A desindustrialização , um primeiro retrato dos Estados Unidos. Como Reading, cidade operária, naufragou. AFP/Spencer Platt, Le Monde. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.

Uma loja de vestuários para os mais pobres em  Reading (Pensilvânia), em

 

Novembro  de 2011. AFP/SPENCER PLATT, Le Monde

 

 

É a história de uma degradação, primeiro que tudo a história da degradação de uma agradável cidade operária atingida  pelas dificuldades da metalurgia americana, nos anos 1970, cuja descida aos infernos se acelerou brutalmente nestes últimos anos. Símbolo do desmoronamento industrial que, nos Estados Unidos, acompanhou a subida em força da economia financeira e dos serviços, Reading (86 000 habitantes), no condado de Berks, na Pensilvânia, de acordo com o Census Bureau (equivalente americano do nosso INE), é hoje a cidade mais pobre do país: 41,3% dos seus habitantes estão sob o limiar de pobreza.


Aqui vive a outra América. Não a dos expropriados da recente crise financeira, mas o  das vítimas da última fase de desindustrialização do país. No entanto, e bem contrariamente a  certos bairros de Detroit (Michigan) ou de Cleveland (Ohio), cidades símbolo  do desmoronamento “da velha indústria”, onde a desolação é instantaneamente perceptível, o centro da cidade de Reading é  testemunho  de um certo  provincianismo onde, até há pouco, não se vivia nada  mal.


Mas é suficiente virar a esquina de Main Street para sermos  confrontados com outra realidade. Aqui, o Berks Community Action  Program (BCAP) distribui roupas  aos mais indigentes. Aí , uma outra associação faz a promoção dos seus programas: “Como gerir o seu orçamento quando este diminui fortemente”. Os cursos são gratuitos. Ao  lado, o gabinete jurídico Krasno, Krasno & Onwudinjo faz propaganda do  seu “knowhow” na defesa das vítimas do trabalho e dos assalariados despedidos.


Quanto a despedimentos, Reading, desde  há  quinze anos  que parece  quase  não conhecer  outra coisa. Uma cascata que, “nesta cidade de colarinhos-azuis  os salários e a cobertura social eram bons e a sindicalização elevada “, de acordo com o consultor local John Devere, deixou o mercado de trabalho e o  emprego exangue. A cidade e a sua periferia   abrigavam   várias  indústrias do antigo modelo  industrial (metalurgia, agro-alimentar, têxtil), mas também “a nova economia” (electrónica, telefonia)… Dana, subcontratante automóvel, fechou em 1999, como fechou também a fábrica de metalurgia Carpenter que dispunha de um laboratório de investigação. Herschey (agro-alimentar), Baldwin Brass  (material de escritório)  foram as  fábricas seguintes a tomarem o mesmo caminho.


Aparecimento  de gangs


O caso mais eloquente é o de Agere (ex – Lucent Technology) que fabricava semicondutores, cabos de  fibras ópticas e componentes telefónicas. O seu sítio passou progressivamente de 5.000 para 1.600 assalariados antes de fechar, em 2003. “Hoje, diz-nos Devere, Agere não fabrica mais nada nos Estados Unidos, toda a sua produção foi deslocalizada  “, em  Bangalore (Índia) e Shanghaï (China), na  Tailândia, nos Países Baixos e em Israel…

 

Durante “doze anos terríveis (1993-2005), 20 fábricas que empregam entre 300 e 4.000 assalariados puseram a chave debaixo d a porta “, nota Devere. A maior parte deslocalizou a sua produção, primeiro para o México, mais recentemente  para  a Ásia e até mesmo para a Europa: porque o trabalho dos assalariados é aqui menos caro  que  noutros  lugares e, às vezes,  porque a competência é melhor.


A cidade ainda não se recompôs. Hoje, o hospital é o primeiro empregador. No condado restam apenas algumas  PME de 20 até  200 assalariados. Pate Gilles, o Vice-Presidente da secção local de United Way, associação nacional centenária de acção social, cita três pistas para explicar “a engrenagem”: “Quando muito grandes os empregadores partem, isto  abala o equilíbrio de uma comunidade; a substituição das indústrias por serviços que utilizam trabalhadores sem qualificação e precários altera a sociologia local; e, por último, Reading conheceu um problema específico e trágico de especulação imobiliária.“


Para resumir, a partida dos grandes  industriais e a sua substituição por serviços de baixo valor acrescentado, de gama baixa,  fizeram também  partir uma população qualificada: em 1990, Reading contava 2.500 assalariados em laboratórios de investigação. Esta população foi substituída por novos vindos que não têm os mesmos níveis de formação.


Por último, os promotores imobiliários, atraídos pelos loteamentos bonitinhos que se têm  tornado disponíveis, dividiram-nos  em dois ou três para realizar belas  mais-valias revendendo depois  a uma população pouco afortunada em procura de um acesso à propriedade que seja menos dispendioso, “num ambiente são”.


Aquela, na imensa na maioria, foi hispânica. Desde gerações, uma população “latina” vivia aqui. Como acontece frequentemente, uma imigração étnica atraiu os seus próprios cidadãos. A cidade operária tornou-se uma cidade de gueto étnico e uma cidade pobre. Na escola primária, indica a senhora  Gilles, “80 % das crianças são hispânicas . A cidade é assim mas apenas na proporção de  58 %”.


“O ambiente são” deteriorou-se com o aparecimento de gangs. Quase por toda a parte na cidade, encontram-se estes milhares de jovens e menos jovens desempregados que já nem emprego procuram, sentados nas suas varandas  e cujos trabalhadores sociais locais dizem que “estes nunca mais voltarão a trabalhar.”


Doug Longo, o director e organizador  de  Greater Berks Food Bank, que dá gratuitamente alimentos aos necessidades , apresenta um espantoso resumo do desmoronamento desta cidade: o seu organismo distribuirá este ano 2.800 toneladas de produtos e alimentares,  contra 740  toneladas  há quinze anos. “O mais desolador, acrescenta  a Sra. Gilles, é que se por milagre Agere pudesse voltar a abrir já  não teríamos  população capaz de aí  trabalhar. O que nos  está agora  a acontecer já se verificou noutras cidades médias na Pensilvânia “

 

 

Próximo artigo : Quando GM renuncia à produção no  México para reabrir no Tennesse.

 

 

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