As discussões abordam a actuação de um leigo, nosso colega não médico, o Dr. Reik, na análise de pessoas, acusado pelas autoridades de Viena de ser um charlatão.[2] Pode-se dizer que ele é conhecido por todos e que, após indagações sobre o seu saber e actuação, foi absolvido. O sucesso, parece-me, não é devido ao meu livro. As circunstâncias advêm do pouco suporte da acusação ao considerar o acusado pessoa de pouca confiança. O caso do Dr. Reik foi travado, quando se indagavam dados para o processo. Não me parece ser um princípio justo de um tribunal de Viena. Impedir o desenvolvimento do processo não me parece ser correcto por não ter o significado de um julgamento de princípios de um tribunal de Viena, que inquire sobre um julgamento de análises feitas por um denominado profano. Ao outorgar fé à imagem da testemunha « imparcial » no meu livro que defende essa tese, fi-lo porque ao questionar um dos altos funcionários, um homem de espírito brilhante e de uma integridade pouco comum, sobre o caso entreguei-lhe, pela confiança que me inspirara e depositara nele, um texto, uma tese de defesa pessoal acerca do assunto Reik. Estava consciente de não estar a intervir na justiça, pelo que não me parecia credível que ele adoptasse o meu ponto de vista, encerrando o caso com um acordo imparcial.
Os analistas têm adoptado uma opinião comum sobre a análise profana, da qual discordo, o que me tem levado a não solicitar as suas opiniões. Quem, na pesquisa, tem comparado a opinião da Sociedade húngara com a de Nova Iorque, deve talvez presumir que o meu texto não tem colaborado em nada para a defesa do caso, e, porém, mantém a opinião defendida antes de charlatanearia. A pessoa que critica o « charlatão » está isolada, pois numerosos colegas têm moderado a sua opinião aderindo, à minha análise, ou seja, a ideia que a análise profana não tem que estar baseada em costumes tradicionais, mas que pode nascer de uma situação inédita. Assim sendo, este caso necessitava de um julgamento com outro desfecho.
O meu ponto de vista é simples: não se trata de saber se o analista acusado está munido de um diploma médico, importa, isso sim, saber se adquiriu formação específica necessária para o exercício da análise. O assunto em discussão é, pois, saber qual a formação mais apropriada para um analista. Penso e teimo que não é a que a Universidade ensina ao futuro médico. A denominada formação médica, parece-me ser uma caminhada penosa que entrega ao analista, é verdade, muito do que é indispensável, mas também o obriga a outras matérias em nada necessárias à análise. A universidade ensina matérias que podem desviar o saber e as capacidades do analista para um trabalho demasiado teórico e pesado para o analisado. Pode ocorrer o perigo do seu interesse na psicanálise ser perturbado e a sua maneira de pensar distanciar-se dos fenómenos psíquicos. O programa para a formação de um analista deve consistir, em primeiro lugar, a aprender a elaborar, para globalizar, tanto quanto possível, as ciências do espírito : a psicologia, a história da civilização, a sociologia, saberes que a anatomia, a biologia e a história da evolução, mal podem transmitir. Há tanta matéria para aprender, que ao futuro analista pode muito bem ser retirado do programa essas não consideradas fundamentais, por não serem coerentes para entender a mente, por não conferirem directamente com a actividade analítica. Só apenas lateralmente. O que o analista deve saber é tudo o que permita entender os pensamentos da mente analisada, saberes que colaborem para a formação da mente que analisa, ao intelecto da observação sensível.
É fácil esta critica. Não há escolas superiores de análises que satisfaçam este pensamento ideal. É, de facto, uma idealização que pode e deve passar a realidade material. As nossas instituições de ensino, apesar de toda a sua insuficiência juvenil, são o começo dessa realidade sonhada.
Os meus leitores já devem ter entendido, das minhas palavras precedentes, que estou a propor ideias que, nas discussões, são violentamente debatidas: a psicanálise, por exemplo, ainda não é uma especialidade da medicina. Não consigo tão pouco imaginar o porquê da psicanálise não ser reconhecida como tal. Não consigo perceber como é possível, ainda, não ser uma especialidade médica. A psicanálise é parte da psicologia, não apenas da psicologia médica no sentido antigo, ou da psicologia de processos mórbidos, mas sim, e com muita boa vontade, da psicologia como ela é, apenas com mais conteúdo e saber, essa base que passa a ser a psicanálise. Essa análise que não induza a errar na base do seu uso com finalidades médicas. A electricidade e os raios x têm adquirido uma aplicação médica, como teoria física que trata de duas entidades. Tal como os argumentos históricos : nada podem mudar sem provas. Toda a teoria da electricidade faz parte de uma observação, de uma preparação neuro – muscular, porém, ninguém hoje em dia pode pretender que seja parte da fisiologia. Quanto à psicanálise, tem-se comprovado que foi criada por um médico que se esforçava em curar os seus pacientes. Contudo, não avançou muito, mas ajudou no desenvolvimento da teoria psicanalítica. Este argumento histórico é altamente perigoso. Se o continuarmos, poder-se-ia denominar este médico, um mau curandeiro. O corpo médico oferece uma grande resistência ao saber analítico e somos criticados. Não apenas a esse esforçado médico solitário, bem como todos nós. Um dos argumentos parece ser que hoje em dia ninguém está preparado para estudar a mente, ou que exista o direito de a analisar. Na realidade, ainda que recuse esta conclusão, sinto o ímpeto de recusar a ideia dos médicos. Parece-me bem recusar testemunhas como as referidas. Ainda hoje desafio e pergunto-me se as formas médicas de curar não precisam de saber, pelo menos em parte, da teoria analítica, para saber da libido, o primeiro ou segundo dos sub-estágios da dinâmica da vida, como define Abraham, essa dinâmica de se apropriar ou destruir o nosso objecto amado.
É preciso travar, de momento, a análise histórica: por se tratar de uma análise feita por mim, ofereço, aos que se interessem, as minhas motivações para ser analista. A seguir a quarenta anos de prática médica, o meu saber, sobre mim próprio, acusa-me de não ter sido um bom médico (Note 3). Desviei-me, para ser médico, do meu desejo original, desvio imposto sobre mim. Desvio que me levara a um triunfo, de regresso à minha intenção inicial. Desde muito novo, não tinha reparado no meu desejo de ajudar outros seres humanos a curarem-se dos seus sofrimentos. Uma predisposição sádica da minha parte, que não me parecia muito importante. Esta minha necessidade, não precisava de desenvolver a rejeição que outros sentiam por mim. Nunca gostei de brincar a ser “doutor “ A minha curiosidade infantil procurava outras vias. Na minha juventude, sentia a necessidade de entender os outros e os seus mistérios e os mistérios do mundo para os curar ou encontrar uma solução, isto passou a ser para mim um objecto imoderado. A inscrição na faculdade de medicina, parecia-me ser a melhor via para resolver o meu objecto do desejo de colaborar, embora sem sucesso. Experimentara a zoologia e a química, mas a grande influência que tinha sobre mim von Brücke, por mim considerado como a maior autoridade, levou-me à fisiologia (Note 4) E em fisiologia comecei, apesar de ser, nesses tempos, apenas histologia. Fui bem sucedido em todos os exames. Como em medicina, mas sem me interessar ser médico. O meu venerado professor convenceu-me que ia evitar que eu fosse um teórico. Foi assim que troquei a histologia do sistema nervoso à neuropatologia. Estas novas motivações, orientaram-me para estudar neuróticos. Contudo, a ausência de uma orientação real para ser médico, não abalaram os meus pacientes, a doença nada ganha com o entusiasmo de ser ou não médico. Para um doente, é melhor um médico frio mas correcto no seu trabalho.
O exposto antes é apenas para esclarecer a razão da terapia profana. Apenas para corroborar a minha legitimação, ou não, pessoal para analisar. É preciso somente independência e valor para psicoanalisar e afastarmo-nos do saber médico. Pode-se objectar nesta análise, que o saber psicanalista é um sector da medicina como ciência. Mas, medicina ou psicologia? Eis a questão. Confesso que todo o meu interesse é provar que a terapia não mata a ciência. Estas comparações levam a minha reflexão actual para muito longe das minhas anteriores reflexões. A análise é diferente da radiologia. Os físicos não precisam de doentes para estudar os raios x. O analista apenas tem esse material dos processos da psicologia humana. Estudo que só pode ser realizado com seres humanos. Há relações simples para comprender os neuróticos. São um « material » mais flexível e acessível que o ser humano normal. Se esse material é retirado a quem quer ser analista, as suas possibilidades de aprender ficam reduzidas a metade. Nem por isso, penso eu, criar neuróticos para ensinar analistas. Procriar neuróticos seria levar ao sacrifício seres humanos que já sofrem, para entregá-los àqueles que procuram saber científico. Este pequeno texto sobre a análise profana, é apenas para demonstrar as precauções necessárias que o analista deve ter quando trata deste tipo de doentes, devendo, também, fazer bem ao neurótico. Precauções já alertadas por mim. Posso afirmar que a discussão sobre o sujeito perseguido, anteriormente nomeado, é um debate que nada tem de novo. É preciso chamar à atenção que ele tem analisado sem reparar em essa realidade. Tudo o que foi dito sobre o diagnóstico diferencial, é verdade. O sistema corporal, necessita de um médico para diagnosticar. Mas, como o nome da pessoa não aparece, não sabemos se o saber médico é necessário. Não há qualquer interesse científico, mas a análise leiga tem uma imensa importância na vida social e nas vidas dos pacientes. Ao analisar um colega doente, eu próprio não precisei de usar o meu saber médico pessoal, até o próprio colega não confiava da análise médica. Eu próprio não sou muito favorável a análises médicas na psicanálise. O analista profano, antes de consultar os médicos, recorria a massagistas ou a outras pessoas semelhantes. O analista profano de profissão, apenas usava ou o massagista referido ou passava a ser um orientador de consciência laica. Orientação que passou a ter uma fórmula : “direction de conscience laïque” (Note 5), que servia para não procurar especialistas científicos. E curava…a questão está na fama social que estas pessoas adquirem. Os nossos amigos sacerdotes protestantes, e também católicos, libertam aos seus fregueses das suas inibições, com lições de crença e uma rudimentar orientação psicológica para resolução dos seus conflitos. Os psicólogos, os nossos adversários de psicologia individual da teoria de Adler, fazem o impossível para modificar comportamentos. Estes dois processos, o da orientação laica e o dos teóricos de Adler, têm inserido nos seus cuidados, teorias analíticas. Nós, analistas, damo-nos por completo na análise dos nossos pacientes, profunda e completamente, que até parece uma comunidade protestante, católica ou socialista, tentando aprofundar no processo de negação que o inconsciente faz, esse negar da realidade bem como outros que, como eu, se vê forçado, de forma pouco frutuosa, a reprimir as suas ideias e instintos ou orientações. O que nós fazemos é orientar a consciência até encontrar a melhor associação. Na psicanálise, desde o começo, é necessária uma união entre a cura e a pesquisa, um procurar do saber de si que triunfa e cura. É apenas, quando somos capazes de orientar a consciência analítica e aprofundar a nossa compreensão do paciente, que curamos. É essa a mais-valia científica, o prémio do analista.
Este debate fez nascer em mim a suspeita que, ao escrever sobre o analista profano, o texto é mal entendido. Os médicos estão contra este meu texto como se eu os tivesse declarado universalmente inaptos em frente dos seus colegas. Não é essa a minha intenção. Devo declarar que os médicos analistas sem formação, são bem mais perigosos, aparentemente, que os profanos. A minha opinião real pode ser transferida ao copiar uma reportagem cínica emitida por Simplicissimus (Note 6) sobre as mulheres. Um dos interlocutores desespera-se das fraquezas do belo sexo, enquanto um outro responde remarcando que a mulher é o melhor que há dentro do género humano. As mulheres são o que há de melhor como material entre os analistas. Apenas existe o direito que a sua preparação não tome vantagem sobre a aprendizagem do sexo masculino, sem tomar vantagem de serem mulheres para ganharem melhores lugares entre os estudantes da faculdade. (Note 7). Da mesma maneira, partilho o apoio dos que usam os materiais somáticos em relação aos problemas psíquicos e os seus fundamentos orgânicos, anatómicos e químicos, como fazem os analistas médicos. Não é possível esquecer, também, essa quantidade de pessoas que fazem psicanálise por um lado, e por outro procuram ajuda entre pessoas formadas em ciências do espírito Por motivos práticos, temos o hábito de separar as análises médicas das análises da psicologia. Isto não é correcto. Na realidade, a linha de demarcação está entre a psicanálise científica e a sua aplicação no sector medicamentoso e no não medicamentoso.
Os nossos colegas americanos sabem fazer tudo muito bem. A recusa à análise profana aparece nos seus debates. Estou em crer, que apenas se trata de um abuso do analista e das suas finalidades polémicas, relativamente à resistência médica à análise profana, por motivos pragmáticos. Os Americanos reparam que os analistas profanos no seu país são abusivos e excessivos. Consequentemente, apresentam-se aos seus pacientes como os verdadeiros analistas e cobram muito dinheiro. Ora ai é que é compreensível o desgosto dos analistas clínicos e a distância definida entre eles e os profanos
A resolução dos nossos colegas americanos contra os analistas profanos, ditada apenas por assuntos práticos, ao não poder, por lei, acabar com eles, parece-me sensata. Se não é possível afastar os analistas profanos, é, pelo menos, inapropriado desconhecer a sua existência. O que seria sábio, era reconhecer a possibilidade de uma aprovação no universo dos médicos. Aproximação que visasse colaboração, como no caso da Europa, quer a nível intelectual, quer a nível moral».
NOTAS.
Note 1: Cette traduction ne prétend à aucune originalité. Elle est motivée par une question de droits. La traduction Gallimard (Janine Altounian, André et Odile Bourguignon, Pierre Cotet, avec la collaboration d’Alain Rausy) (qui n’est pas du domaine public), en effet, semble difficilement améliorable, étant d’une très grande fidélité au texte freudien (les seules infidélités sont motivées par la légitime nécessité d’éviter des redondances ou des formulations que la traduction aurait rendues incorrectes). Les différences de traduction sont insignifiantes, et la traduction Gallimard de la postface doit demeurer la référence. Il eût fallu être infidèle à Freud (dont le texte allemand est d’une grande clarté) pour s’écarter sensiblement de cette traduction. (NdT) (Retour à l’appel de note 1)
Note 2: Cette postface a été publiée à l’issue d’une discussion organisée par la Revue Internationale de Psychanalyse, en été 1927 (13ème année, N° 2 et 3), sur la question de l’analyse profane. (Note du texte allemand) (Retour à l’appel de note 2)
Note 3: La redondance est dans le texte de Freud. (NdT) (Retour à l’appel de note 3)
Note 4: On pense aussi évidemment à Charcot. (NdT) (Retour à l’appel de note 4)
Note 5: L’édition Gallimard ajoute à cette formule la deuxième formule “cure d’âme laïque”, à laquelle rien ne correspond dans le texte allemand. Cet ajout se justifie très certainement par une volonté d’atténuer le caractère normatif de l’expression “weltiche Sellsorge”. (NdT) (Retour à l’appel de note 5)
Note 6: Personnage de l’écrivain allemand Grimmelshausen (Les aventures de Simplicius Simplicissimus). (NdT) (Retour à l’appel de note 6)
Note 7: Le passage est délicat : “Wo es darauf ankommt, psychologische Tatsachen durch psychologische Hilfsvorstellungen zu erfassen”. Ou nous considèrons que “Hilfs” renforce “durch” (“à l’aide de”) ou nous considérons que les concepts sont ici des concepts de remplacement (un des sens possi-bles des mots commençant par “Hilfs”), des concepts qui se substituent à des modèles d’inter-pré-tation non psychologiques (voir juste avant la remarque sur l’endocrinologie et le système nerveux autonome). C’est là mon interprétation. (NdT) (Retour à l’appel de note 7)
Dernière mise à jour de cette page le Mardi 15 octobre 2002 12:03
Par Jean-Marie Tremblay, sociologue.
[1] Miller, Alice, (1998 em alemão) 2005: Paths of Life, 1998, Pantheon Books, New York. A Introdução pode ser lida em: http://www.vachss.com/media/righteous/page_miller.html e comentário do livro, em: http://primal-page.com/ampaths.htm
[2] Do It. Ciarlatano s. m., vendedor, em lugares públicos, de drogas cujas virtudes apregoa exageradamente; aquele que explora a boa-fé do público; impostor; intrujão; pantomineiro;
deprec., mau médico. Definido em: http://www.priberam.pt/dlpo/definir_resultados.aspx A nota é minha, não de Freud.
