devem ser criticados de quanto propagam sem qualquer processo de auto-crítica. Defendendo o patrimônio e a liberdade cultural do brasileiro, defendemos igualmente o americano que não compactua com tal operação.

 

porém, o nosso obrigatório anti-americanismo se realiza principalmente no momento em que conseguimos individuar a violência do modelo cultural americano empenhado, no presente, em vender o futuro. E mais que isso: em impedir aos outros sistemas nacionais de conviverem com o próprio presente.

 

A tal cultura corresponde uma política que não interessa aos ideiais da justiça e e livre democracia da comunidade internacional. A política americana, muitas vezes cega aos direitos internacionais legítimos, não pode senão gerar reações anômalas, entre as quais as muitas formas de terrorismo. Se pensarmos, como todos os verdadeiros democratas devem realmente pensar, a uma resposta ao terrorismo, antes de tudo é indispensável considerar que o terrorismo é muitas vezes a resposta patológica a problemas reais.

 

tudo isso devemos sempre afirmar. Porém, no momento em que por ventura os Estados Unidos, em consequência de uma inovadora política interna ou simplesmente de mudanças provocadas por uma crise econômico-financeira, comecem a querer demonstrar ao mundo o desejo de uma nova linha não só de política internacional, mas igualmente do modo de ser da política interna, aí então deveremos estar pronto para solidarizar com uma tal revolução.

 


(Continua) 

Leave a Reply