Robert Walser O Homem Apaixonado e a Desconhecida
(tradução de Isabel Castro Silva)
Robert Walser nasceu em Biel. na Suíça, em 1878. Entre 1904 e 1933, publicou uma vasta e original obra poética e romanesca que entusiasmou a crítica (são exemplos Walter Benjamin e Max Brod) e alguns dos principais escritores de língua alemã, como Hesse, Kafka e Musil. Em 1929 ingressou voluntariamente num manicómio. Foi encontrado morto, na neve, por um grupo de crianças no dia de Natal de 1956, quando dava um dos seus habituais passeios. Escreveu cerca de mil narrativas curtas.
Heinrich: Bonito caminho este, não lhe parece?
A desconhecida: Quando há pouco se acercou de mim, vi pelos seus passos, pela sua maneira de andar vagarosa, prazenteira e tranquila, que iria dirigir-me a palavra. Foi isso que aconteceu, e porque já estava preparada, respondi.
Heinrich: Teria sido para mim pouco natural passar por si sem dizer nada. Este ribeiro, a folhagem tão tranquila, tão convidativa. Estava certo de que a menina se deteria um momento e permitiria que eu a acompanhasse. Acha que tenho qualquer coisa de inquietante?
A desconhecida: De maneira nenhuma. Costuma passear sempre sozinho?
Heinrich: Tem mãos bonitas e pés delicados. É verdade que uma rapariga não corre perigo comigo. Não me pertenço, nunca passeio sozinho, sou um homem acorrentado e ao mesmo tempo demasiado feliz para ser indelicado. Acompanha-me sempre uma mulher que me ignora. O que ela é, como ela é, flutua à minha volta. E fala comigo, ora alegremente… ou antes, não deixo que ela fale comigo a não ser seriamente. Vejo-a como mais me apraz pensar nela, faço o que quero com a sua imagem, muitas vezes escorraço-a sem precisar de ter medo de um dia a perder. Se ela soubesse como gosto dela, o que faço com ela, ficaria indignada, mas poderá proibir-me de pensar? Pensar nela, qualquer pequeno pensamento, fortalece-me. A menina parece-se com ela ao longe, e daí este meu trato familiar.
A desconhecida: Mas quem fui eu encontrar?
Heinrich: Um homem apaixonado.
A desconhecida: Bem se vê, pela sua franqueza.
Heinrich: Magoa-a, a minha franqueza?
A desconhecida: Não deveria magoar, e no entanto magoa. Gostaria de conhecê-lo, mas o senhor está sempre acompanhado. Pensei que poderia significar alguma coisa para si.
Heinrich: Gosto de si.
A desconhecida: Apenas porque me contou a história da sua felicidade?
(in Robert Walser, Histórias de Amor, Relógio d’Água)

