23- BLOGOCONTOS – Nocturno – por Voz Bissexta

Voz Bissexta executou este “Nocturno ” com 2198 caracteres. Vamos ler:

 

Ela usufruía do poder da beleza, da sedutora vida viva que a vestia. Sem malícia, com sub-reptícia ironia. Pastoreava os submissos desejos que a seguiam, como miúdo gado. Domava os que, enredados em indecifrável teia, ensaiavam alçar-se acima do patamar que lhes consentia. Saboreava o domínio que a sua acutilante intelectualidade lhe facultava e a aparente leveza disfarçava. Gostava do frémito do risco, do fino fio que, por travessura, para travessia buscava. Sofria, porém, de humanidade. Por vezes roçava limites que não conhecia, desequilíbrios sobre a linha fluida que traçara, errava o lance no jogo que aceitara; emoções, sentimentos, aquela gota de álcool a mais… perturbavam a firmeza da mão que segurava a rédea, o volante, o timão. 

 

Ele gastara já incertezas e aventuras, não ansiava repetir vivências, era a serenidade que procurava. Porém, irrecusável, a beleza sempre renascia e a alegria da paixão e a previsível dor.

 

E era ele quem ela, agora, queria. E para ele se abria, devagar – flor nocturna.

 

No restaurante do bairro, popular e na moda, vão traçando os convergentes caminhos. Chegam amigos dela, jovens que afogavam banais vivências em pequenas marginalidades, de frágeis patas mal assentes em friáveis camadas de pretensiosa lama artística.

 

Entraram no discreto refúgio do grupo. O que se tinha por mais ousado baixou a alça do leve vestido dela, beijou-lhe o seio nu, tentando inventar ciúmes nele – o adventício. Não sabia, viajante de bairro que era, a extensão do mundo do outro, de Paris a Praga, de Moscovo a Kiev ou Minsk, de La Habana à “Route 66”, de Marselha a uma Alexandria desmemoriada, sem Durrell nem Poeta, onde uma antiga e vaga identidade remanescia, miserável e fascinante… Nem da outra dimensão dele: a experiência. Deixou-se ficar a sós com ele, estendeu-lhe o charro, tenteando a irmandade impossível ou a ilusória superioridade da transgressão. Ele acendeu calmamente um cigarro, disse: prefiro destes. O outro insistiu, ele cuspiu um “não” ríspido, inesperadamente duro, o olhar firme, frio. O postulante marginal meteu a mão no bolso, procurando, talvez, um dos seus apoios mais caros: o pénis ou a ponta-e-mola. Mas percebeu-se inseguro, inquieto, batido no terreno que julgava seu: vamos ter com os outros, murmurou.

 

No fim da noite, quando se deitaram juntos pela primeira vez, ele beijou-a e virou-lhe as costas, aninharam-se como dois velhos amantes e adormeceram.

 

De manhã, quando o desejo, despido de inúteis adereços, acordou puro, amaram-se finalmente. Com paixão. Que ele sabia intensa, inesquecível. E breve.

 

 

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